Frank Sinatra está resfriado. 60 anos atrás, o jornalista e escritor Gay Talese tinha uma entrevista marcada com Sinatra, mas deu azar: o cantor pegou uma gripe e precisou cancelar. Talese, então, teve ideia alternativa: na ausência do homem, conversaria com uma série de pessoas, entre amigos, produtores, gente de dentro e fora do showbiz, mas próxima do astro. Montou um perfil de Sinatra assustadoramente detalhado sem falar com ele. O caso virou referência no jornalismo e é ensinado em faculdades mundo afora até hoje.
Pois Max Verstappen está frustrado. Não, calma. Aqui, ninguém vai tentar replicar a tacada de mestre de Talese ou Truman Capote e Lilian Ross naqueles tempos de formação do chamado jornalismo literário, entre o fim dos anos 1950 e a década posterior. É uma ilustração interessante da avaliação de um personagem.
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Verstappen está na Fórmula 1 desde 2015, portanto há mais de uma década. Era um adolescente quando chegou, um tanto insolente, e cultivou o talento que tinha por anos até a primeira chance de título. Chegou no topo antes de estar totalmente amadurecido, algo absolutamente natural pela linha do tempo única que estabeleceu na F1. Fato é que pudemos acompanhar a olhos vistos todas as fases de Max bem na frente de nossos olhos. E, agora, está claro que a situação é de uma frustração que anuvia as vistas e toma conta do espírito.
A figura de deboches leves e críticas fundamentadas dos últimos anos virou, quase que exclusivamente, o Verstappen que se via acuado pelas críticas vindo da Inglaterra, mas agora com relação a quase tudo. Das regras, não apenas não gosta, mas acho que teriam de ser debandadas na sua totalidade após três corridas. E, aí, resolve com o que tem, na banguela, sei lá. Max sempre se mostrou um pouco incomodado com a exposição que a F1 obriga, mas quando está por baixo e precisa enfrentar o mínimo que seja de visões críticas, perde totalmente as estribeiras.
Diferente de outros momentos, em que tinha uma abordagem clara nas críticas que fazia, nesse momento quer apenas extravasar a frustração que o tomou. A expulsão de um jornalista inglês da coletiva de imprensa no Japão, com a justificativa de não ter gostado duma pergunta absolutamente justa feita cinco meses antes, foi o momento mais ridículo do desfile de birra que tem protagonizado nos últimos meses.
A ameaça que carrega consigo é o fato de conseguir vencer e fazer um pouco de tudo que gosta nas corridas de GT, pela equipe que criou. Vai correr as 24 Horas de Nürburgring, já venceu e impressionou algumas etapas na NLS por lá e tende a aparecer em outras categorias — a Verstappen Racing estreou no GTWC Europa, por exemplo, nesta temporada. Aliás, na abertura do campeonato, em Paul Ricard, está nos boxes, mesmo sem correr — importante lembrar que o GRANDE PRÊMIO, por meio da GPTV, transmitiu e transmite toda a temporada tanto do GTWC Europa quanto das edições das Américas e da Ásia. É lá que consegue desopilar o que mais o irrita. No momento, o fato de ter nas mãos um carro de pelotão intermediário.

Que Max também não gosta do formato das corridas na F1 está claro. E é direito dele não gostar, bem como várias das observações que faz, como a questão de segurança envolvida no acidente entre Oliver Bearman e Franco Colapinto, são totalmente justificáveis. Assim como o fato da Red Bull que conheceu estar de despindo frente aos olhos, perdendo figura central por figura central nos últimos dois anos. E verdade, seja dita, até tem poupado Red Bull e Ford recentemente. Verstappen não está errado em tudo e tampouco está louco, mas as frustração tiram dele o verniz de maturidade que ganhou frente aos nossos olhos nos últimos tempos.
Se quiser deixar a Fórmula 1, que deixe. Será um baque, sem dúvidas, mas a F1 sobreviveu a coisas muito piores em 76 anos de história. Que volte mais tarde, quando as regras se adequarem, porque certamente os times farão fila para tê-lo quando resolver que é hora do retorno. Verstappen fará 29 anos ainda em setembro e tem mais do que tempo para sair e voltar em alguns campeonatos, caso assim deseje. Ou que deixa apenas a Red Bull. Mas que faça com a cabeça no lugar, como o tetracampeão do mundo que é, não como a figura do dono da bola.
Ainda é o melhor piloto do mundo, e quanto a isso não se discute, mas passa pelo 2026 da Fórmula 1 como uma criança histérica que não aprendeu a ouvir ‘não’. Nem mesmo por longas três corridas.
A Fórmula 1 entrou em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna no fim de semana de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.
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