A contratação de Rafael Câmara pela Haas para a temporada 2027 da Fórmula 1 coloca mais um brasileiro no grid e estabelece uma comparação inevitável com Gabriel Bortoleto. Os dois seguiram caminhos praticamente idênticos nas principais categorias de acesso, conquistaram a Fórmula 3 pela Trident e avançaram à Fórmula 2 com a Invicta. Entretanto, apesar das semelhanças, os números mostram diferenças importantes: Câmara apresenta mais vitórias e pole-positions nas duas categorias, enquanto Bortoleto chegou à F1 com os títulos da F3 e da F2 conquistados em temporadas consecutivas.

O pernambucano desembarca na categoria mais importante do esporte a motor após uma trajetória marcada pela velocidade em classificação e pelo desempenho nas corridas principais. Já o paulista, contratado pela Sauber para 2025 e atualmente na Audi, construiu a ascensão sobretudo pela regularidade, capacidade de recuperação e consistência nas disputas pelos campeonatos.

A comparação feita pelo GRANDE PRÊMIO considera as temporadas completas de ambos na F3 e as primeiras 12 etapas de cada um na F2, uma vez que o campeonato de 2026 ainda não terminou. O levantamento também inclui os títulos conquistados anteriormente e o contexto das campanhas, evitando atribuir o mesmo peso a resultados obtidos em circunstâncias diferentes.

Dois brasileiros, duas trajetórias quase idênticas até a F1

A semelhança entre as carreiras começou a ganhar contornos mais claros em 2023, quando Bortoleto conquistou a Fórmula 3 pela Trident logo na temporada de estreia. O paulista somou 164 pontos e superou nomes como Zak O’Sullivan e Paul Aron, garantindo o título antes da última corrida do campeonato.

Dois anos depois, Câmara repetiu a conquista com a mesma equipe. O pernambucano dominou boa parte da temporada 2025, assegurou o campeonato com antecedência e terminou o ano com 166 pontos. A diferença para o vice-campeão Nikola Tsolov foi de 44 tentos.

Os brasileiros também fizeram a mesma escolha para o passo seguinte. Bortoleto se transferiu à Invicta para disputar a F2 em 2024 e conquistou o título. Câmara assinou com a equipe britânica para a temporada 2026, mantendo uma sequência que já havia dado resultado para o compatriota.

Membro da Academia Ferrari, Rafael Câmara assinou com a Haas para 2027 (Foto: F2)

Há, porém, uma diferença importante no currículo anterior. Câmara conquistou a Fórmula Regional Europeia (atual FREC) em 2024, antes do título da F3 em 2025. Bortoleto, por sua vez, chegou à F3 sem ter sido campeão da então FRECA, mas conquistou os dois principais campeonatos de acesso à F1 em sua primeira tentativa.

Assim, Câmara acumulou títulos em temporadas consecutivas na Fórmula Regional Europeia e na F3, enquanto Bortoleto conseguiu a sequência na F3 e na F2.

Câmara venceu o dobro de corridas e conquistou cinco vezes mais poles na F3

A primeira comparação direta envolve as campanhas que deram aos brasileiros o título da Fórmula 3. Embora ambos tenham conquistado o campeonato pela Trident, os caminhos até a taça foram diferentes.

Bortoleto começou 2023 com duas vitórias nas primeiras quatro corridas e, a partir daí, administrou a vantagem construída na classificação. A capacidade de terminar provas na zona de pontuação foi decisiva para garantir o título, mesmo sem voltar a vencer depois da etapa da Austrália.

Câmara apresentou um perfil diferente em 2025. O pernambucano conquistou quatro vitórias, todas em corridas principais, e estabeleceu uma marca de cinco pole-positions. Nas três primeiras etapas, largou da posição de honra, tornando-se o primeiro piloto da história da F3 a conseguir tal façanha na abertura de uma temporada.

EstatísticaBortoleto — 2023Câmara — 2025
EquipeTridentTrident
Posição final1º1º
Pontos164166
Vitórias24
Pole-positions15
Pódios65
Corridas disputadas1820
Vitórias por corrida11,1%20,0%
Pódios por corrida33,3%25,0%
Título antecipadoSimSim

O primeiro destaque é a diferença de vitórias. Câmara venceu 20% das corridas disputadas na F3, quase o dobro dos 11,1% registrados por Bortoleto. A vantagem se torna ainda mais expressiva nas classificações: cinco poles contra uma.

