Contratado para a temporada 1996 da Fórmula 1 como o piloto capaz de levar a Ferrari de volta aos dias de glória, Michael Schumacher deixou a Benetton após dois títulos mundiais ciente de que encontraria um projeto em estado de juventude em Maranello. Com um carro ainda em desenvolvimento e a formação embrionária da estrutura que assombraria o mundo com cinco taças seguidas entre 2000 e 2004, o alemão viveu certa dose de sofrimento naquele ano e viu Damon Hill levar o único título da carreira. Mas venceu três vezes — e a primeira, no GP da Espanha, veio como uma surpresa das mais agraváveis à escuderia.

Ainda acertando os ponteiros de um projeto que tomava forma sob comando de Jean Todt, a Ferrari chegou ao GP da Espanha de 1996, a sétima etapa da temporada, encarando uma Williams dominante. Afinal, nas seis rodadas anteriores, Hill vencera quatro, com um triunfo para o companheiro Jacques Villeneuve e o histórico primeiro lugar de Olivier Panis em um GP de Mônaco tomado pela zebra.

No entanto, a chuva resolveu desabar sobre o Circuito de Barcelona e igualou as forças de uma maneira até então não vista na temporada, oferecendo a Schumacher a oportunidade de fazer o talento gritar mais alto. Nada, porém, que tenha afetado a classificação: Hill marcou mais uma pole com tranquilidade, 0s434 à frente de Villeneuve, com Schumacher em terceiro. Rubens Barrichello e Pedro Paulo Diniz representavam o Brasil, respectivamente em sétimo e 17º lugares no grid.

E a largada aconteceu em uma pista completamente encharcada, o que trouxe o caos logo no início. Villeneuve tomou a liderança de Hill, que ainda perdeu o segundo lugar para Jean Alesi. O próprio Schumacher despencou para nono, mas evitou confusão ainda maior que tirou cinco pilotos de uma vez: Ricardo Rosset, Pedro Lamy, David Coulthard foram na primeira volta, seguidos por Panis e Giancarlo Fisichella na segunda. Para completar, Eddie Irvine teve problemas na Ferrari e também abandonou.

Quando a corrida assentou, porém, Schumacher tinha claramente mais ritmo que a concorrência na pista molhada. O alemão subiu para sexto ainda na primeira volta e ganhou mais uma posição com o abandono do companheiro Irvine. Depois, nem precisou se esforçar para passar Hill, que escapou sozinho da pista, mas tirou do caminho Gerhard Berger, Alesi e Villeneuve em sequência para tomar o primeiro lugar. Damon erraria de novo na oitava volta, dessa vez com uma pancada no muro e o abandono.

Pódio daquele GP da Espanha teve Schumacher, Alesi e Villeneuve (Foto: RACC/Forix)

Ao assumir a dianteira, Schumacher rapidamente abriu em relação ao restante do pelotão e não foi mais ameaçado. Ao menos não por algum competidor, já que o carro da Ferrari teve problemas em dois cilindros e quase causou o abandono do alemão. Enquanto Alesi focava em segurar Villeneuve pelo segundo posto, Michael cruzou a linha de chegada com 45s3 de frente para o francês da Benetton. O canadense completou o pódio.

Curiosamente, apenas seis carros cruzaram a linha de chegada naquele GP da Espanha. Além do pódio, só Heinz-Harald Frentzen, Mika Häkkinen e Pedro Paulo Diniz completaram. Com o sexto lugar, o brasileiro somou o primeiro ponto na Fórmula 1, enquanto Barrichello acabou abandonando com um problema no diferencial da Jordan. Até ali, era quarto e estava a caminho de pontuar.

Apesar do domínio evidente de Schumacher, a temporada teria mesmo Hill como campeão. O inglês aproveitaria o poderio da Williams, enquanto o alemão sofreria com os problemas de confiabilidade da Ferrari. Mesmo assim, Michael ainda venceu na Bélgica e na Itália para terminar o campeonato em terceiro, atrás apenas dos pilotos da equipe inglesa. A corrida em Barcelona, contudo, ficará marcada para sempre como o pontapé inicial de uma época de glórias que levaria quatro anos para começar, mas entregaria ao mundo um dos projetos mais dominantes de todos os tempos.

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