O cenário a ser pintado é o do primeiro treino livre do GP da Itália de 2024. Com Lewis Hamilton de saída da Mercedes e o mundo ciente de que seria substituído por um jovem sem experiência, a Mercedes se mexia para prepará-lo. Mandou Andrea Kimi Antonelli para um treino livre assim que fez 18 anos. E quis o destino que a primeira chance após completar a idade necessária fosse justamente em casa. Antonelli pegou o carro no TL1 do GP da Itália e na primeira ida à pista se enrolou todo, saiu da pista e foi para o muro. Que diferença faz um intervalo de dois anos.

ANTONELLI VENCE E DEIXA MONZA EM DELÍRIO: CLASSIFICAÇÃO GP ITÁLIA F1 2026 [narração + Briefing]

Neste domingo (6), aquele jovem da cabeça avoada e 18 anos recém-completados que bateu o carro de George Russell no primeiro treino que fez, nos primeiros metros que andou, viveu a apoteose da curta carreira. Largou na 19ª posição, punido, e terminou batendo quem? Russell, claro, na alegoria perfeita da inversão dos tempos e das expectativas.

Além de Antonelli e da Mercedes, a Ferrari viu mais confronto entre seus pilotos, ainda que a corrida de Charles Leclerc tenha durado dois 30 segundos.

Foi um GP da Itália com elementos aos montes. Na classe média da F1, o pelotão intermediário, a história também se desenvolveu para algumas equipes. Valeu o ingresso em Monza para acompanhar a primeira vitória dum italiano em casa em 60 anos, desde Ludovico Scarfiotti, pela Ferrari, em 1966.

O GRANDE PRÊMIO destaca cinco coisas que aprendemos com o GP da Itália da F1 2026.

Toto Wolff parabeniza Antonelli pela vitória no GP da Itália (Vídeo: Reprodução/F1 TV)

Antonelli, o Menino Recordinho

O que mais chamou a atenção da vitória de Antonelli, mais até do que a ampla recuperação de quem largou na 19º colocação, foi a agressividade. O líder da F1 2026 — e agora virtual campeão — fez a grande corrida no ano em termos de confiança e agressividade. Sim, o motor vale muito e, assim, a Mercedes sempre se recuperaria para voltar ao menos pela briga do pódio em Monza. O ponto nem é esse, mas o quanto Kimi se mostrou confortável atacando. E atacando. E agredindo um pouco mais.

A vitória, que efetivamente sela o campeonato, veio com enorme carga de números relevantes. A primeira vitória dum italiano em casa em 60 anos e o primeiro a ir ao pódio em 21 anos, o mesmo número de vitórias de Russell, a 50ª vitória italiana na F1, a vitória com segunda pior posição de largada na história da categoria e, aos 20 anos e 12 dias, passou a ser o vencedor mais jovem de corrida em casa em todos os tempos. Apenas 20 anos, mas Kimi não tem personalidade de Menino Maluquinho. Está mais para Menino Recordinho.

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George Russell foi incrivelmente derrotado (Foto: Mercedes)

Mercedes arruinou chances de Russell

Em que pese o triunfo acachapante de Antonelli, é preciso deixar claro que a Mercedes escolheu, lá pela metade da prova, quem venceria. Quando Lance Stroll parou na pista e fez a bandeira amarela aparecer, a equipe pôde escolher quem parar e parou somente o segundo colocado, deixando Russell com pneus desgastados na pista. No fim, dentro do contexto duma corrida que teve na prática 50 voltas, Russell fez as 50 com o mesmo jogo de pneus duros, enquanto Antonelli teve dois stints de 25 voltas com pneus médios. No final, George não tinha como aumentar o ritmo ou defender a posição.

Era verdadeiramente necessário? O campeonato não corre o menor perigo, os dois já haviam também se afastado dos rivais. A Mercedes quis marcar Max Verstappen, que parou. Mas por quê? Num cenário em que os adversários não ofereciam resistência e com meia corrida ainda pela frente, era evidente que aquele que parasse teria vantagem contra o outro. O acidente de Leclerc na largada fez com que Russell corresse apenas de pneus duros, enquanto Antonelli só foi visto de médios. Uma distorção na história da prova.

