A conquista do título por Andrea Kimi Antonelli foi o ponto alto da tarde de domingo (1) na Fórmula 1. Mas acabou não sendo o único assunto do GP da Cidade do México. É que a Ferrari tomou os holofotes para si em um novo incidente entre Lewis Hamilton e Charles Leclerc. E esse talvez tenha sido o episódio mais sério de uma lista de problemas envolvendo a dupla ferrarista em 2026. Simplesmente porque, desta vez, o confronto custou a vitória em um momento em que a escuderia italiana parecia dominar as ações. O agressivo ataque do monegasco logo na primeira volta, numa tentativa de tirar a liderança do companheiro de equipe, também expôs a fragilidade do comando do time de Maranello. A verdade é que a Ferrari parece ter alcançado um ponto sem retorno.
Há algumas semanas, a esquadra vermelha tenta recuperar terreno na briga contra a Red Bull e a Mercedes. Houve uma evolução técnica interessante desde a Malásia, mas também houve uma série de fracassos e um desperdício de oportunidades. Estratégias equivocadas, erros de pilotagem, falhas técnicas. No entanto, o México surgiu como um ponto de virada. A SF-26 se adaptou muito bem ao traçado do Hermanos Rodríguez — do comportamento dos pneus à configuração mecânica/aerodinâmica, sem contar o fato de que o time foi capaz de minimizar os efeitos da altitude. A pole de Hamilton no sábado foi um forte sinal, acompanhada de um importante terceiro lugar de Leclerc — que até poderia ter assegurado a posição de honra do grid, não fosse um vacilo da volta decisiva. Ainda assim, a Ferrari obteve uma classificação forte e que abriu a possibilidade de uma corrida igualmente competitiva.
Mas era necessário um trabalho de equipe impecável. E a largada era o ponto mais crítico. O circuito mexicano tem uma das maiores distâncias entre a pole e a primeira curva. Tudo pode acontecer nesse espaço: vácuo, um alinhamento de vários carros, freadas bruscas e por aí vai. Só que Hamilton saltou bem e manteve a ponta, enquanto Leclerc se posicionou logo atrás, ao superar Max Verstappen — que pulara de quinto para terceiro. Foi então que o monegasco partiu para cima do inglês, tentando a qualquer custo tomar a ponta. Não deu na curva 1, mas entre a 4 e 5 a coisa esquentou de vez.
Leclerc empurrou Hamilton ao tentar passar por fora e foi na grama, o que tirou impulso do britânico e permitiu a passagem de Verstappen. Estabanado, Charles assumiu a liderança, mesmo após cortar a curva. O neerlandês ficou em segundo, com o heptacampeão em terceiro. 13 voltas mais tarde, os comissários entenderam que o monegasco fora culpado. Aplicaram uma punição de 5s — essa sanção gerou reclamações contundentes por parte de Max e Lewis, que esperavam a costumeira decisão de 10s. Mas a FIA detalhou que houve um atenuante: o fato do inglês ter escapado da pista também foi levado em consideração.
A partir daí, Charles tentou abrir vantagem para Max, enquanto Hamilton ficou preso atrás do tetracampeão — e passou a se queixar veementemente do colega de equipe e cobrou explicações da FIA. Alheio a tudo, o monegasco ainda buscava se distanciar, pensando no momento da parada e em uma forma de neutralizar o efeito da punição.
Quando chegou a hora de ir aos boxes, a Red Bull agiu rápido e chamou o neerlandês, assim que a Ferrari sinalizou a estratégia para o piloto de Mônaco. Isso acabou colocando Verstappen à frente. Mas a corrida ainda reservaria mais uma dose de drama: na volta 45, Valtteri Bottas viu a suspensão dianteira esquerda da Cadillac se esfarelar em plena reta principal e passou reto em direção às barreiras de proteção da curva 1. O finlandês não se feriu e saiu sozinho do carro, mas a prova precisou ser interrompida para os reparos na área de escape.
Foi aí que Hamilton revelou a dimensão do que acontecia na Ferrari. “Temos grandes problemas. Problemas muito, muito grandes”, disse pelo rádio, enquanto parava o carro no pit-lane. A declaração ligou o sinal de alerta mais uma vez. Quando a corrida teve o reinício, Lewis não deu chances ao companheiro de equipe, que largava em segundo. Tomou a posição e passou a pressionar Verstappen. Algumas voltas depois, Leclerc se tornou presa fácil para Antonelli e caiu para o quarto lugar, onde permaneceu até o fim da prova. Já o heptacampeão completou em segundo, logo atrás do vencedor, o neerlandês da Red Bull.
Mais tarde, Hamilton resumiu o impacto do ataque atabalhoado de Charles. “Poderíamos facilmente ter feito uma dobradinha hoje. Tínhamos ritmo para isso. O que aconteceu nos custou a vitória”, afirmou o piloto #44, lembrando uma máxima do esporte a motor que diz que quase nunca se vence na primeira curva. “Entramos na curva quatro em primeiro e segundo. Se conseguíssemos manter a posição, acho que tudo poderia acontecer na corrida. Mas quando seu companheiro de equipe trabalha contra você e você perde posições assim, é definitivamente difícil.”
