A IMAGEM DA CORRIDA

Carros parados com pane de software: largada abortada e vexame da FIA

SÃO PAULO (cinzenta) – Lá vamos nós recorrer mais uma vez a frames da TV. O GP do Bahrein na Malásia foi legal, a vitória de Max Verstappen foi bonita, a recuperação de Lewis Hamilton foi comovente, o abandono de George Russell foi dramático. Mas nada foi tão marcante quando a pane geral nos carros quando iam largar debaixo de chuva. Me lembrei na hora do filme “O dia em que a Terra parou” — versão original de 1951, claro; o remake de 2008 não vi.

Pesquisem. Melhor ainda: assistam. Está aqui.

Quando os carros começaram a parar, ninguém entendeu direito. Foi um problema de software. As unidades de potência, aquilo que a gente antigamente chamava de motores, recebem certas programações padronizadas — basicamente, para controlar a entrega de energia que carrega as baterias dos motores elétricos. A FIA determina certos parâmetros para cada pista e todo mundo tem de usar a mesma configuração. Ocorre que esses comandos só funcionam a partir de uma certa rotação dos motores a combustão. Quando o carro está muito lento, com rotação mais baixa do que o computador entende, dá uma bugada, um conflito de gerenciamento. O equipamento entra em modo de segurança. O turbo para de funcionar. Desliga tudo.

Estava todo mundo muito lento por causa da chuva, do spray, do medo de aquaplanar. Carro de F-1 não pode andar devagar. Os sistemas que gerenciam a bagaça não entenderam o que estava acontecendo. Em trechos enormes de reta (eles funcionam também por georreferenciamento), os motores deveriam estar em aceleração e não estavam. Travaram. Assim, alguns carros foram parando, parando, até pararem de vez. Nada funcionava. Por isso deram uma bandeira vermelha, trouxeram todo mundo para os boxes e tiveram de reiniciar os sistemas. Levou um tempinho, daí o atraso para a largada.

Achei um vexame, mas também o mundo não vai acabar por causa disso. O mundo vai acabar por outros motivos. Já começou, inclusive. Klaatu tinha avisado.

Klaatu e Gort: já tinham avisado

Há meses digo aqui que Kimi Antonelli já ganhou o campeonato. Ontem, deu mais um largo passo com o segundo lugar em Sepang. O abandono de George Russell, que pode reclamar do azar nesta temporada sem passar por chorão, tampou seu caixão. São 84 pontos de diferença, agora. Não há muito o que fazer.

E menos ainda diante do quadro que se avizinha para as últimas etapas da temporada, a saber: a entrada da Red Bull no jogo, agora que a equipe acertou a mão do carro. A Mercedes teve na Ferrari e na McLaren adversárias competitivas em alguns momentos do campeonato, mas foram situações efêmeras. Nem uma nem outra teve consistência suficiente para alguém dizer: acabou o domínio dos alemães. Pelo que se viu na Malásia, porém, ninguém precisa ter pudor para colocar Verstappen como favorito — isso mesmo, favorito — a vitórias nas corridas que restam até o fim do Mundial. Anotem aí: ele ganha pelo menos umas três das sete vindouras.

Os pontos depois de 16 etapas: Kimi disparado na frente

Falemos da má corrida de Gabriel Bortoleto. Noto que ele assume seus erros com altivez, o que é muito bom. Bateu em Carlos Sainz no início da prova, após o safety-car, e entendeu os motivos: pegou a pista um pouco molhada por dentro, travou as rodas, não teve como segurar. Desculpou-se com o espanhol. Ganha pontos com os colegas, nessas horas.

O problema foi que a batida resultou em punição, acabando com suas possibilidades de pontos. Que existiam. Chegou a andar em oitavo lugar, podia sonhar. No fim, a Audi zerou de novo. Nico Hülkenberg terminou em 11º. Aliás, isso nos leva ao…

NÚMERO DA MALÁSIA

…vezes a Audi terminou uma corrida em 11º nesta temporada, batendo na trave dos pontos. Bortoleto ficou nessa posição em cinco GPs (Mônaco, Catalunha, Áustria, Hungria e Itália). Hulk, em quatro (China, Japão, Azerbaijão e Bahrein/Malásia).

O layout da Audi para Singapura: sai o vermelho, entram referências à cultura local

Falando na Audi, eis a pintura especial de seus carros para o GP de Singapura. No lugar do vermelho, estampas típicas da cultura “peranakan”, ligada aos imigrantes chineses que se casaram com mulheres malaias lá atrás, no século 15. O prata do corpo do carro também será mais claro, para dar um efeito bacana nas luzes de Marina Bay.

Ficou lindo, diga-se de passagem.

A FRASE DE SEPANG

“Foi nosso pior fim de semana no ano. Deixamos George na mão de novo. Isso já aconteceu muitas vezes nesta temporada. Não é aceitável.”Toto Wolff, chefe da Mercedes
Russell quebra mais uma vez: maré de azar, campeonato enterrado

Pobre George. Estava em terceiro, e lá chegaria, não fosse a quebra de motor — hoje as equipes chamam de “problemas na unidade de potência”. É possível que tenha de trocar em Singapura, perdendo posições no grid. Péssimo lugar para fazer isso. A pista é de ultrapassagens complicadas e largar atrás é um problemão.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… da Aston Martin, principalmente de Fernando Alonso, que terminou em oitavo resistindo aos ataques do campeão mundial Lando Norris nas últimas voltas. Finalmente o carro verde deu algum sinal de vida no campeonato. Até Lance Stroll foi bem. OK, ficou só em 12º. Mas foi a primeira vez no ano que completou um GP inteiro, fazendo todas as voltas previstas para a corrida. Até então, tinha 11 abandonos e quatro provas concluídas, mas todas elas tomando volta (ou voltas) do vencedor.

Alonso: felizão com o oitavo lugar em Sepang

NÃO GOSTAMOS… da Alpine, que ficou no zero na Malásia por uma execução toda equivocada da corrida. Pierre Gasly parou quatro vezes nos boxes. Era nono no grid, terminou em 16º. Um de seus pecados foi ter largado de slicks. Já Franco Colapinto até que se recuperou, de 21º no para 13º. Mas também não pontuou. Como a Racing Bulls fez sete pontos (sétimo de Liam Lawson, décimo de Arvid Lindblad), o time francês se afastou mais um pouco do quinto lugar no campeonato. Agora, o time de Faenza tem 90 pontos, contra 68 dos franceses.