SÃO PAULO (vai ser interessante) – Vamos lá. Nenhum piloto é obrigado a deixar o outro passar porque o outro acha que tem direitos adquiridos porque seu carro parece estar mais rápido. Não é assim que funciona. Mansell tinha um carro muito mais rápido que Senna em Mônaco em 1992. Não passou. Senna se defendeu […]
A treta na sexta volta: Kimi ficou irritado com o companheiro
SÃO PAULO(vai ser interessante) – Vamos lá. Nenhum piloto é obrigado a deixar o outro passar porque o outro acha que tem direitos adquiridos porque seu carro parece estar mais rápido. Não é assim que funciona. Mansell tinha um carro muito mais rápido que Senna em Mônaco em 1992. Não passou. Senna se defendeu e ganhou a corrida. Schumacher tinha um carro mais rápido que Alonso em Ímola em 2005. Não passou. Alonso se defendeu como um leão e ganhou.
É assim que funciona. Desde que não haja nenhuma ação ilegal daquele que está à frente, cabe a quem está atrás encontrar os caminhos e/ou atalhos para passar. Foi exatamente isso que aconteceu na Sprint de Montreal agora há pouco. George Russell se defendeu de um ataque de Kimi Antonelli na sexta volta da minicorrida na curva 1. Na verdade, não fez nada que Kimi não faria: manteve seu traçado sem espalhar escandalosamente na saída da curva, para tomar a curva seguinte no traçado ideal. Não deixou espaço? Não. Não tinha por que deixar espaço, já que Antonelli estava atrás. “Ah, mas ele emparelhou”. OK, chegou a ficar quase lado a lado, “o espelho à altura do eixo dianteiro” etc. — ah, as “diretrizes” da FIA…
Mas na vida real não é assim. Vejam a sequência abaixo:
Russell faz a tomada para a curva 2……sem deixar espaço para Kimi……que é obrigado a ir para a brita……para evitar a batida……e depois erra na chicane e perde o segundo lugar
O traçado de Russell é defensivo. Normal. Antonelli, que nessa mesma volta perdeu também a segunda posição para Lando Norris — porque tentou de novo e atravessou uma chicane na curva 8 –, tentou a mesma manobra sobre o inglês da McLaren, na abertura da última volta. Passou direto, porque o campeão mundial se defendeu do mesmo jeito, tomando a curva seguinte, para a qual tinha a preferência, de modo a não dar espaço para o italiano. Só que, nessa tentativa, o jovem líder do campeonato evitou o atrito e foi reto. Afinal, era carro de outra equipe.
Antonelli é jovem e impetuoso, mas de bobo não tem nada. Ao contrário: é um talento excepcional e, hoje, mostrou que sabe fazer os tais “mind games”, também. Quando se insinuou para cima de Russell — com quem, afinal, disputa o título — e começou a reclamar pelo rádio, jogou para a torcida. E não tem nada de errado nisso. Faz parte do jogo. Só que quem joga assim precisa segurar o rojão. Porque o adversário pode jogar duro, também. E Russell jogou. Dentro das regras, sem fazer nada de errado. Tanto que não houve sequer uma investigação pelos comissários.
Kimi precisa apenas ter cuidado para não passar do ponto tão cedo. Buscar a vitória, OK. Sempre é OK buscar a vitória. Sua tentativa de ultrapassagem foi legítima e justificada. Não deu? Rabinho entre as pernas e tenta de novo. Dar chilique pelo rádio não é a melhor política.
Antonelli reclama, Russell comemora: Mercedes terá de administrar
E ele deu… Foram várias reclamações e respostas da equipe. Primeiro, seu engenheiro Bono Vox: “Fica calmo”, “foco no Norris e na corrida”. E ele: “Caguei pra isso, ele me jogou pra fora!”. O moleque não parava. Até entrar o chefe Toto Wolff no circuito. “Kimi, se concentra na corrida e pare de ficar chorando pelo rádio”, disse, primeiro. Ao fim da corrida, chamou novamente a atenção do menino: “Não é assunto para ficar falando no rádio, vamos conversar depois”, falou, irritado com a insistência de seu pupilo.
Tudo isso “faz parte”, como se diz. Quando se encontraram fora do carro, Russell e Antonelli trocaram um frio aperto de mãos. Na entrevistinha com os três primeiros, Kimi falou que foi uma “boa batalha” e George não esticou o assunto. Na sala de imprensa, o inglês tentou mostrar ao amiguinho que foi tudo normal. Não disse, mas poderia ter dito: também já fui assim.
Aperto de mão: Russell não fez nada de errado
Num sábado nublado e com 20°C de temperatura, a Sprint canadense teve cinco pilotos largando dos boxes: Oliver Bearman, Pierre Gasly, Valtteri Bottas, Alexander Albon e Lance Stroll. Três partiram com pneus macios (Bottas e Sergio Pérez, a dupla da Cadillac, e Stroll, da Aston Martin) e um, com duros (Arvid Lindblad, da É por Aproximação?). Os demais, com médios.
Não se sabe exatamente o que a Mercedes tinha de errado no seu sistema de largada até agora neste ano. Mas seja lá o que for, ou o que era, está resolvido. Russell, da pole, e Antonelli, de segundo no grid, partiram como um raio desta vez e não perderam posição para ninguém. Desapareceram na frente. Em cinco voltas, tinham mais de 3s sobre Norris. Este era seguido por Lewis Hamilton, Oscar Piastri, Charles Leclerc, Max Verstappen e Lindblad nas oito primeiras posições.
Resultado da Sprint e a turma dos pontos
Depois da treta na sexta volta, Antonelli perdeu a concentração e a posição para Landinho. Queria um pênalti para seu companheiro de equipe. Demorou um pouco para se aprumar. Na volta 12, Norris colou em Russell. Parecia mais rápido, mas não atacava. Impassível, George se mantinha olimpicamente na frente. Kimi, então, chegou para a disputa. Fez a tentativa da última volta, não deu certo, terminou em terceiro. Atrás deles vieram Piastri, Leclerc, Hamilton, Verstappen e Lindblad. Lewis perdeu duas posições na última volta. Gabriel Bortoleto, da Audi, ficou em 12º. E o destaque foi Pérez, andou boa parte da prova em 11º com o carro estreante da Cadillac, mas terminou em 14º.
Russell disse que “respeita” Kimi por ter tentado a ultrapassagem, mas que ao mesmo tempo sabe que naquele ponto da pista “ninguém passa por fora”. Tentou contemporizar e não atacar o menino. Experiente, não quis criar um climão. Antonelli parecia mais calmo, também, na coletiva para a imprensa. George disse estar “feliz porque estamos aqui agora”. “Poderia ter sido algo diferente, mas não foi, e é assim que as corridas devem ser.”
Próximo capítulo dessa novela que começou agora, amanhã. Antes tem definição do grid para o GP canadense, às 17h.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.