Qualquer pessoa que leva o pulso repleto de pulseiras — e no paddock há várias dessas pessoas apaixonadas) — traz incontáveis histórias por trás de cada uma, além dos motivos pelos quais são tão importantes. É um lado da F1 que raramente podemos ver — e eu, como repórter, gostaria de oferecer ao leitor mais uma maneira de conhecer os bastidores do esporte. Em edições futuras, os entrevistados também vão compartilhar a experiência deles com pulseiras esportivas, o anel inteligente Oura, relógios e outros acessórios. Primeiro, porém, vamos dar as boas-vindas a Christian Danner e sua coleção.

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Christian combina as cores das pulseiras ao humor, e as peças muitas vezes carregam desejos ou histórias que as relacionam a pessoas queridas. O comentarista alemão, que esteve na F1 como piloto entre 1985 e 1989, mostrou a coleção de pulseiras e outra coisa que fez dele um pioneiro na F1: os brincos, que garante ter sido o primeiro a utilizar.

A coleção é a forma como Christian conta histórias: de pulseiras de madeira feitas à mão pela filha de 16 anos a peças decoradas com pedras preciosas e compradas ao redor do mundo, cada uma representa uma memória especial. Tendo competido na Fórmula 3000, IndyCar, Sports Cars e Touring Cars, o piloto alemão disputou a F1 de meados ao final da década de 1980, enfrentando Ayrton Senna e tantos outros nas pistas.

Hoje especialista reconhecido, estava animado para mostrar a coleção de pulseiras durante o fim de semana do GP da Áustria. Abordado para falar do assunto, pasme, aceitou de imediato. Compartilhou, ainda, a história por trás do seu relógio Omega favorito e os brincos que usa há mais de quatro décadas, no mesmo modelo do par que diz ter feito dele o primeiro piloto a usar o acessório no grid da F1.

A cada dia, Christian escolhe aquilo que casa melhor com o que sente. Não dá para usar os mesmos apetrechos todos os dias, bem como não se usa um carro igual para todas as pistas. “É uma coisa fluida,” diz. Prefere tons de verde e marrom mais terrosos e discretos quando se sente mais tranquilo, como durante o fim de semana em Spielberg. No auge do verão, as cores também esquentam e ousam para combinar com humor mais firme e “pode-se, dizer, mais selvagem.” De vez em quando, parte de outros. “Às vezes minha filha diz, ‘quero que você use esse,’ então eu uso, é claro,” conta.

Danner acredita que a maioria das pulseiras carrega consigo um desejo. Quando uma “decide ir embora,” e arrebenta ou desaparece, interpreta como um sinal de que o desejo será realizado em breve. De toda forma, o vazio em seu pulso abre espaço para um novo acréscimo à coleção. “Ando pela cidade e então, de repente, uma pulseira diz ‘Olá, vamos, me leva’,” ri. “Elas é que me acham, não sou eu quem vai atrás”, garante.

Uma pulseira simples, mas com significado (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

Feitos à mão pela filha

Em vez de peças chamativas ou pedras preciosas, a filha de Christian gosta de presenteá-lo com pulseiras feitas à mão com miçangas de madeira como um desejo de boa saúde — extremamente reservado, trata tudo sem dar muitos detalhes, como nomes, das pessoas próximas. Embora uma das pulseiras traga em si talhada uma cruz, não carrega significado religioso para a família. O simbolismo se concentra, em vez disso, na escolha do material. “Minha filha disse: ‘A madeira é boa porque te deixa mais humilde, e, se você tem um poder simples, é o melhor de todos. Vem do seu coração”, aponta.

As pulseiras não duram muito tempo, algo que faz parte da tradição. Christian faz um desejo cada vez que veste uma pulseira de madeira nova, e acredita que vai se realizar quando se romper. Cada pulseira partida é uma oportunidade para a filha criar uma nova, já que ela gosta de experimentar com miçangas diferentes. “Ela sabe que o papai gosta de usar essas coisas,” diz com carinho.

