SÃO PAULO (Japão ou Índia?) – Com 77 pontos de folga sobre Alonso, o segundo colocado no campeonato, Vettel terá seu primeiro match point domingo que vem em Suzuka. Se vencer e Fernandinho ficar no máximo em nono, acaba o campeonato matematicamente.
É o que todos desejam. Porque ser campeão na Índia, em outro fim de mundo desses que nada dizem ao automobilismo e à F-1 em particular, ninguém merece. Suzuka sim é palco para campeões.
Mas é difícil fechar a conta no Japão. Vettel deve ganhar, como ganhou de madrugada na Coreia. Mais uma vitória, a oitava no ano e quarta seguida de uma temporada que todos já largaram de mão. Só que para Alonso chegar em nono, só se acontecer alguma grande cagada, o que não tem sido frequente. Fernandinho tem corrido para chegar ali entre os cinco ou seis primeiros sem grande dificuldade. Mas sem nenhuma chance de lutar por vitória, o que é uma tristeza. De qualquer maneira, deve adiar a conquista do tetra.
O GP de Yeongam não foi brilhante, mas também não foi o pior de todos os tempos. OK, Tiãozinho não teve grandes problemas, embora a vitória não tenha sido tão fácil quando, por exemplo, a de Cingapura. Mas também não houve disputa, a exemplo do que tem acontecido nas últimas etapas do Mundial. Ele precisou apenas administrar o desgaste do pneu dianteiro direito, como todos os outros pilotos, fez seus dois pit stops com tranquilidade e liderou todas as voltas da corrida. Aliás, vale repetir aqui a conta que o Reginaldo Leme fez na TV. De 220 voltas percorridas em quatro GPs sul-coreanos, Vettel liderou 208. É um exemplo claro do domínio dele e da Red Bull sobre todos os outros nos últimos anos.
No início da corrida de hoje, Grojã foi o cara da primeira volta, ao passar Hamilton e assumir logo o segundo lugar, enquanto Sebastião já se acomodava na ponta. Ainda na primeira volta, Massa cometeu mais um erro. Freou atrasado numa tentativa de ultrapassagem dupla e, para não bater em Rosberg, rodou e caiu para último. Péssimo, para quem procura lugar para correr no ano que vem.
Na confusão armada pelo brasileiro, que atravessou o carro na pista, muitos brecara, outros desviaram e alguns se deram muito bem. Ricardão, por exemplo, apareceu em sétimo. Tinha largado em dôzimo. E Maldanado surgiu em nono, depois de largar em dezôitimo. Raikkonen também ganhou algumas posições e se colocou na briga, ele que fora mal na classificação. Na nona volta, já estava em quinto depois de passar a Toro Rosso de Daniel e a Ferrari alônsica.
Na décima volta os ponteiros abriram a primeira janela de paradas. O único que largou com pneus médios, Ricardão, seguia na pista. Vettel voltou na frente, mas com Grosjean não muito longe. Nada que assustasse, porém. O francês tinha de se preocupar muito mais com Hamilton, colado atrás dele, do que com o alemão inalcançável. Só na volta 19 Ricciardo fez seu pit stop.
Kimi deu o pulo do gato ao antecipar sua segunda parada na volta 26, se livrando de um tráfego incômodo e irritante. Àquela altura, Hamilton brigava com seus pneus esfarelando. Rosberguinho chegou, passou e sua asa estranhamente envergou, raspou no chão e arrebentou. Coisa esquisita dos infernos. Teve de trocar o bico. Nessas, Raikkonen herdou algumas posições após as primeiras paradas da segunda janela de pit stops. E ainda teve um safety-car para ajudar quando estourou o pneu de Pérez. Um monte de gente foi para os boxes, mas como Kimi já tinha feito o dele, foi uma delícia.
Vettel seguia na ponta, mas agora com duas Lotus no seu encalço: Grojã em segundo e o tagarela em terceiro. O safety-car ficou na pista para a limpeza dos detritos do Chapolim maclariano da 33ª à 37ª volta.
Na relargada, Sutil foi para cima de Webber, acertou o australiano e seu carro pegou fogo. Seu, no caso, o de Webber, coitado. Aí rolou a confusão do dia, com uma SUV carregando fiscais com extintores invadindo a pista para apagar o incêndio na Red Bull. Perigoso demais. Safety-car na hora, claro. E nesse meio tempo, entre o fogaréu e a nova bandeira amarela, Raikkonen, espertinho, atacou Grosjean e passou. Sabia que não levaria o troco porque notou a bandeira amarela um pouco adiante. Malandrinho.
Na volta 41 a prova foi retomada com Vettel, Kimi, Grojã seguidos pelo grande destaque do dia, Hülkenberg, puxando a fila com Hamilton, Alonso, Button e Rosberguinho, todos colados. Foi uma bela briga. Era Alonso que tentava passar Hamilton que tentava superar Hulk, que segurava todo mundo. Excepcional atuação do alemão da Sauber, que deve ter lhe valido alguns pontos na luta por uma vaga na Lotus no ano que vem.
E assim terminou a corrida, com Vettel na frente, Kimi e Grojã ao lado dele no pódio, Hülkenberg em quarto, seguido por Hamilton, Alonso, Rosberg, Button, Massa e Pérez. Não se sabe se a Coreia volta ao calendário no ano que vem. O circuito é chato, mas não é isso que incomoda tanto. As arquibancadas estavam vazias de novo, porque a cidade onde fizeram o autódromo, a 400 km de Seul, fica onde Buda perdeu as botas. Definitivamente, não é um sucesso essa corrida. E o horário, para nós aqui dos trópicos, é uma tristeza.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.