A McLaren talvez seja a campeã mais controversa dos últimos anos na Fórmula 1. E não por tentar burlar as leis ou encontrar brechas nas infames áreas cinzentas do regulamento, mas por ter a incrível capacidade de se colocar em situações polêmicas sem a menor necessidade. O domingo (5) em Singapura mostrou mais uma vez essa faceta medonha. No dia em que celebrou o décimo título entre os Construtores, a equipe papaia se viu às voltas com um climão totalmente dispensável entre seus dois pilotos, Oscar Piastri e Lando Norris. O que era apenas um incidente de corrida tomou uma proporção muito maior simplesmente devido à maneira desastrosa com que o time lida com certos episódios. Por isso, ao invés da festa, há agora uma nova rachadura nas garagens laranjas.

E isso não deixa de contrastar com a excelência técnica que apresentou em 2025. Porque a taça do mundo entre os construtores conquistada em Marina Bay, com seis etapas de antecedência, comprova o quanto a esquadra está à frente da concorrência. O bem-sucedido MCL39 venceu 12 das 18 corridas até aqui, entregando nas mãos da dupla papaia a chance de levar também o Mundial de Pilotos. Isso porque o carro inglês se mostrou fortíssimo na maioria dos circuitos do campeonato, revelando uma face versátil e altamente pioneira, na medida em que introduziu um revolucionário sistema de arrefecimento, por exemplo, o que fez enorme diferença na maior parte do calendário. “Se tivesse de resumir o projeto MCL39 em uma palavra, diria ‘inovação'”, declarou o chefe Andrea Stella. “Introduzimos muitas inovações no carro, e posso dizer que isso exigiu uma boa dose de coragem.”

É o segundo Mundial consecutivo do time britânico em mais de 30 anos. Ainda, é impressionante pensar que o time seguiu apostando em um desenvolvimento ousado, enquanto as rivais optaram por um trabalho mais convencional, talvez esperando a virada do regulamento de 2026. Mas não deixa de ser curioso só o fato de que a McLaren foi capaz de garantir a taça após três derrotas seguidas nesta segunda fase de temporada. Ainda assim, a sensação que fica é que os triunfos escaparam mais por falhas dos pilotos do que realmente um problema técnico ou de uma configuração específica, o que apenas corrobora a ideia de que, apesar de implacável na fábrica, a gestão do lado esportivo ainda carece de decisões mais acertadas.

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O GP de Singapura foi mais um capítulo desta série. Quando Norris largou bem e se colocou na briga pelo terceiro lugar, ao dividir a curva 3 com Piastri logo nos primeiros metros, começava ali mais um episódio em que a McLaren lidou mal. Para evitar uma batida maior em Max Verstappen, que estava à frente de ambos, Lando, já por dentro da curva, acabou apoiando o carro do lado de fora, onde estava o colega de time. Resultado: toque entre os dois. O que garantiu a posição do inglês à frente, mesmo com uma asa danificada — é que o piloto #4 chegou a bater de leve no RB21 do tetracampeão. Oscar, por sua vez, permaneceu em quarto.

Enquanto Norris encarou o fato como um incidente de corrida, o australiano se queixou com veemência no rádio. “Tudo bem se Lando simplesmente me tirar do caminho?”, questionou o piloto do carro #81. A resposta do engenheiro Tom Stallard foi em um tom conciliador. “Estamos analisando o assunto.”

Logo depois, voltou ao rádio para tentar colocar um ponto final nas reclamações de Piastri. “Lando tinha de evitar uma colisão com Verstappen, vamos revisar isso depois.”

Mas o líder do campeonato não aceitou e seguiu irritado. “Não foi justo”. Norris, por sua vez, tentou minimizar o caso após a prova. “Estava escorregadio, mas é corrida. Coloquei por dentro, tive uma pequena correção, mas nada mais do que isso. Foi uma boa corrida. Senti que fiz tudo o que podia hoje, mas estou feliz com isso.”

No fim, Piastri teve de se contentar com o posto fora do pódio — e ao ser perguntado sobre o incidente, preferiu a cautela e se limitou a dizer que “precisava ver o toque novamente”, antes de deixar claro que haveria uma nova conversa sobre o incidente. Norris ainda terminou em terceiro, atrás de Verstappen e do vencedor, George Russell.

O caso aqui é que a McLaren abriu precedentes demais ao longo da temporada. Piastri, no fundo, queria que a equipe exigisse a troca das posições por causa do toque. E de certo modo, estava certo. Afinal, é apenas um reflexo da estranha política papaia. E isso remete imediatamente ao que houve na Itália. Por causa de um pit-stop lento de Norris, a esquadra pediu para que Oscar invertesse colocação com Lando, alegando que seria justo, uma vez que o britânico vinha à frente até a desastrosa parada.

O australiano protestou, lembrando que havia um acordo para situações como a de problemas em trocas de pneus. No fim das contas, Piastri acabou cedendo e permitiu que o colega ultrapassasse. Imagina pediu ao líder do campeonato para abrir passagem ao principal rival??

Mas McLaren fez isso e reafirmou que a conduta condizia com os princípios do time e que era um ato de justiça com Lando. Esse mesmo argumento foi usado em outros momentos, como na Hungria no ano passado. E mesmo na edição deste ano da prova em Budapeste, quando a equipe decidiu mudar a estratégia de Norris, o que o colocou à frente de Piastri.

Portanto, é nítido que a McLaren não sabe lidar com uma disputa interna e que, de certa forma, nem deseja ter de fazer isso. E por mais que tente empurrar goela abaixo as tais regras papaias, o tiro vai sair pela culatra uma hora ou outra. E atingir o próprio pé. O que também será merecido.

Fórmula 1 retorna de 17 a 19 de outubro em Austin, palco do GP dos Estados Unidos.