Enfim, a Fórmula 1 desembarcou na Espanha para a etapa no novo e temido circuito de Madri. A natureza particularmente sinuosa, os trechos rápidos e os muros bem próximos foram suficientes para causar um alvoroço, mas quando o sinal verde liberou os carros para os primeiros treinos livres, essa sensação de apreensão parece ter desaparecido. Não porque a pista tenha se mostrado menos assustadora, mas, sim, por uma enorme cautela dos pilotos, aliada também a um patamar de aderência raro para um circuito recém-inaugurado. De toda a forma, a sexta-feira (11) serviu para entender as principais demandas do Madring e deixou claro duas situações: a ordem de forças segue a mesma e a classificação será fundamental.

As posições de largada ganharam um peso maior devido, essencialmente, à singularidade do traçado. Embora os treinos tenham se mostrado menos acidentados do que se previa — apenas uma bandeira vermelha —, o circuito ainda esconde algumas armadilhas. É, sim, uma pista traiçoeira, porque é estreita em trechos velozes e cobra destreza do piloto, bem como extrema confiança no carro, especialmente nas curvas de alta velocidade e na extravagante Monumental. Portanto, todo cuidado é pouco. O ponto positivo do dia foi o alto nível de aderência para um asfalto tão novo. Isso facilitou bem a vida das equipes, principalmente na busca por uma melhor compreensão do comportamento térmico dos pneus, que serão bastante exigidos neste fim de semana, tanto pela qualidade do piso, quanto pelas altas temperaturas na região. Mas isso não quer dizer que o desgaste foi menor.

Então, a preocupação neste sentido diz respeito às simulações de corrida. Por causa do acidente com Arvid Lindblad durante a parte final do TL2, as equipes ficaram limitadas em relação aos dados do ritmo em condições de prova. Os níveis de desgaste dos pneus ainda são uma incógnita — apesar de que os compostos apresentaram granulações ao longo do dia, e isso já liga o sinal de alerta. Mesmo assim, dá para dizer que a Mercedes começou o fim de semana de maneira muito forte, sobretudo com Andrea Kimi Antonelli.

É bem verdade que o traçado madrilenho não apresenta pontos que agradam o W17, mas o líder do campeonato encontrou um caminho para ampliar a performance: ninguém consegue ser mais rápido que ele no terceiro setor da pista. E na primeira parte, o italiano também perde pouquíssimo para a concorrência. Não à toa, Antonelli foi o melhor da sexta-feira — e é importante destacar que a equipe alemã também comandou os trabalhos no TL1, com George Russell.

“Apesar de termos feito muito do trabalho de ritmo de classificação, a simulação de corrida foi atrapalhada pela bandeira vermelha no TL2. O que vimos foi que os pneus dianteiros estão sofrendo mais, o que provavelmente será a história também no domingo”, contou Andrew Shovlin, diretor de engenharia de pista da Mercedes. “Tudo está bem apertado nas primeiras posições, então temos de encontrar mais ritmo para ficar na briga pela primeira fila amanhã. No geral, o dia foi encorajador e aparentemente estamos tanto na briga quanto qualquer uma”, completou.

Claro que não é nenhuma surpresa notar a Mercedes à frente, mas o fato de ser um circuito um tanto diferente daquilo que faz as Flechas de Prata brilharem já é um sinal de alerta para a concorrência. Quem mais se aproximou da marca da estrela foi a Ferrari. Charles Leclerc terminou segunda sessão em segundo, a 0s113 de Antonelli, com Lewis Hamilton logo atrás, menos de um décimo, em terceiro. Mas o que chamou a atenção foi a performance da SF-26 nos dois primeiros setores, com trechos de aceleração e curvas de todo o tipo. O desempenho com os pneus médios foi promissor, assim como o ritmo em volta única com os macios. Se mantiver essa configuração — um equilíbrio entre o acerto mecânico e o gerenciamento de energia —, a equipe italiana será uma dura candidata à primeira fila.

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Depois do fiasco em Monza, a Ferrari parece mais competitiva em Madri Foto: Ferrari

“O acerto ideal é aquele que funciona bem na classificação, e não necessariamente no primeiro treino livre de sexta-feira”, alertou o chefe Frédéric Vasseur. “É um desafio, já que a pista apresenta praticamente todos os tipos de curvas da temporada, e é um bom exercício para os engenheiros. Mas, no fim das contas, também é difícil estimar como o nível de aderência vai evoluir entre o TL3 e a classificação, e até mesmo durante a própria classificação. A gestão da energia no trecho de alta velocidade também é complicada, e acho que a chave será estimar o ritmo que teremos no Q3”, emendou o dirigente.

Neste ponto é importante também citar a Red Bull e a Racing Bulls. Ambas apresentaram enorme potencial em ritmo de classificação, especialmente a segunda, com Lindblad — quarto na tabela no TL2. E as duas ainda dominaram a parte central do circuito, bastante sinuosa. Será interessante entender esse embate entre as esquadras dos energéticos e a Ferrari. Falta ainda inserir neste cenário a McLaren. Madri é uma pista para os carros laranja, que gostam de curvas longas e rápidas, mas o problema de câmbio que tirou Lando Norris do TL2 pode custar caro, ainda mais em um circuito novo. Já Oscar Piastri tentou se aproximar, mas deixou a impressão que os ingleses têm mais o que se preocupar.

Portanto, o sábado deve trazer respostas mais precisas sobre a ordem de forças além da Mercedes, bem como às exigências do traçado madrilenho. Que ainda esconde seus riscos, importante reforçar. O cuidado dos pilotos neste primeiro dia ficou evidente, mas há aspectos importantes que não podem ser ignorados.

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Antonelli também brigou com os limites de pista nesta sexta-feira (Foto: Mercedes)

Por exemplo, quase 50 tempos de volta foram eliminados por infrações relacionadas aos limites de pista no TL2, que foi marcado por uma bandeira vermelha. Só Antonelli acumulou dez violações da regra. Ou seja, o Madring tem lá seus caprichos. E é ainda uma pista ondulada e veloz, mas é também fundamentalmente um traçado de poucas chances de ultrapassagem.

E quem melhor traduziu isso foi Russell: “É inegavelmente um circuito de alto risco, e acho que todos os pilotos provavelmente deixaram essa margem de segurança mínima hoje”, disse Russell, que entregou um outro segredo do fim de semana. “Será difícil ultrapassar. O nível de aderência é muito alto, mas os carros escorregam bastante”, completou.

Então, sem a margem de segurança, é possível que a F1 conheça um pouco mais do que é feita a pista de Madri só no momento da definição dos lugares no grid.

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