A notícia de que a Cadillac já monitora a situação de Rafael Câmara para a temporada 2027 definitivamente não causa nenhuma surpresa pelo que o brasileiro vem apresentando há algum tempo nas categorias de base. Câmara, na verdade, é o principal nome entre os que esperam por uma oportunidade na peneira em direção à F1, mas o que causa, sim, espanto, é que a turma da Carolina do Norte agora tenha começado a se dar conta de que o esforço tremendo para levar Colton Herta para a Europa em busca da superlicença e, consequentemente, da F1 talvez não seja tão justificável assim.
Não que seja um completo devaneio ter Herta tentando a sorte em um dos grids mais disputados das classes de fórmula. Os dois anos promissores de Indy Lights até chegar ao vice da Indy em 2024 mostraram que havia, sim, um piloto muito rápido ali, mas a inconsistência ao longo dessa trajetória não poderia também ser totalmente ignorada. Some-se isso ao fato de que Herta foi colocado na F2 com a obrigação de fechar 2026 no mínimo em oitavo, elevando ainda mais a pressão que já é natural, e o que se tem é um 16º lugar na classificação que certamente não estava nos planos de ninguém.
Mas há algumas camadas aí nessa meta traçada, e a primeira envolve o fato de oito temporadas na principal categoria de monopostos dos Estados Unidos não terem sido suficientes para Herta ter atingido os 40 pontos exigidos para a superlicença da FIA, que é o que carimba o passaporte para a F1. O segundo e mais alarmante é a impressão inevitável de que a Cadillac olhou para a F2 como “fácil”.
Primeiro, é necessário fazer justiça à Indy, também de alto nível, pois o inverso, ou seja, quando pilotos da rota da F1 tomam o rumo dos Estados Unidos, também expõe problemas naturais de adaptação — e a palavra-chave é justamente essa, pois não se pode subestimar rivais que conhecem boa parte das pistas há muito mais tempo, por mais jovens que sejam, além da mudança em si do equipamento, tanto em peso quanto em potência e dirigibilidade. Portanto, se alguém pensou que Herta tiraria um top-10 de letra, infelizmente se equivocou.
O fato de categorias como F3 e F2 serem em parte composta pelos chamados pilotos pagantes não pode fazer com que sejam niveladas por baixo. Pilotos pagantes existem em todas as categorias do esporte a motor por se tratar de um esporte muito caro, que demanda aporte financeiro para a manutenção de toda uma equipe, e isso é ainda maior nas categorias de base. Salvo exceções como Andrea Kimi Antonelli, tratado pela Mercedes desde os tempos de F4 como um diamante bruto, até mesmo grandes talentos dependem de (muito) dinheiro para sobreviver.
Herta tem um exemplo de como a F2 é exigente em desempenho na garagem ao lado, inclusive. Campeão da principal categoria de monopostos da Ásia, a Super Fórmula, em 2023, Ritomo Miyata estreou na F2 em 2024 na Rodin com forte apoio da Toyota, porém conquistou até agora um único pódio em três temporadas realizadas. O curioso é que o japonês se enquadra em cenário semelhante ao do estadunidense por ter estreado na F2 já ‘velho’, com 24 para 25 anos, levando em conta que Nikola Tsolov, o atual líder, tem 19.

Na prática, são muitos fatores que determinam a boa performance de um piloto no degrau final antes da F1. Estar na equipe certa é um deles, e desde a última geração de carros, Invicta e Campus dominam o certame, desbancando nomes de tradição, como Prema e ART. Mesmo assim, a Hitech é um time com muita bagagem nas categorias de base, e é por essa razão que a Cadillac também olha para Herta tentando achar uma razão minimamente convincente para explicar tanta dificuldade. Só que, de novo, ninguém disse que seria assim tão fácil.
Herta, no final das contas, simboliza o sonho ególatra norte-americano de acreditar que pode dominar em qualquer esporte. Ter um representante guiando um carro de F1 é também mais uma tentativa de cativar de vez o rentável público e, de quebra, agradar o Liberty Media, também dos Estados Unidos, que promove o evento. Mas se a Cadillac quer tanto um piloto estadunidense, seria muito mais lógico olhar para Ugo Ugochukwu, que tem bom histórico nas classes europeias e chama atenção de quem acompanha a base com um pouco mais de afinco. Foi vice da F4 Italiana em 2023, venceu o difícil GP de Macau no no ano seguinte, foi campeão da Fórmula Regional da Oceania em 2025 e é o atual vice-líder da F3. E tem 19 anos.
Em suma, Ugochukwu reúne tudo aquilo que Herta tenta ser, por mais que a culpa não seja dele.
A Fórmula 1 está de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.
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