Era o papo do correio do paddock há algum tempo — bastante tempo, na verdade. A Mercedes tinha saído na frente no desenvolvimento de motor e tinha tudo para se destacar uma vez que as novas regras, válidas a partir deste 2026, começassem a valer. E não é que foi? Sob a égide das mudanças, bem como na última grande alteração de motores, em 2014, a Mercedes disparou. O primeiro recesso de meio de temporada das novas regras chega com o retrato do comando da ordem de forças muito claro. Bem como o calcanhar de Aquiles.
A ordem de forças mostrou a realidade da situação muito rapidamente. Ainda nos testes de pré-temporada, deu para entender que a Mercedes trotava para chegar onde as outras tinham de partir em alta intensidade. A Austrália corroborou: George Russell era mais rápido e, embora um certo drama da largada frente à disparada da Ferrari tenha dificultado as coisas, Russell retomou o controle e venceu, com o companheiro Andrea Kimi Antonelli a reboque, completando a dobradinha.
A tônica daquelas primeiras quatro corridas era de dificuldades na hora de largar para a Mercedes, mas velocidade e equilíbrio eram superiores o suficiente para que seus ases se recuperassem. O que começou de lá para frente foi uma batalha interna. Enquanto Antonelli tomava pé da situação e deixava o grid avisado, Russell começava a sofrer. Apesar da dobradinha na China, amargava posições abaixo disso nas provas seguintes.
Por mais que George se visse às voltas com questões que ainda não conseguiu resolver totalmente, Kimi enfileirava cinco vitórias seguidas. Ao todo, a Mercedes só não largou na pole-position uma vez nas 11 provas do ano, justamente na última corrida antes das férias, na Hungria. Foram seis vitórias seguidas para abrir 2026, mas com três derrotas nas cinco corridas desde então.
As derrotas atuais e o achatamento da vantagem são absolutamente normal na realidade de uma Fórmula 1 saudável. È melhor que aquele planeta inteiro de distância que o regramento de 2014 ofereceu e que deixava evidente que demoraria muito tempo para que alguém pudesse incomodar. Assim foi: oito títulos de Construtores e sete de Pilotos em sequência. Agora, não. As rivais, muito mais hidratadas do que antes, já se preparam para os próximos anos. Sim, se der para incomodar os títulos de 2026 é bom, mas se der apenas para começar os próximos anos em pé de igualdade — ou perto disso —, serve.

Antonelli tem 50 pontos de vantagem na liderança e, mesmo com tantas corridas — entre dez e 13 GPs —, é improvável pensar que pode perder o título para um rival de outras cores. Ainda que as dificuldades estejam se impondo e Russell nem seja o vice-líder — está nove pontos atrás do vice, que é Lewis Hamilton —, ainda é o único algoz possível. No Mundial de Construtores, são 72 pontos para a Ferrari, que vem na segunda posição.
Mas se as largadas foram um problema lá atrás, agora não tanto, e se as rivais melhoram e aproximam, em algumas pistas mais que em outras, o que mais preocupa? No fim das contas, é algo que não aparecia tanto assim há 12 anos. A Mercedes tem uma séria questão de confiabilidade.
“Acho que começamos a temporada muito fortes”, declarou Wolff em entrevista ao portal neerlandês RacingNews365. “Acredito que nossa preparação também contribuiu. Como empresa fabricante de unidade de potência e chassi — ou equipe esportiva —, conseguimos realmente obter resultados e nos colocar em uma posição bastante dominante”, acrescentou.
“Definitivamente sofremos com a confiabilidade. Tivemos três ou quatro abandonos, perdemos de 70 a 80 pontos contra nossa concorrente direta, a Ferrari — que nos superou — por não completarmos as corridas. Hoje temos uma distância de pouco mais de 70. Se somarmos mais 70, teríamos uma vantagem realmente sólida”, afirmou.

“Mas perdemos esses pontos e todos estão diminuindo a diferença. Por isso, houve GPs mais complicados. Na verdade, as duas últimas vitórias da Ferrari aconteceram porque nós deixamos escapar: azar com safety-car [em Barcelona] e Kimi [terminando fora da zona de pontuação devido a problemas de confiabilidade] em Silverstone”, completou Wolff.
Em quatro das corridas da temporada até aqui, não completou a corrida ou não pontuou com os dois carros. Russell podia ter quebrado a sequência ruim no Canadá, quando liderava, mas abandonou com quebra no motor, mesma razão do abandono de Antonelli na Catalunha. Kimi ainda perdeu muito tempo com a quebra da proteção da roda dianteira na Inglaterra, sendo empurrado para fora dos pontos, ao passo que George ficou sem bateria no fim da reta Kemmel na 1ª volta do GP da Bélgica. Motivos diversos, preocupação concentrada.
O segundo motivo para preocupação é a insatisfação crescente de Russell, com dificuldades quase que inimagináveis no começo do ano. “O que vou pedir à Mercedes? Só quero que meu carro seja igual, não peço nada além disso. Só quero o mesmo carro”, disparou o piloto após um fim de semana conturbado na Bélgica. Para George, o maior desafio a partir de agora é não se perder na carreira por um ano ruim quando tinha tudo aberto para ser campeão mundial. De preferência, faz uma segunda parte do mesmo nível de Kimi, ao menos próximo, mesmo que o título fique fora de mão. Acima de tudo, piloto e equipe têm obrigação de terminar o ano na mesma página.
A Mercedes já prometeu que tem atualizações pelo caminho na segunda metade do ano, daquele tipo que Ferrari e McLaren apresentaram para se aproximar. Ao lado dela, também o fato do ADUO não tê-la definido como dona do melhor motor do ano, o que levantou toda uma questão sobre critérios de avaliação. É, e isso é verdade, risível que a Mercedes fique com os benefícios do ADUO enquanto a Red Bull sofre como se fosse dona do melhor motor. Mas as coisas são como são, e essa é a realidade para este ano.

Então, quem sabe: é possível que a Mercedes desfile para o título mesmo sofrendo corrida sim, corrida não com problemas de confiabilidade. Se as atualizações foram espetaculares, certamente será o caso. Mas a preocupação tem de ser também o futuro sob o atual conjunto de regras. E, para isso, é bom deixar um pouco o campeonato atual de lado por um instante e pensar em como dominar a médio prazo.
Os problemas da Mercedes estão postos: existem e são bem claros. Mas o lugar na ponta da ordem de forças está ainda melhor definido. A ver como os próximos quatro meses caminharão.
A Fórmula 1 está de férias. A categoria retoma as atividades da temporada 2026 de 21 a 23 de agosto, com o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.
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