SÃO PAULO (memórias) – A história é a seguinte. Desde 1907 acontece na Ilha de Man a maior sandice sobre duas rodas do mundo, que todos conhecem: o TT, Tourist Trophy, a corrida de motos mais maluca do planeta. Nos primeiros 30 anos em que foi realizada, apenas pilotos britânicos em motos britânicas venceram a prova. A escrita acabou em 1937, quando o italiano Omobono Tenni, com uma Guzzi, acabou com a farra.
Só que quem liderava a corrida naquele ano era um alemãozinho de Dresden, Ewald Kluge. Que abandonou a competição por problemas mecânicos quando já tinha uma enorme vantagem sobre o italiano de nome esquisito. E em 1938, exatos 75 anos atrás, Kluge, mostrou o poder das quatro argolas. Com uma DKW 250cc, ele percorreu os 424 km da corrida insana em 3h21min56s, na média de 125,56 km/h. O segundo colocado, Ginger Wood, chegou 11 minutos depois. Tenni, no ano anterior, tinha feito o trajeto em 3h32min06s e venceu com uma diferença de 37 segundos para o segundo colocado, Stanley Woods.
Para comemorar o jubileu de diamante da vitória de Kluge, a Audi Tradition vai participar da Classic TT na Ilha de Man de 23 a 26 de agosto. A turma de Ingolstadt construiu uma réplica da DKW 250cc Super Sport para o evento, já que as originais desapareceram.
Ralf Waldmann, vice-campeão mundial nas 250cc em 1996 e 1997, foi o escolhido para pilotar a DKW no trajeto de 60 km da Classic TT. Terá a responsa de honrar a carreira de Kluge, que em 1938 ganhou nada menos do que 12 das 14 etapas do Campeonato Europeu com a DKW. E ficou duas vezes em segundo. Eram ruins, as motos?
Ewald era o cara, uma espécie de Valentino Rossi dos anos 30. Ganhou o Europeu em 1938 e 1939, foi tetracampeão alemão na década e em 1938 a Auto Union mandou o cabra para a Austrália, para divulgar a marca. Depois de 40 dias de viagem de navio, ele se inscreveu em quatro corridas e ganhou todas.
Nascido em 1909, Kluge foi contratado como piloto de fábrica da DKW em 1936, depois de se destacar como piloto avulso — motorista de táxi em Dresden, gastava o que ganhava para correr. Em 1940, foi chamado para servir ao Exército de Hitler e acabou como prisioneiro de guerra dos russos em 1946. Foi solto em 1949 em condições físicas lamentáveis e em 1950 foi trabalhar na Auto Union, então renascida em Ingolstadt, onde hoje fica a sede da Audi.
Voltou a correr e em 1953, quando já tinha 44 anos, sofreu um violento acidente em Nürburgring que acabou com sua carreira. Fraturou o fêmur, ficou um ano no hospital, os médicos conseguiram evitar que a perna fosse amputada, mas ele nunca mais participou de prova nenhuma.
O maior sonho de Kluge era voltar à Ilha de Man. Mas ele não conseguiu. Morreu em 19 de agosto de 1964, aos 55 anos, como funcionário da Audi em Ingolstadt. É ele que aparece na foto aí embaixo, com a verde-prata #24.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.