Em contrapartida, Bortoleto subiu ao pódio em um terço das corridas que disputou, contra um quarto das provas de Câmara. A diferença indica que o paulista conseguiu maior frequência entre os três primeiros, embora tenha conquistado menos vitórias.

O total de pontos, por sua vez, foi praticamente igual: 166 para Câmara e 164 para Bortoleto. A proximidade, entretanto, não deve ser interpretada isoladamente, já que os campeonatos tiveram quantidades diferentes de corridas e foram disputados com gerações distintas de carros.

A F3 introduziu um novo modelo em 2025, com mudanças de chassi, aerodinâmica e motorização. Isso limita comparações diretas de tempos de volta, mas não impede a análise dos resultados relativos aos adversários de cada temporada.

Em retrospectiva publicada pelo GRANDE PRÊMIO, a campanha de Câmara foi marcada pela combinação de velocidade, adaptação ao novo equipamento e administração da liderança. O novo piloto da Haas conquistou o título antecipadamente e consolidou a ascensão rumo à F1.

Gabriel Bortoleto quando foi campeão da F2 em 2023 (Foto: F2)

Câmara também supera Bortoleto em vitórias, poles e pontos na F2

A Fórmula 2 oferece uma comparação particularmente interessante porque os dois brasileiros defenderam a Invicta em suas respectivas temporadas de estreia. Além disso, ambos assumiram a liderança do campeonato após a 12ª etapa, realizada no Azerbaijão.

Em 2024, Bortoleto chegou a esse momento com 169,5 pontos, duas vitórias, duas poles e cinco pódios. A vantagem sobre Isack Hadjar, então segundo colocado, era de apenas 4,5 tentos.

Dois anos depois, Câmara alcançou a mesma fase com números superiores em boa parte dos indicadores. O pernambucano soma 207 pontos, três vitórias, cinco poles e sete pódios, com 7 pontos de vantagem sobre Nikola Tsolov.

Estatística após 12 etapasBortoleto — 2024Câmara — 2026
EquipeInvictaInvicta
Corridas disputadas2425
Pontos169,5207
Vitórias23
Pole-positions25
Pódios57
Voltas mais rápidas24
Corridas nos pontos1817
Abandonos32
Pontos por corrida7,068,28
Pódios por corrida20,8%28,0%
Vantagem sobre o vice4,57

Levantamento do GRANDE PREMIUM publicado em 8 de outubro de 2026. O calendário de 2026 teve uma corrida adicional no Azerbaijão, totalizando 25 provas contra 24 em 2024. Pontos por corrida e percentuais calculados pelo GRANDE PRÊMIO.

Os números favorecem Câmara em sete dos nove indicadores de desempenho diretamente comparáveis apresentados na tabela, além da vantagem na classificação do campeonato.

A diferença de pontuação chega a 37,5 pontos, mas parte dela é influenciada pela corrida adicional realizada em Baku em 2026. Por isso, a média por prova oferece um parâmetro complementar: Câmara conquistou 8,28 pontos por largada, enquanto Bortoleto registrou aproximadamente 7,06.

O pernambucano também apresenta vantagem na taxa de pódios, com 28% das corridas entre os três primeiros, contra 20,8% do paulista. Bortoleto, entretanto, tem uma vantagem relevante na frequência de chegada à zona de pontuação. Foram 18 resultados entre os dez primeiros em 24 provas, o equivalente a 75% das corridas, enquanto Câmara pontuou em 17 das 25 disputadas, índice de 68%.

A diferença ajuda a explicar como os dois construíram suas campanhas. Câmara apresentou maior produção de resultados de ponta, especialmente poles e pódios. Bortoleto conseguiu pontuar com maior frequência, reduzindo a exposição a fins de semana sem resultados expressivos.

