O que não faltam são grandes vitórias no currículo de Ayrton Senna, mas dentre todas as 41 conquistadas durante a passagem pela Fórmula 1, o GP da Espanha de 1986 é daquelas que não apenas entram para a história por conta da diferença mísera de 0s014 entre primeiro e segundo colocado (aqui, no caso, Nigel Mansell). Corridas como a de Jerez servem para as novas gerações entenderem a razão de Senna ser um dos melhores pilotos de todos os tempos por conta de algo que, na F1 atual, tem sido posta de lado por culpa do regulamento: a pilotagem.
Mas não falemos de 2026, porque o foco aqui é o que o automobilismo viveu há 40 anos, numa época em que o grid da F1 era composto por, além de Senna e Mansell, Nelson Piquet, Alain Prost, Keke Rosberg e companhia. Na temporada de 1986, o Mundial chegava à segunda de 16 etapas com uma rivalidade ainda embrionária entre Senna e Mansell após os enroscos entre os dois nas duas corridas anteriores. E tanto no encerramento da temporada passada, em Adelaide, quanto no Brasil, o primeiro daquele ano, o britânico da Williams levara a pior, acumulando dois abandonos seguidos.
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Claro que o terceiro encontro deles em pista também teria faíscas ocasionadas por muita disputa, pois tanto Senna quanto Mansell sempre foram o que se chama de piloto ‘raçudo’. Um mais atabalhoado que o outro, é verdade, mas não menos combatente.
Ayrton chegou a Jerez de la Frontera embalado pelo segundo lugar com a Lotus no GP do Brasil, vencido por Piquet. Na prática, o carro do brasileiro não era visto como candidato ao título frente ao poderio de Williams e McLaren, mas o talento de Senna ainda faria muita diferença ao longo da temporada, principalmente nas classificações. E a pole-position do GP da Espanha representou a centésima da história da Lotus na principal categoria dos monopostos.
Senna alinhou em primeiro, com Piquet em segundo, Mansell em terceiro, Prost em quarto e Rosberg em quinto, mas o finlandês conseguiu saltar para terceiro ainda na primeira volta. No sexto giro, foi a vez de Prost pegar a posição de Nigel, enquanto Senna aproveitava o carro mais bem acertado no miolo para escapar da potência do motor Honda da Williams de Piquet nas retas.
A perseguição, entretanto, seguia frenética e também trazia o McLaren de Rosberg na cola. Em alguns momentos, Piquet se via forçado a optar por um traçado mais defensivo, permitindo a Senna leve respiro. Até então, a sensação era de que Ayrton tinha gordura para queimar no embate contra Piquet, porém o mesmo não poderia ser dito caso Rosberg efetuasse a ultrapassagem.
Enquanto isso, na volta 6, Mansell sofria ataque de Prost e caía para quinto, mas a recuperação veio cerca de dez giros depois, marcando o início da escalada do ‘Leão’ rumo à liderança. O próximo da lista foi Rosberg na volta 30, ao ganhar a preferência na freada da curva 1.

Piquet resistiu por três voltas e nada pôde fazer para conter o companheiro de equipe, muito mais rápido. Nigel, então, não demorou a ter Senna na alça de mira, porém precisou remar um pouco mais para superar o brasileiro da Lotus. Foram sete giros até Mansell conseguir usar o retardatário Martin Brundle para deixar Ayrton por fora na curva 1, sem chance de defesa — detalhe: Brundle abandonou em seguida com a Tyrrell. Ultrapassagem esperada, pois, mas que estava longe de ser o ponto final na corrida.
Na mesma volta da ultrapassagem de Mansell sobre Senna, Piquet abandonou a corrida por problemas de motor. Na frente, o outro Williams não teve trabalho para abrir 4s1 sobre o icônico carro preto e dourado, mas eis que a vantagem começou a se dissipar, e Ayrton arriscou tudo em uma manobra ousada a dez voltas do fim, em um ponto não tão comum para ultrapassagens.
Mansell, claro, tentou não perder tempo e dar o troco, porém a disputa com Senna fez Prost, então na terceira posição, se aproximar perigosamente, tanto que o francês também se aproveitou do caminho aberto pelo futuro arquirrival e mergulhou para jogar o Leão para terceiro.
Foi quando Nigel foi para a cartada final ao parar nos boxes para colocar um jogo novo de pneus. Era uma época em que não era obrigatório usar dois tipos de compostos, como acontece nos dias de hoje, portanto as paradas eram muito mais definidas por desgaste excessivo ou estratégia. No caso de Mansell, a segunda opção deu a ele um verdadeiro foguete nas mãos impulsionado pelo motor Honda.
Quando voltou dos boxes, na terceira posição, precisou de cinco voltas para superar Prost. As quatro últimas são daquelas de encher os olhos de qualquer fã de corridas. Mansell estudava um jeito de ultrapassar Senna, uma vez que passar por cima, dada a velocidade, não era opção. A janela só se abriu na volta final, mais precisamente na linha de chegada, quando colocou de lado e tirou um pequeno ‘racha’ com Ayrton. Mas faltaram 0s014.
A chegada do GP da Espanha de 1986 é considerada a terceira mais apertada da história, perdendo apenas para o GP dos Estados Unidos de 2002 (0s011), entre Rubens Barrichello e Michael Schumacher, e o GP da Itália de 1971 (0s010), entre Peter Gethin e Ronnie Peterson.
A Fórmula 1 entrou em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.
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