No dia 22 de outubro de 2006, o Brasil voltou a ocupar topo do pódio de uma corrida da F1 em Interlagos pela primeira vez desde 1993, quebrando um incômodo jejum de 13 anos. À época, Felipe Massa tinha apenas uma vitória na carreira, que aconteceu no GP da Turquia daquele ano, mas atuou como um veterano no GP do Brasil para cair nos braços do povo ao final da corrida.
Porém, o grande foco entrando na 18ª e última etapa da temporada era a disputa pelo título do Mundial de Pilotos entre Michael Schumacher, companheiro de Massa na Ferrari, e Fernando Alonso, atual campeão e representante da Renault. O jovem talento espanhol precisava apenas de um oitavo lugar para garantir o título. Já o lendário alemão, aos 37 anos, disputava a última corrida antes da aposentadoria da Fórmula 1 — ou pelo menos a primeira dela — e dependia de um resultado bastante improvável para conquistar o octacampeonato.
Com Rubens Barrichello deixando Maranello para assumir o posto de titular na Honda, Massa pulou para a Ferrari em 2006 e começou a temporada sem muito brilho. Porém, depois de conquistar a primeira pole da carreira e liderar o GP da Turquia de ponta a ponta no dia 27 de agosto, engatou uma boa sequência até o final do ano e travou uma boa disputa contra Giancarlo Fisichella pelo terceiro lugar do Mundial.
Chegando em Interlagos, Massa já chamou a atenção pelo macacão especial que usou no fim de semana, estampando a bandeira e as cores do Brasil, inspirado na iniciativa similar que Schumacher teve no GP de Mônaco. Em pista, os holofotes acompanharam o brasileiro, que viu a Ferrari demonstrar um ritmo superior às rivais logo na classificação.
Logo de cara, Massa liderou o Q1 e Schumacher foi o mais rápido no Q2. No entanto, o alemão sofreu um problema na bomba de combustível na saída para a volta rápida do Q3, impedindo-o de registrar um tempo e obrigando-o a largar apenas em décimo. O brasileiro, então, aproveitou a oportunidade e conquistou a pole-position ao anotar 1min10s680, 0s619 à frente de Kimi Räikkönen, então piloto da McLaren.
E o cenário de favoritismo de Massa não mudou na largada, com o piloto da Ferrari mantendo a ponta com tranquilidade na entrada do S do Senna, seguido por Räikkönen e Jarno Trulli. O único obstáculo que o brasileiro encarou naquele domingo foi o safety-car provocado pelo acidente forte de Nico Rosberg, que havia perdido a asa traseira após receber toque do companheiro de Williams, Mark Webber, na primeira volta.

Ainda assim, com 15 voltas para o final, a vantagem na liderança já estava na casa dos 10 segundos, e Massa caminhava a passos largos para vencer a segunda corrida da carreira e a primeira em casa, devolvendo o Brasil ao topo do pódio em Interlagos. O único momento em que Massa perdeu a ponta foi quando parou nos boxes, na volta 24.
Ainda assim, retornou à liderança com uma vantagem de 18 segundos para Alonso, que assumiu a vice-liderança depois de uma estratégia ruim da McLaren com Räikkönen. Na volta 52, Massa voltou para os boxes, mas tinha uma margem tão grande que retornou à pista ainda na primeira posição.
Por outro lado, a Ferrari vivia uma situação mais delicada com Schumacher, que fazia uma boa corrida de recuperação até sofrer um furo de pneu após contato com Fisichella. Assim, teve de apostar em um pit-stop mais longo, já que havia caído para último, e tentar ficar mais tempo em pista sem parar. Lembrando que, em 2006, a Fórmula 1 ainda tinha reabastecimento.
Depois de 71 giros, Massa cruzou a linha de chegada na primeira posição, seguido por Alonso, que conquistou o bicampeonato mundial com tranquilidade em São Paulo, e Jenson Button, que completou o pódio com a Honda. O triunfo de um brasileiro em Interlagos pela primeira vez desde Senna em 1993 levou Interlagos ao delírio.

“A sensação de vencer o GP do Brasil é única e algo que é muito difícil explicar, é a realização de um sonho”, disse Massa ao GRANDE PRÊMIO em 2021. “Foi sem dúvida o dia mais feliz da minha vida profissionalmente, onde passou pela minha cabeça toda a dificuldade que tive, desde o kart até lá em cima, a evolução que eu tive, todos os momentos difíceis que eu tive de passar, falta de dinheiro, lado financeiro, começando campeonatos quando não tinha o dinheiro para fazer o campeonato inteiro”, relembrou.
“Acabei fazendo e vencendo, como na Fórmula Chevrolet. Cheguei à Fórmula Renault, na Itália, com dinheiro para fazer seis corridas, e acabei fazendo inteiro e o europeu inteiro também. Fui campeão dos dois. A dificuldade de entrar, continuar e permanecer na Fórmula 1. Tudo isso acaba passando pela cabeça, e é uma sensação única, é uma realização de um sonho”, concluiu.
Com a campanha finalizada, Massa fechou a temporada 2006 com sete pódios conquistados e 80 pontos, superando Fischella por oito tentos e ficando com o terceiro lugar do Mundial de Pilotos.