O GRANDE PREMIUM já havia destacado essas semelhanças em um levantamento específico sobre as campanhas na F2. A comparação entre Bortoleto em 2024 e Câmara em 2026 também identificou uma coincidência: os principais adversários dos brasileiros pertenciam ao programa de jovens pilotos da Red Bull e defendiam a Campos. Em 2024, o rival era Hadjar. Em 2026, é Tsolov.

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Chefe da Haas, Ayao Komatsu elogiou currículo de Rafael Câmara nas categorias de acesso (Foto: Haas)

Bortoleto transformou regularidade em título. Câmara ainda precisa concluir campanha

A diferença mais importante entre os dois currículos aparece quando se observa o desfecho dos campeonatos.

Bortoleto conquistou o título da F2 em Abu Dhabi, em dezembro de 2024, depois de uma disputa que se estendeu até a última etapa. O paulista encerrou a temporada com 214,5 pontos, confirmando o segundo campeonato consecutivo em sua trajetória pelas principais categorias de acesso.

A conquista teve peso especial porque ocorreu na primeira temporada dele na F2, repetindo o feito da F3 no ano anterior. Na análise publicada após a decisão de Abu Dhabi, o GRANDE PRÊMIO destacou a capacidade de recuperação e a consistência demonstradas pelo piloto ao longo da campanha.

Câmara ainda não teve a oportunidade de completar esse percurso. Após 12 etapas de 2026, lidera a F2 com 207 pontos, 7 à frente de Tsolov, mas o campeonato permanece aberto.

Isso cria uma distinção essencial na avaliação dos currículos: Bortoleto já havia conquistado os dois títulos quando recebeu a oportunidade na F1; Câmara foi escolhido pela Haas antes da definição do campeonato de F2.

O pernambucano, portanto, tem a possibilidade de chegar à estreia na F1 com a mesma sequência de títulos do compatriota, caso confirme a conquista de 2026.

Rafael Câmara foi escolhido para substituir Esteban Ocon em 2027 (Foto: Haas)

Haas teve acesso a desempenho de Câmara além dos resultados da F2

A contratação pela Haas também acrescenta uma dimensão que não aparece nas estatísticas dos campeonatos de acesso.

Integrante da Academia Ferrari desde 2021, Câmara participou de testes com carros anteriores da escuderia italiana e teve a oportunidade de trabalhar com a Haas em Portimão, em agosto de 2026.

O programa permitiu que o brasileiro tivesse contato com equipamentos de F1, procedimentos técnicos e rotinas de trabalho de uma equipe da categoria antes da estreia como titular.

A experiência é importante porque os números da F2, embora relevantes, não medem diretamente a capacidade de adaptação a carros mais rápidos, complexos e exigentes do ponto de vista operacional.

No caso de Bortoleto, a chegada à F1 ocorreu após a conquista do campeonato de 2024 e a escolha da Sauber, que posteriormente passou a competir como Audi.

Afinal, quem chegou à F1 com o melhor currículo?

Se o parâmetro for velocidade transformada em poles e vitórias nas categorias de acesso, Câmara apresenta vantagem. O pernambucano venceu quatro vezes na F3, contra duas de Bortoleto, e conquistou cinco poles, contra uma. Na F2, também supera o compatriota nos mesmos indicadores após as primeiras 12 etapas.

Se a avaliação considerar a regularidade, Bortoleto oferece argumentos importantes. O paulista teve maior proporção de pódios na F3 e maior frequência de resultados na zona de pontuação na F2, considerando os recortes utilizados.

Já no critério de conquistas nas duas principais categorias de acesso, Bortoleto permanece à frente por ter encerrado a passagem pela F3 e pela F2 com dois títulos consecutivos.

Câmara, por outro lado, apresenta uma trajetória que inclui o título da Fórmula Regional Europeia, a conquista antecipada da F3 e a liderança da F2 no momento da contratação pela Haas.

A definição do campeonato de 2026 será, portanto, a última peça importante para uma comparação definitiva entre as trajetórias dos dois brasileiros antes da F1.

A Fórmula 1 tira uma folga neste fim de semana e retorna entre os dias 23 e 25 de outubro, para a disputa do GP dos Estados Unidos. A etapa de Austin será a 18ª da temporada 2026.