Era questão de tempo até Lewis Hamilton ser pego para Cristo em meio à crise atual que as garagens de Maranello vivem. Afinal, como assim o maior vencedor da história da Fórmula 1, o recordista de poles, o dono de sete títulos mundiais tal qual o maior ídolo que a Ferrari já viu, deixaria a 21ª etapa da temporada 2025 sem um único pódio vestindo vermelho? Definitivamente, não era isso que ninguém esperava quando finalmente Lewis disse sim àquela que é, indiscutivelmente, a maior equipe da história da categoria, protagonizando uma das maiores transações recentes no esporte mundial.
Só que não é de hoje que a Ferrari busca desesperadamente um salvador desde o momento em que o dream team formado por Michael Schumacher, Ross Brawn, Jean Todt, Rory Byrne e companhia começou a se dissipar no instante em que o alemão deixou as pistas pela primeira vez ao final da temporada 2006. E é claro que todas as atenções sempre vão se voltar para a parte mais visível, que era comandada justamente por Schumacher na incrível época de domínio no início dos anos 2000 e que culminou em cinco títulos consecutivos no Mundial de Pilotos e cinco de Construtores. Acontece que a falta de resultados de Hamilton e também de Charles Leclerc é apenas a ponta do iceberg. A dupla, na verdade, é o menor dos problemas.
Das equipes de ponta do grid, ninguém trocou mais de liderança do que a Ferrari nos últimos anos. Foram nada menos do que cinco chefes diferentes, sendo Frédéric Vasseur o quinto nome desde que Todt deixou Maranello ao final da temporada 2007. E cada um esbarrou em percalços que vão muito além do pit-wall e envolvem toda uma estrutura administrativa da Ferrari cheia de ranhuras.
Claro que perder Schumacher e depois Todt no ano seguinte abalou os pilares esportivos, sem dúvida alguma. Você fica sem o referencial nas pistas, e é por isso que todas as decisões que se seguiram foram motivadas pela necessidade de recuperar essa figura, porém a própria Ferrari ignora o fato de que a Era Schumacher tem o seu embrião em 1993, quando Todt, após 12 anos como diretor-esportivo da Peugeot, foi convencido a se mudar para a Itália e assumir o cargo de gerente geral da divisão esportiva da Ferrari. O objetivo era finalmente virar a maré de derrotas.

John Elkann, o presidente atual, aliás, resolveu usar de exemplo o sucesso da Ferrari no Mundial de Endurance (WEC) e dizer que “é uma belíssima demonstração de que, quando a Ferrari está unida, quando todos trabalham juntos, é possível alcançar grandes coisas”. Acontece que essas são conquistas frutos não apenas de união, mas sobretudo de algo que falta à F1: estabilidade. Antonello Coletta, que teve o nome ventilado para ocupar a vaga de Vasseur em 2026, está à frente do programa de endurance da Ferrari desde 2015 e chegou a recusar oferta para assumir a esquadra na F1 justamente por entender que a precisava de tempo para maturar o trabalho que levou o Cavallino Rampante de volta ao degrau mais alto das 24 Horas de Le Mans 59 anos depois.
Estabilidade é algo que definitivamente não se tem na F1 há tempos. Depois da saída de Jean Todt, Stefano Domenicali assumiu a chefia da Ferrari e chegou a bater na trave três vezes — uma com Felipe Massa, em 2008, e duas com Fernando Alonso, em 2010 e 2012 —, mas viu o ambiente interno implodir em 2014, no começo da era híbrida e a ascensão meteórica da Mercedes. Foi um efeito dominó que limou não só Stefano do cargo de chefe de equipe, como também Alonso, que deixou o time ao final daquela temporada, e o presidente de longa data, Luca di Montezemolo — outra figura igualmente marcante na era de ouro com Schumacher.
Em 2014, a Ferrari deu o primeiro sinal de que a saída do labirinto ficaria cada vez mais distante com o avançar dos anos. Ainda sob a gestão de Montezemolo, trouxe Marco Mattiacci, então diretor-executivo da empresa na América do Norte, para liderar a reconstrução que se desenhava. Faltou, porém, entender o esporte, sobretudo o que era a Ferrari na F1. Foram tantas mudanças desastrosas que ele acabou fora da equipe e também da companhia.
Mas é a partir da saída de Montezemolo que a Ferrari desanda de vez. Sergio Marchionne assumiu a presidência e trouxe Maurizio Arrivabene, que era vice-presidente da Phillip Morris, patrocinadora da Ferrari, entre os final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Foi mais um que chegou sob a incumbência de liderar a remontada, e, para isso, teve o já tetracampeão Sebastian Vettel para ser a tal referência. Mais dois vices vieram a galope, em 2017 e 2018. Com a morte de Marchionne, em julho de 2018, Arrivabene perdeu força dentro da Ferrari e foi demitido por John Elkann, que assumiu o poder em Maranello e trouxe Mattia Binotto — excelente engenheiro de motores, mas que teve uma das gestões em pista mais atabalhoadas da história recente.

Binotto durou de 2019 a 2022 até ser substituído por Frédéric Vasseur, e a chegada do francês ajudou Elkann a finalmente pôr em prática o ousado plano de arrancar Hamilton da Mercedes. Aparentemente, seria impossível imaginar o heptacampeão deixando a equipe pela qual conquistou seis dos sete títulos, mas a ideia de trabalhar com o antigo chefe da época da GP2 lhe agradou — além de, claro, a ambição natural de qualquer garoto que começa no kart de ser alguma vez na vida um piloto Ferrari.
Mas esse é um lado da história. Do outro, há uma equipe que assumidamente subestimou que até mesmo uma lenda viva do esporte precisaria de tempo para se adaptar a um carro completamente novo — e não somente por ser uma equipe distinta, mas também pela Ferrari ter bancado uma mudança inexplicável ao reformular um projeto vencedor sob a desculpa de que era para deixar o carro mais ao estilo de Lewis. Pois nenhum carro sob o atual regulamento, com o efeito-solo, vai casar com a pilotagem do britânico, ele mesmo já disse isso.
Por todas essas razões, não há como não se chocar com a fala covarde de Elkann direcionada a Hamilton — informação do jornal italiano Corriere della Sera —, ainda que tenha citado que os dois pilotos precisam “falar menos e pilotar mais”. Sobre isso, aliás, é ainda mais contraditório reclamar de uma característica intrínseca de Lewis, que sempre se mostrou maior que a F1 desde o momento que entendeu que tinha uma voz retumbante para ser usada. A mesma voz que tem clamado por mudanças repetidas vezes, mas hoje fala com as paredes em Maranello.
Após a passagem pelo Brasil, a Fórmula 1 só retorna no fim do mês, para mais uma edição do GP de Las Vegas. A antepenúltima etapa da temporada 2025 acontece entre os dias 21 e 23 de novembro, com cobertura completa do GRANDE PRÊMIO. Depois, restarão apenas as passagens por Catar e Abu Dhabi.
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