A Federação Internacional de Automobilismo escreveu mais um capítulo confuso em sua já bastante controversa história — especialmente sob o comando de Mohammed Ben Sulayem. A verdade é que os comissários mataram o fim do GP da Inglaterra deste domingo (5), ao deixarem o safety-car em pista até a bandeirada e roubaram do público que lotou as arquibancadas de Silverstone a chance de acompanhar aquele que seria um dos finais de prova mais emocionantes da temporada até aqui. Mais do que isso, a série de escolhas equivocadas também escancarou um urgente senso de mudança, dos protocolos de segurança à comunicação.
O que provoca choque também é entender que a necessidade de uma reformulação completa nasce de uma situação corriqueira na F1. A de um simples acionamento de safety-car em um momento de acidente. A partir daí, ficou evidente que a direção de prova não sabe bem o que fazer. Tudo começou com o incidente de Max Verstappen na volta 48 das 52 da corrida inglesa. O neerlandês da Red Bull era o terceiro colocado quando perdeu o controle na entrada da curva Stowe e parou na caixa de brita. Charles Leclerc liderava a prova naquele momento. Com a bandeira amarela e o SC, as equipes aproveitaram para realizar um pit-stop extra. A Ferrari chamou o líder e Hamilton, que já aparecia em segundo, enquanto a Mercedes deixou George Russell na pista — o que o colocou como vice-líder.
A estratégia era clara: com cinco voltas para o fim, haveria tempo para ao menos um giro em bandeira verde, portanto todos tentaram uma última tacada, sobretudo Lewis Hamilton, que buscava uma oportunidade para tentar a vitória e crescer no campeonato, diante dos problemas de Kimi Antonelli. Mas aí a direção de prova, tardiamente, decidiu realinhar o pelotão, como manda no regulamento, só que, ao mesmo tempo, já exibia a mensagem: ‘safety-car nesta volta’ — tudo isso na aproximação do giro 51. Ou seja, era uma indicação de que haveria uma relargada mesmo. Mas não foi o que aconteceu. O carro de segurança seguiu à frente do pelotão até a quadriculada, ratificando a vitória de Leclerc, com Russell em segundo e Hamilton em terceiro. Ninguém entendeu nada.
Mais tarde, a FIA tentou justificar a confusão que acabou por interferir no resultado. Segundo a Federação, o artigo B5.13.5, que se refere aos procedimentos do safety-car dentro do regulamento, estabelece que um giro deve ser completado após o aviso de que retardatários podem descontar a volta que estão atrás. Logo, a mensagem que avisou que o safety-car voltaria aos boxes foi disparada de “forma errônea, devido a um erro no software”. A entidade prometeu investigar o caso e é realmente necessário, porque a alegação de pane é brincar demais com o público.
A demora em avaliar melhor a situação, providenciar o realinhamento do pelotão e a falha de comunicação são erros notáveis, mas também é preciso questionar: por que deixar a corrida terminar sob bandeira amarela? Se os fiscais de pista ainda precisavam de um tempo para resgatar o carro de Verstappen ou se ainda fosse necessário ajustar a formação dos carros, por que não uma bandeira vermelha, tal como em Mônaco? Teria sido muito mais justo com os competidores e com o público.
Ao invés do anticlímax terrível, a Fórmula 1 teria tido a chance de viver um fim de corrida imprevisível, com reflexos interessantíssimos para o campeonato. Então, chegou a hora de uma autoavaliação e de mudanças urgentes em protocolos para situações como as deste domingo. Não é aceitável terminar uma corrida atrás do safety-car, quando o cenário permite decisões diferentes.
Essencial dizer, ainda, que essa não é a primeira vez que a FIA influencia o resultado de uma prova neste ano. Há algumas semanas, no GP de Mônaco, houve uma série de punições por excesso de velocidade no pit-lane. A sequência de sanções já havia chamado a atenção durante a corrida, mas foi a Alpine quem desvendou o problema, expondo uma das situações mais bizarras da F1.
A equipe francesa, que havia perdido o pódio de Pierre Gasly em função das punições, foi capaz de provar que o sistema de medição apresentava falhas, e a entidade precisou voltar atrás. O detalhe mais sensível dessa história é que a esquadra chefiada por Flavio Briatore usou os dados da própria F1, no papel da FOM (Formula One Management), também responsável pela cronometragem, para provar que a aferição estava realmente incorreta.
Além de Gasly, outros quatro pilotos também foram flagrados acima da velocidade no pit-lane naquela corrida, incluindo Russell — o mais prejudicado pelo erro. Embora tenha falhado em acrescentar a punição de 5s no momento do pit-stop, o que o ocasionou uma segunda sanção de drive-through, a Mercedes não teve como recorrer do defeito na verificação da velocidade. E isso provavelmente custou 15 pontos ao britânico.
Outro elemento confuso da atual gestão da FIA é a incapacidade de administrar o regulamento da Fórmula 1. Desde que ficou claro que havia um problema sério com as unidades de potência, devido à extrema proporção de 50% entre a parte de combustão interna e a bateria, a entidade foi empurrando com a barriga as críticas e as decisões sobre essas regras. E trabalhou mal na tentativa de adaptar alguns pontos e mascarar os problemas.

Ainda que os ajustes tenham funcionado em determinados tipos de pista, a verdade é que a F1 segue refém de um conjunto de normas que não faz o menor sentido, porque um carro da categoria máxima do esporte não pode simplesmente perder velocidade no meio de uma reta ou não ter como se defender em disputas abertas. Simples assim. Mas parece difícil para quem rege o Mundial entender que não se pode crucificar a essência do esporte a troca de nada. Silverstone mostrou bem o quanto a F1 flerta com um vexame ainda maior daqui para frente.
Por fim, esse cenário de ineficiência e pouca transparência também passa pelo presidente da entidade. Ben Sulayem parece sempre mais preocupado em impor sua presença em pódios e celebrações do que propriamente no lugar para qual foi eleito. O dirigente teima em ser a estrela de um espetáculo que não é seu, e isso só reforça a ideia de que a FIA parece, muitas vezes, inútil.
A Fórmula 1 volta de 17 a 19 de julho no GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, décimo da temporada 2026.
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