O retorno da Fórmula 1 à Malásia trouxe um sabor agridoce. Por um lado, a experiência foi importante para lembrar que pistas de verdade proporcionam corridas divertidas e imprevisíveis, mas, por outro, deixou claro que a maior das categorias do esporte a motor ainda peca em situações básicas. O que aconteceu neste domingo (4) foi algo sem precedentes e de um tom de bizarrice poucas vezes visto. Ainda que a corrida tenha sido muito interessante e tenha também praticamente encaminhado o título de Andrea Kimi Antonelli, dificilmente será possível esquecer o vexame histórico da F1 em Sepang. Vergonha essa merecida.

É claro que a Malásia por si só já seria uma adição enorme ao calendário da F1, mas a escolha de ir lá em uma época especialmente chuvosa cobrou um preço que poderia se tornar impagável — mais uma daquelas decisões atabalhoadas que o comando da categoria toma em relação às praças em que decide visitar. O temporal que desabou pouco antes da corrida por pouco não acabou com a festa, uma vez que este Mundial parece temer o piso molhado mais do que qualquer humilhação. E ficou bem claro a razão. Simplesmente, o atual regulamento não está preparado para chuva. Porque a primeira vez da nova geração de carros com a precipitação foi um fracasso.

Um atraso em razão de segurança seria até compreensível, muito embora a F1 tenha, sim, de pensar em uma maneira segura de correr com pista molhada. Mas o que foi decisivo em Sepang nada teve a ver com isso. Depois de um primeiro adiamento por conta da chuva — cerca de 40 minutos —, a segunda tentativa de começar a corrida testemunhou uma estranha série de problemas nos carros, que deixou muita gente sem saber o que fazer, entre eles os dois homens da primeira fila, Max Verstappen e Lewis Hamilton. Outros tantos pilotos também foram afetados por falhas do software de controle gerenciado pela Federação Internacional de Automobilismo. Então, o que se viu foi uma balbúrdia inexplicável: carros parados na pista, outros lentos e nenhuma informação.

De acordo com a entidade, “uma combinação inédita de baixa rotação do motor, condições de baixa aderência, configurações de gerenciamento de energia para pista molhada e a configuração dos setores do circuito de Sepang levou a uma perda de potência não intencional em vários carros.”

“Como resultado, o departamento técnico da FIA removeu a restrição do limite de energia nos setores afetados por meio de uma atualização de software distribuída a todos os competidores durante a interrupção da prova causada pela chuva forte, permitindo que as equipes fizessem as alterações necessárias na unidade de potência antes da largada”, seguiu a nota da federação, que prometeu uma “análise completa” do caso.

O defeito generalizado obrigou a direção de prova a suspender novamente a largada, para que fosse possível atualizar o sistema e seguir com o evento. Esse procedimento levou quase uma hora para ser concluído. Só então, cerca de 1h40 depois do horário planejado da corrida, é que a disputa começou mesmo. A partir daí, a prova transcorreu sem maiores incidentes, apenas as ocorrências corriqueiras.

A confusão generalizada na primeira tentativa de voltas de apresentação (Vídeo: Reprodução/F1)

De fato, é imperativo saber como essa falha não pôde ser prevista. Mas também chama a atenção a necessidade de se simplificar o processo, para evitar que pilotos e equipes fiquem reféns de situações dessa natureza, ainda mais em um cenário caótico que tomou conta do início da corrida. E essa sensação de que algo precisa ser feito antes que aconteça um episódio mais sério é compartilhada também por boa parte dos pilotos.

Vencedor do GP do Bahrein na Malásia, Max Verstappen debochou: “É o que acontece com esses motores. Com um V8 você não tem esses problemas”. Enquanto isso, Sergio Pérez definiu o caso como inaceitável. “O que aconteceu hoje foi como se você estivesse em um kart de aluguel e o tempo acabasse. Estou certo de que aprenderemos com isso como esporte, mas o que aconteceu hoje é totalmente inaceitável”, disparou.

Fernando Alonso foi no ponto ao também incluir a perspectiva do público. “É a primeira vez que vejo algo assim. É preciso dar explicações. Tecnologia demais que o espectador também não aprecia”, disse após a prova em que terminou na oitava colocação. George Russell foi na mesma linha: “O que aconteceu hoje não foi Fórmula 1. Se eu estivesse nas arquibancadas, ficaria decepcionado vendo como tudo estava indo.”

Mas talvez tenha sido Carlos Sainz o mais assertivo. “Era questão de tempo que algo assim acontecesse. É isso que ocorre quando há tanto softwares e tantos controles envolvidos. Se fosse um V8 atmosférico, isso nunca teria ocorrido”, concordou o espanhol. “Minha única incógnita é quem decidiu, há cinco anos, que este era o caminho a seguir. A F1 precisa fazer um exame de consciência profundo e ver como chegamos a esta situação.”

Impossível pensar também que um campeonato tão forte do ponto de vista financeiro e com tamanho alcance não tenha sempre um plano B para eventuais mudanças no calendário e ajustes de regulamento. E aqui também é essencial falar sobre a confusão que se seguiu após os problemas técnicos nos carros. A cena do sfety-car entrando nos pits no meio do pelotão da F1 disse muito sobre isso.

Safety-car entrou no pit-lane no meio do pelotão (Foto: Reprodução/F1)

A ordem de entrada no pit-lane acabou decidida entre os que enfrentaram as falhas e o que passaram ilesos. Em tese, de acordo com as regras, a ordem do grid deveria obedecer ao posicionamento dos carros na pista e daqueles que conseguiram alcançar os demais, mesmo após as falhas. Mas a direção entendeu de forma diferente e resolveu a alinhar o grid original, para uma largada parada. Nada disso veio seguido de uma explicação, o que, de novo, confunde quem tenta apreciar o esporte.

Portanto, não é exagero pedir por uma revisão de procedimentos. A lisura do esporte e o entendimento do público deveriam ser prioridades. No fim, Sainz tem razão: é preciso uma análise profunda e abrangente, mas também crítica. E que inclua a necessidade de devolver à F1 circuitos reais e carros reais. Ou seguirá passando vergonha a cada nova decisão apressada e sem o mínimo de senso crítico.

Sepang provou, mais uma vez, que entrega competitividade e entretenimento de qualidade, mesmo em um conjunto de regras tão limitado. Houve imprevisibilidade em termos de estratégia, equilíbrio de forças e atuações brilhantes. No fundo, a F1 teve mais sorte que juízo na Malásia, mas não se pode contar sempre com isso.

A Fórmula 1 retorna já no próximo fim de semana, entre os dias 9 e 11 de outubro, com o GP de Singapura, no circuito de Marina Bay. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do GP do Bahrein, em Sepang, AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.