Acidente forte de Charles Leclerc na Parabolica durante o GP da Itália (Vídeo: Reprodução/Canal+)

Ferrari exala enxofre

Leclerc bateu ainda no começo da corrida, mas não sem antes causar de novo. Foi logo na largada, porque Hamilton atacou na chicane que está no fim da reta dos boxes em Monza. Na segunda perna, espalhou e tocou Hamilton, que saiu da pista e perdeu cinco posições. Há duas avaliações aí: Leclerc jogou duríssimo, mais que o recomendado contra um companheiro de equipe, mas — ao menos aos olhos deste jornalista — dentro do limite da legalidade. E Hamilton foi um tanto quanto ingênuo, atacando daquela forma, em frente ao público italiano e ficando por fora na segunda perna da chicane na primeira volta contra alguém com quem brigou duramente na última prova. Não havia outro final para este lance que não o toque.

Mas esse é o tipo de coisa que se conserta. Deveria ter sido evitado desde Zandvoort, mas a rixa continuou. Fosse um vulcão, já daria para ver de longe a luz de enxofre. O próximo passo seria a explosão vulcânica, uma daquelas devastadoras e com a força de uma centena de bombas atômicas. O que a Ferrari vai fazer para evitar que seus dois pilotos se tornem desafetos?

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Pierre Gasly foi pole, mas terminou a corrida na sétima posição (Foto: Alpine)

Alpine tem muito a comemorar

É verdade que o conto de fadas de Gasly terminou rápido no domingo em Monza. Saindo da pole, resistiu à primeira curva, mas assim que as coisas se estabeleceram foi engolido por todo mundo das principais equipes que por ali estava. Mas essa era a realidade além da expectativa de viver um segundo dia de Cinderela. Dentro do que era real, a Alpine tem muito a comemorar. Podia ser melhor não fosse pelo erro de Franco Colapinto quando ocupava a quarta posição, mas não mudou muito. Gasly foi o melhor do resto, em sétimo, e Colapinto ficou na nona colocação. Não fosse o erro, provavelmente seria oitavo.

O principal nem é isso, é como a atualização que fez nas asas se provou um enorme acerto para Monza. Claro que resta ver o que vem aí em Madri, mas a Alpine ao menos sabe para que lado precisa andar, algo que não é tão fácil quanto parece. E, sim, o motor Mercedes grita muito no Templo da Velocidade, mas a maneira como Colapinto conseguia se desvencilhar de quem ultrapassava foi algo que a McLaren, por exemplo, foi incapaz de fazer. Monza valeu muito para a Alpine.

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Gabriel Bortoleto ficou na beira dos pontos (Foto: Audi)

Audi trabalha bem como novata

Do outro lado do paraíso está a Audi, que não pontuou, mas ficou com as posições 11 e 12. Veja, claro que não é o ideal, mas a expectativa era muito pior. Novata na produção própria de motores, a Audi sabe que tem um desfalque de potência em relação às rivais, mas mesmo assim ficou na beira dos pontos. Os motores Mercedes da Williams ou Ferrari da Haas não empurraram a Audi para longe. Com carro bem nascido e sobre o qual tem claro controle, a Audi otimiza e consegue ser capaz de se aproximar dos pontos mesmo onde poderia ser um desastre.

Gabriel Bortoleto e Nico Hülkenberg continuam sofrendo na largada. Sem isso, talvez desse até para pontuar. Mesmo assim, e por mais estranho que seja dizer isso sobre uma equipe que pontuou apenas algumas vezes na temporada, o rendimento da Audi é melhor que o esperado. Trata-se, confortavelmente, da terceira melhor equipe do pelotão intermediário e consegue ficar na frente disso em determinados momentos. É o que dava para pedir.

A F1 retorna já no próximo fim de semana, entre os dias 11 e 13 de setembro, com o GP da Espanha na nova pista urbana de Madri. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da 14ª etapa da temporada 2026, AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.