Já Leclerc tentou minimizar a disputa. “Vou falar com Lewis. Nenhum de nós conseguiu fazer a curva direito. Não sei se o objetivo de Lewis era me garantir o terceiro lugar, mas, com o Red Bull em segundo, achei que valia a pena manter a posição e ver o que acontecia. Foi o que fiz. Mas também poderia estar chateado com a forma como ele me empurrou para fora da pista na saída da primeira curva, mas isso faz parte das corridas. Quando você está lutando pela vitória, é assim que deve ser.”
Frédéric Vasseur também falou sobre o confronto e se disse frustrado. “Estou me esforçando para engolir isso porque, honestamente, acho que é uma falta de respeito, uma falta de respeito pela marca, uma falta de respeito por todas as pessoas que trabalham aqui e pelos esforços que estamos fazendo. Demos um passo real adiante em termos de desempenho. E acho que jogar fora uma vitória como essa é difícil.”
Mas ao ser questionado sobre a quem estava se referindo, o francês se esquivou e não apontou culpados. “Não, não, eu não mirei em ninguém. Quero conversar com eles. Lewis também estava saindo muito da pista, mas olha, acho que também precisamos ter em mente que representamos uma marca, representamos patrocinadores, temos 2 mil pessoas trabalhando atrás de nós que não estão correndo só pelo prazer de correr, elas estão correndo pelo time inteiro.”
Embora tenha razão em sentir que faltou respeito, Vasseur comete um erro grave aí — e recorrente também. Porque é preciso, sim, cobrar de quem falhou. Mesmo porque essa não foi a primeira vez que Leclerc se colocou em uma posição potencialmente arriscada envolvendo Hamilton e comprometendo a equipe. Só nesta segunda parte de temporada houve pelo menos dois casos: nos Países Baixos, o monegasco ignorou uma ordem da Ferrari para deixar o colega passar, mesmo em estratégias diferentes, e isso custou um pódio ao britânico. Depois, diante da torcida ferrarista em Monza, o piloto #16 achou de bom tom endurecer uma disputa logo na primeira curva após a largada. Empurrou Lewis para fora, mas acabou batendo forte na sequência, abandonando a corrida.
Houve ainda outros incidentes em torno de táticas e trocas de posição, o que só fundamentou a tensão entre ambos e na garagem italiana — e isso vem desde 2025.
Hamilton falou em “conversas sérias a portas fechadas” na Ferrari — também não é a primeira vez que ele pede por um entendimento. E de fato, é imperativo que isso aconteça, mas que haja algum efeito prático desta vez. Porque se Vasseur menciona o respeito à equipe, à marca, é bom também que todos trabalhem pela equipe e saibam as consequências quando algo saí do controle.
É bem verdade que, desde que chegou à escuderia italiana, Leclerc sempre foi tratado como um astro e a esperança de acabar com o jejum de títulos. Mas isso já tem oito temporadas. Neste tempo, houve mais polêmicas, envolvendo especialmente os companheiros de equipe, do que propriamente grandes resultados. Mesmo assim, a chefia decidiu ampliar o contrato do monegasco, certamente apostando nesse sonho de voltar a vencer. Mas talvez agora seja hora de uma reflexão honesta sobre o que realmente é possível esperar de Charles.

Obviamente, o monegasco é um piloto dos mais talentosos e rápidos do grid, mas é o bastante para uma Ferrari que precisa de liderança, trabalho em equipe e consistência? Às vezes, decisões difíceis levam ao sucesso, mas é necessário ter coragem de tomá-las. E é preciso também reconhecer: Lewis matou a questão aqui. “Antes de me juntar a esta equipe — quando eu estava na Mercedes —, observei, em várias corridas, a disputa entre Charles e Carlos (Sainz). Eles lutavam tanto entre si que o piloto que vinha à frente acabava se distanciando, mesmo tendo ritmo para vencer a prova. Mas uma coisa é isso acontecer na disputa pelo quarto ou quinto lugar. Outra, bem diferente, é quando se está em primeiro e segundo, e você acaba perdendo uma vitória. Isso é algo significativo. O rapaz tem 28 anos, então não creio que seja uma questão de idade. Acho que é uma questão de mentalidade. É algo como: ‘É tudo ou nada. Ou eu venço, ou ninguém vence’ — e não deveria ser assim.”
É natural e até saudável ter o companheiro de equipe como o primeiro rival, mas é também inteligente saber separar as disputas e escolher as batalhas. E essa última parte também serve muito bem para a Ferrari, que precisa escolher se quer mesmo voltar a vencer ou só apagar incêndios.
Agora, a Fórmula 1 retorna no próximo fim de semana para completar a rodada tripla no Brasil, com o GP de São Paulo. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa, diretamente do Autódromo de Interlagos.