SÃO PAULO (chovendo fraco, 22 graus) – Interlagos é muito esquisito, e por isso é legal. A classificação começou com 23 graus medidos pelo Celso, 25 no asfalto e uma chuva acionada por Bernie Ecclestone (que tem uma valise cheia de botões, e num deles está escrito “rain”) minutos antes da luz verde. Acabou com sol, 26 graus, 36 na pista sequinha, sequinha.
Por isso o Q1 foi bacana, quase uma minicorrida, com todos os 24 carros na pista sumultaneamente andando sem parar, sabedores que são de uma característica muito particular deste circuito: ele seca rapidamente.
Assim, as voltas que começaram a ser fechadas em 1min24s despencaram de forma drástica e veloz. Os grandões esperaram os dez minutos finais para ir à pista, quando a situação asfáltica era mais amigável, e foi aí que o público pôde ver todo mundo andando ao mesmo tempo, com ultrapassagens, dedos do meio e burradas homéricas — Grojã teve a manha de acertar a traseira de Dom Pedrito das Rosinhas na reta dos boxes; se se enroscam de verdade ali, ficam os dois espetados na quina da entrada do pit lane e seria difícil retirar os corpos.
No fim das contas dançaram os de sempre, os seis nanicos, mais o francês da Lotus, 18°. Hamilton fez o melhor tempo, 1min15s075. Maldanado tomou um sustinho, mas no fim deu tudo certo para o resto.
No Q2 a pista já estava totalmente seca e Hamilton socou a bucha, 1min13s398. Mas Fêtel deu o troco, 1min13s209. O drama ficou por conta de Massa. A um minuto do final, ele estava em 12°. Fez uma voltinha no laço em 1min14s048 e bateu na trave: décimo. Dançaram Resta Um, Senninha, Serjito, Matusalém, Koba-Mito, Ricardão e Verme. Tudo normal, pois.
Já com o sol brilhando, no Q3, Comandante Hamilton fez 1min12s850 na sua primeira tentativa, o que deixou todo mundo boquiaberto. El Desanimadón, Massacrado e o desolado marsupial viraram todos em 1min13s, até que Bonitton entrou na mesma casa da dúzia de segundos, 1min12s980. Tião Alemão fez uma volta de merda, passou em cima da faixa de carpete verde no Lago e fechou em 1min13s903, sexto lugar.
A segunda rodada de voltas rápidas aconteceu no talo, com o cronômetro quase zerado e Webber, do alto de seu desencanto, encaixou uma volta perfeita. Sim, perfeita, digo isso porque fez o mesmo traçado que o Meianov quando virei 2min14s. Parecia eu guiando, para dizer a verdade. E cravou 1min12s581.
Mas não foi o bastante. Comandante Hamilton foi à luta e fez 1min12s458. E Giênçãn virou 1min12s513, colocando a McLaren na ponta do grid. Foi a 26ª pole do rapaz, sétima no ano. Ah, como vão sentir falta dele… Gozado é que Lúis nunca liderou uma volta sequer em Interlagos. Se tudo correr dentro da normalidade amanhã, pelo menos a primeira ele fecha na frente.
Webber ficou em terceiro, na frente de Fêtel. Que anda meio tenso, sei lá por quê. Só porque está decidindo o campeonato? Isso lá é motivo? Massa ficou em quinto, fez uma bela volta no Q3 e, de novo, se classificou na frente do companheiro. Maldanado era o sexto, mas sifu. Não parou para a pesagem, e perdeu cinco posições no grid. Como foi a terceira reprimenda, mais cinco. Larga em 16°. O incrível Hulk herdou o posto, Alonsito subiu para sétimo, Kimi, o Tagarela, foi para oitavo e Rosberguinho ficou em nono. Senninha, que nunca vai bem em classificação, fizera o 12° tempo e larga em 11°.
Atrás de Vettel no grid, Alonso tem chances remotas de ganhar o campeonato. Se o alemão fizer uma corrida standard, sem grandes estripulias, chega entre os quatro primeiros facilmente. Hamilton é o grande favorito à vitória. A McLaren termina o ano melhor que todo mundo. Ano esquisito, que começou com sete vencedores diferentes em sete corridas, teve um bom momento da Ferrari na abertura da temporada europeia, McLaren forte pouco antes e logo depois das férias, Red Bull voando na Ásia e McLaren de novo no fim da feira.
Mas se chover, como garante a infalível e elegante Laura Ferreira da rádio, com sua voz firme e muitas vezes severa, aí não dá para arriscar nada. Não que Vettel e Alonso sejam bons ou ruins no molhado, um melhor que o outro, ou o carro de um seja uma droga e o do outro perfeito na água, nada disso. É que na chuva todo mundo está sujeito a fatores que estão fora do controle. Uma barbeiragem de um, uma rodada de outro, um safety-car, uma aquaplanagem, um spray, uma gripe, um espirro, uma escorregada, uma poça no meio do caminho. Tudo pode acontecer, como se diz. Pode não acontecer nada, também, mas é raro.
Sendo assim, esperemos pela chuva. Para ver se acontece algo.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.