A defesa de título de Lando Norris na Fórmula 1 não começou exatamente da maneira que o britânico esperava, já que foi impedido de colocar o carro na pista em atividades importantes ao longo das três primeiras etapas da temporada 2026 e viu Mercedes e Ferrari despontarem como principais forças. No entanto, a McLaren deu passos promissores no entendimento do MCL40 e da unidade de potência a partir do GP do Japão, o que levantou as expectativas de o time papaia entrar de vez na briga contra as rivais — o que deve esquentar também o duelo interno por lá, entre o atual campeão e Oscar Piastri.

Após garantir o bicampeonato do Mundial de Construtores com seis corridas de antecedência em 2025, com o troféu sendo erguido no GP de Singapura, a escuderia liderada por Andrea Stella esperava começar a nova era da categoria entre as ponteiras mais uma vez. O objetivo até foi alcançado, mas não da maneira que a escuderia inglesa planejava inicialmente, porque se viu como terceira força do pelotão, muito acima da chamada ‘F1 B’, mas distante de incomodar Andrea Kimi Antonelli, George Russell, Charles Leclerc e Lewis Hamilton.

E um dos motivos para esse início um tanto incerto foi a falta de compreensão do próprio carro. Devido à complexidade do novo regulamento, as equipes ainda estão com dificuldades para apontar em quais áreas podem extrair mais performance, principalmente na questão aerodinâmica, com novidades sendo apresentadas a cada fim de semana. Até porque, com a falta de eficiência dos motores nas retas, que se tornou uma das principais críticas feitas às regras, o desempenho em curvas tem participação fundamental — sempre teve, é verdade, mas agora ganhou um peso extra.

Por falar na unidade de potência, a Mercedes entrou na mira da McLaren logo no início da temporada, com Stella criticando a fabricante liderada por Toto Wolff por causa da falta de informações acerca do equipamento. Com a parte elétrica agora sendo responsável por aproximadamente 50% da força que impulsiona os modelos, o uso da bateria virou peça fundamental na conquista de bons tempos de volta. Para ajudar os pilotos a juntar e despejar energia, os times precisam dominar completamente o software, caso contrário, o algoritmo do propulsor tende, por exemplo, a cortar a velocidade quando os competidores simplesmente aliviam o pé do acelerador em 3% ou um pouco mais em certos trechos.

Como resultado de toda essa matemática para lá de complexa, a McLaren sofreu nas primeiras corridas tanto em termos de ajustes do carro quanto de confiabilidade do motor — o que, obviamente, prejudicou a vida de Norris. Na etapa de abertura do certame, na Austrália, o dono do #1 se envolveu em uma disputa acirrada contra Max Verstappen nas voltas finais e cruzou a linha de chegada na quinta colocação — mais de 51s de desvantagem em relação a George Russell, o vencedor em Melbourne.

Lando Norris teve um fim de semana discreto no GP da Austrália (Foto: McLaren)

Seis dias depois, no GP da China, até que tudo correu bem na sprint, com Lando fazendo o suficiente para terminar na quarta posição, ainda sem ritmo para brigar pelo pódio. No domingo, porém, a situação ficou realmente cabulosa pelo lado das garagens papaias, que viram os dois pilotos não conseguirem sequer largar devido a falhas distintas na bateria. O fantasma da confiabilidade voltou a assombrar a equipe, que além de ficar cada vez mais para trás na briga pelo Mundial de Construtores, também deixou de coletar dados importantes com a falta de tempo de pista.

Quando a F1 desembarcou no Japão para a terceira etapa do ano, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) informou que a McLaren havia trocado a bateria e o controle eletrônico da unidade de potência no MCL40 #1, o que poderia dar ao time a possibilidade de trabalhar com mais tranquilidade em Suzuka. Ledo engano. Com novos problemas no TL2 e no TL3, a escuderia precisou trocar mais uma vez os mesmos componentes, o que deixou Norris à beira de uma punição nas próximas corridas.

Mas o fim de semana na Terra do Sol Nascente não foi de todo ruim. Depois de duas provas sem ser capaz de incomodar as adversárias, a equipe de Woking provou ser um páreo duro em solo japonês. Mesmo atrapalhado pelo safety-car acionado pelo forte acidente de Oliver Bearman, Piastri garantiu o segundo lugar sem maiores problemas, enquanto o britânico, que teve muito menos tempo de pista do que qualquer outro piloto do top-3, também apresentou um ritmo interessante e concluiu na quinta posição, com direito a uma ultrapassagem para cima de Hamilton nos momentos finais.

A evolução vista no Japão foi o resultado de alguns fatores: os papaias conseguiram tirar maior proveito da unidade de potência da Mercedes e entenderam melhor o próprio carro. Além disso, o recapeamento de boa parte do asfalto aumentou o nível de aderência e minimizou o desgaste dos pneus, praticamente extinguindo o famigerado graining (quando tiras de borracha se soltam e grudam novamente na superfície), que foi um ponto de atenção para os laranjinhas nas etapas anteriores. Com a F1 se preparando para viajar até Miami no início de maio, será interessante notar como o MCL40 vai se comportar em condições diferentes.

Lando Norris perdeu tempo de pista, mas teve corrida interessante com McLaren no Japão (Foto: McLaren)

Para Norris, o mais importante é ficar longe de problemas. Ainda que esteja na frente de Piastri na classificação do campeonato, o bom resultado alcançado no Japão vai aumentar o moral do australiano, que segue na busca por certa consistência desde que o desempenho caiu vertiginosamente na segunda metade do ano passado. Desta forma, o atual campeão precisa mostrar que também tem condições de entregar um nível de performance similar ao do companheiro, mesmo que não goste tanto dos novos carros.

Até porque, caso as etapas no Bahrein e na Arábia Saudita não sejam remarcadas, restam 19 corridas para o fim da temporada, o que significa um longo caminho a percorrer. Com todas as equipes preparando grandes atualizações para as próximas semanas e o sistema de Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualização (ADUO, da sigla em inglês) prestes a lançar a primeira avaliação de desempenho das unidades de potência, muita coisa ainda pode mudar.

A McLaren provou nos últimos anos que sabe como sair de uma situação de desvantagem para chegar ao topo — e tem as ferramentas necessárias para repetir tal feito. Ainda que o ritmo apresentado em Suzuka careça de comprovação, o primeiro passo foi dado. Agora é a vez de Norris também reagir e acompanhar essa evolução, fazendo jus à alcunha de campeão.

A Fórmula 1 entrou em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna no fim de semana de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.

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