Publicado em 05/10/2026 às 23:35
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A IMAGEM DA CORRIDA
Carros parados com pane de software: largada abortada e vexame da FIA
SÃO PAULO(cinzenta) – Lá vamos nós recorrer mais uma vez a frames da TV. O GP do Bahrein na Malásia foi legal, a vitória de Max Verstappen foi bonita, a recuperação de Lewis Hamilton foi comovente, o abandono de George Russell foi dramático. Mas nada foi tão marcante quando a pane geral nos carros quando iam largar debaixo de chuva. Me lembrei na hora do filme “O dia em que a Terra parou” — versão original de 1951, claro; o remake de 2008 não vi.
Quando os carros começaram a parar, ninguém entendeu direito. Foi um problema de software. As unidades de potência, aquilo que a gente antigamente chamava de motores, recebem certas programações padronizadas — basicamente, para controlar a entrega de energia que carrega as baterias dos motores elétricos. A FIA determina certos parâmetros para cada pista e todo mundo tem de usar a mesma configuração. Ocorre que esses comandos só funcionam a partir de uma certa rotação dos motores a combustão. Quando o carro está muito lento, com rotação mais baixa do que o computador entende, dá uma bugada, um conflito de gerenciamento. O equipamento entra em modo de segurança. O turbo para de funcionar. Desliga tudo.
Estava todo mundo muito lento por causa da chuva, do spray, do medo de aquaplanar. Carro de F-1 não pode andar devagar. Os sistemas que gerenciam a bagaça não entenderam o que estava acontecendo. Em trechos enormes de reta (eles funcionam também por georreferenciamento), os motores deveriam estar em aceleração e não estavam. Travaram. Assim, alguns carros foram parando, parando, até pararem de vez. Nada funcionava. Por isso deram uma bandeira vermelha, trouxeram todo mundo para os boxes e tiveram de reiniciar os sistemas. Levou um tempinho, daí o atraso para a largada.
Achei um vexame, mas também o mundo não vai acabar por causa disso. O mundo vai acabar por outros motivos. Já começou, inclusive. Klaatu tinha avisado.
Klaatu e Gort: já tinham avisado
Há meses digo aqui que Kimi Antonelli já ganhou o campeonato. Ontem, deu mais um largo passo com o segundo lugar em Sepang. O abandono de George Russell, que pode reclamar do azar nesta temporada sem passar por chorão, tampou seu caixão. São 84 pontos de diferença, agora. Não há muito o que fazer.
E menos ainda diante do quadro que se avizinha para as últimas etapas da temporada, a saber: a entrada da Red Bull no jogo, agora que a equipe acertou a mão do carro. A Mercedes teve na Ferrari e na McLaren adversárias competitivas em alguns momentos do campeonato, mas foram situações efêmeras. Nem uma nem outra teve consistência suficiente para alguém dizer: acabou o domínio dos alemães. Pelo que se viu na Malásia, porém, ninguém precisa ter pudor para colocar Verstappen como favorito — isso mesmo, favorito — a vitórias nas corridas que restam até o fim do Mundial. Anotem aí: ele ganha pelo menos umas três das sete vindouras.
Os pontos depois de 16 etapas: Kimi disparado na frente
Falemos da má corrida de Gabriel Bortoleto. Noto que ele assume seus erros com altivez, o que é muito bom. Bateu em Carlos Sainz no início da prova, após o safety-car, e entendeu os motivos: pegou a pista um pouco molhada por dentro, travou as rodas, não teve como segurar. Desculpou-se com o espanhol. Ganha pontos com os colegas, nessas horas.
O problema foi que a batida resultou em punição, acabando com suas possibilidades de pontos. Que existiam. Chegou a andar em oitavo lugar, podia sonhar. No fim, a Audi zerou de novo. Nico Hülkenberg terminou em 11º. Aliás, isso nos leva ao…
NÚMERO DA MALÁSIA
…vezes a Audi terminou uma corrida em 11º nesta temporada, batendo na trave dos pontos. Bortoleto ficou nessa posição em cinco GPs (Mônaco, Catalunha, Áustria, Hungria e Itália). Hulk, em quatro (China, Japão, Azerbaijão e Bahrein/Malásia).
O layout da Audi para Singapura: sai o vermelho, entram referências à cultura local
Falando na Audi, eis a pintura especial de seus carros para o GP de Singapura. No lugar do vermelho, estampas típicas da cultura “peranakan”, ligada aos imigrantes chineses que se casaram com mulheres malaias lá atrás, no século 15. O prata do corpo do carro também será mais claro, para dar um efeito bacana nas luzes de Marina Bay.
Ficou lindo, diga-se de passagem.
A FRASE DE SEPANG
“Foi nosso pior fim de semana no ano. Deixamos George na mão de novo. Isso já aconteceu muitas vezes nesta temporada. Não é aceitável.”Toto Wolff, chefe da Mercedes
Russell quebra mais uma vez: maré de azar, campeonato enterrado
Pobre George. Estava em terceiro, e lá chegaria, não fosse a quebra de motor — hoje as equipes chamam de “problemas na unidade de potência”. É possível que tenha de trocar em Singapura, perdendo posições no grid. Péssimo lugar para fazer isso. A pista é de ultrapassagens complicadas e largar atrás é um problemão.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da Aston Martin, principalmente de Fernando Alonso, que terminou em oitavo resistindo aos ataques do campeão mundial Lando Norris nas últimas voltas. Finalmente o carro verde deu algum sinal de vida no campeonato. Até Lance Stroll foi bem. OK, ficou só em 12º. Mas foi a primeira vez no ano que completou um GP inteiro, fazendo todas as voltas previstas para a corrida. Até então, tinha 11 abandonos e quatro provas concluídas, mas todas elas tomando volta (ou voltas) do vencedor.
Alonso: felizão com o oitavo lugar em Sepang
NÃO GOSTAMOS… da Alpine, que ficou no zero na Malásia por uma execução toda equivocada da corrida. Pierre Gasly parou quatro vezes nos boxes. Era nono no grid, terminou em 16º. Um de seus pecados foi ter largado de slicks. Já Franco Colapinto até que se recuperou, de 21º no para 13º. Mas também não pontuou. Como a Racing Bulls fez sete pontos (sétimo de Liam Lawson, décimo de Arvid Lindblad), o time francês se afastou mais um pouco do quinto lugar no campeonato. Agora, o time de Faenza tem 90 pontos, contra 68 dos franceses.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.