O significado é o amor (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

Pulseira de corda, presente da namorada

Uma das peças mais graúdas a decorar o pulso de Danner, a pulseira em corda trançada foi presente da namorada. A peça tem propósito diferente e não carrega um desejo, já que raramente precisa ser trocada. “É só o forte vínculo entre mim e ela, o que acho incrível,” explica.

Ao redor do mundo

Para além de presentes cheios de afeto, a coleção de Christian às vezes cresce conforme passeia por diferentes cidades mundo afora. “Passo por uma loja, dou uma olhada e, se tiver uma que eu gosto, levo. E compro, é claro,” brincou.

Christian mostra algumas pulseiras compradas em lojas que chamaram sua atenção: duas verdes com um formato interessante e uma que combina prata e madeira. Da coleção em casa, valoriza duas peças adquiridas em Los Angeles, decoradas com pedras em suas cores favoritas, como vermelho, amarelo e turquesa.

As compras por aí (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

O relógio Omega de Christian

Em vez de ostentar um sofisticado Rolex ou GMT, o hoje comentarista canta o orgulho do relógio Omega comprado na década de 1990, em edição especial da America’s Cup. Para celebrar a tradicional competição de vela, o design do visor inclui pontos azuis que, conforme preenchidos, servem como indicações visuais para os capitães se prepararem para a contagem regressiva da corrida.

O relógio de quase 30 anos que é o xodó de Christian Danner (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

“Você deve estar preparado para a largada idealmente 1s antes do tiro. Assim que eles atiram, você cruza a linha 0s5 depois — esse é o truque,” contou. “Eu não seria de dizer de onde está vindo o vento, mas gosto assim mesmo.”

O relógio Omega ressoa com a paixão de Christian pela corrida. Há latente fascínio por todas as formas de correr que o ser humano inventou, seja atletismo, turfe, vela, ou todo o espectro do esporte a motor. “Há milhares de anos, o espírito na corrida é ser mais rápido que outra pessoa, é só a tecnologia que mudou. É isso que eu amo, porque meu coração e minha vida são a corrida,” declara-se.

Um dos adornos favoritos (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

Primeiro piloto de F1 a usar brincos

Embora Lewis Hamilton tenha se encontrado no centro de um debate sobre o uso de joias na F1 em 2022, Christian Danner jura de pés juntos que foi ele o primeiro piloto a usar brincos no grid. Usa o acessório desde que tinha 14 anos, como é tradição entre os homens fazendeiros e montanhistas na região dos Alpes ao sul da Alemanha, onde foi criado.

O hábito só se tornou um problema quando foi convidado a competir pela BMW na F2 no início dos anos 1980. “O diretor de corridas disse: ‘Senhor Danner, gostaríamos de te dar um contrato, mas você precisa tirar o brinco,” Christian conta.

Christian Danner (Foto: Gabriel López/GRANDE PRÊMIO)

Mesmo sendo um jovem piloto recém-saído da Copa Renault 5, respondeu com uma negativa em tom de desafio. Ainda se lembra exatamente o que disse, mesmo mais de 40 anos deois. “Você me quer como um piloto ou você quer outra coisa?”, questionou. Christian suspeitava que, de qualquer forma, o presidente da companhia se oporia a seu nome. “Eram tempos bem conservadores. Eles não estavam preparados para homens usando brincos, especialmente nesse alto escalão executivo”, acrescentou. A objeção eventualmente se dissipou, e, assim, abriu caminhos para que o piloto austríaco Christian Klien corresse usando o acessório mais de duas décadas depois, nos anos 2000.

Danner mostrou o brinco que usa há mais de 40 anos, desde 1980, o segundo par que teve. “Deve ter custado uns US$ 10”, recorda. “É o mesmo até hoje — ele não quebra.”

A Fórmula 1 está de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.

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