AS CORRIDAS DA F1 EM FINAIS DE COPA DO MUNDO

Em nenhum momento da história da Fórmula 1, uma equipe exerceu um domínio tão contundente por tanto tempo. Ao longo dos oito anos entre 2014 e 2021, a Mercedes faturou todos os oito títulos do Mundial de Construtores e sete de Pilotos. Apenas uma vez, em 2021, teve uma rival à altura. Mas todas as eras chegam ao fim, bem como todos os impérios. Chegou o dia da Mercedes errar e, com ela, levou Lewis Hamilton à pior temporada na carreira de F1.

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Não dá para colocar todas as sortes e glórias do mundo num golpe de sorte. A Mercedes controlou a era híbrida do início e manteve a dianteira mesmo quando a geração de carros foi trocada e ganhou velocidade, em 2017. Não havia quem conseguisse superar o esquadrão liderado por Toto Wolff fosse com Paddy Lowe ou James Allison à frente da equipe técnica e o restante da companhia limitada. Mas um dia o acerto de contas teria de vir.

Eis que, então, a terceira geração de carros da era híbrida trouxa uma verdadeira revolução técnica. A mais abrangente mudança de um carro para o outro talvez em todos os tempos, mas certamente nos últimos tempos. Regulamento técnico repaginado, reescrito e uma infinidade de possíveis leituras para as possibilidades que se apresentavam. A Mercedes fez as dela e saiu-se mal.

Se acreditava ter a abordagem mais ousada, com o conceito zero-pod, a Mercedes não conseguiu acertar as exigências do carro dentro da ideia do efeito-solo, novo grande propulsor aerodinâmico. A Mercedes acabou no pôster do novo problema da F1, os quiques desenfreados do porpoising, fenômeno de movimentação do ar típico do efeito-solo. Com o bólido quicando loucamente, era quase impossível alcançar a velocidade possível para o W13.

Sobretudo na primeira fase do campeonato, com muitas pistas de rua, ainda mais onduladas que as de circuitos. Foi o primeiro dos problemas de uma equipe que não conseguia entender o carro que tinha. Quando sofria, não sabia onde exatamente estava a falha; quando acertava, não sabia o motivo.

Ficou claro muito cedo que a atribuição de Lewis Hamilton era diferente do que fora nos oito anos anteriores. A briga pelo título estava fora de alcance: o trabalho do ano era posicionar a Mercedes de maneira satisfatória dentro das novas regras para voltar a briga o mais rápido possível por vitórias e, quem sabe, desafiar Red Bull e Ferrari na batalha pelo título em 2023.

Hamilton terminou em sexto em Miami, onde o carro quicou muito (Foto: Mercedes)

Hamilton ainda tinha um novo companheiro para lidar. Em George Russell, encontrava um jovem piloto de talento bem superior ao de Valtteri Bottas e que, de fato, poderia equilibrar as coisas.

E funcionou melhor para Russell. É difícil entender os motivos, mas um caminho interessante de imaginar é que o W13, mesmo com todos os problemas, era um carro mais competitivo que os da Williams que teve na mão na F1. Para Lewis, o contrário: o W13 era, como ele mesmo chegou a chamar, o “pior carro que teve na F1”.

Já que a equipe não conhecia bem o carro e Russell, embora fosse pupilo da Mercedes, trabalhasse em outro lugar até o ano passado, a melhor chance de entender o desenvolvimento era ver como Hamilton sentia e rendia no W13 em comparação aos anos passados. Assim, o heptacampeão voltou a frequentar o simulador, algo que sabidamente não gosta de fazer, e receber as atualizações que a equipe tinha a oferecer.

“Eu descrevi aos meus engenheiros: imagina que você está rastejando atrás de um cavalo e tentando se aproximar o máximo possível, qual o ponto de ruptura antes de ele te dar um coice na cara? E você sabe que vai doer quando ele te atingir na cara”, disse Hamilton em dado momento.

“Essa é uma das melhores maneiras que posso explicar como é quando você está tentando se apoiar no carro e ele está estalando e é irrecuperável. E esse carro, ele é aleatório”, seguiu.

E era algo que esperava encontrar desde a primeira vez em que sentou ao volante.

“Tive uma sensação quando guiei o carro pela primeira vez. Mas você nunca pode dizer não, nunca pode dizer nunca. Talvez pudéssemos ter resolvido até a primeira corrida. Quem sabe?”, comentou. “Às vezes é difícil saber quanto tempo vai levar até que alguma coisa seja resolvida. Além disso, nunca tinha tido quiques desse jeito. Não esperava que os rapazes fossem levar esse tempo. Eles não esperavam que fossem levar esse tempo para entender o que estava causando esses quiques. Eles tiveram de criar novas ferramentas, todas essas coisas que não tínhamos antes”, indicou.

Hamilton já falou várias vezes sobre ter um bom relacionamento com Russell (Foto: Mercedes)

“Foram muitas coisas diferentes desde o início. Os quiques foram uma das mais visíveis”, indicou. “A rigidez, a rigidez geral do carro, até o ponto em que a suspensão é bem inútil. Mais rígido que os pneus. Os pneus estão, então, achatando e quicando, então estão quicando também nos pneus”, acrescentou.

“E aí a característica aerodinâmica. O arrasto é um enorme problema para nós. Quando passamos de uma certa velocidade, é aí que as outras pessoas escapam. É quando você freia, a dianteira afunda e a traseira sobe, a transferência aerodinâmica neste período e quando você acelera. É a diferença entre baixa e alta velocidade. Existem muitos problemas”, reconheceu. “É por isso que, literalmente, eu tentei tudo. Tentei todos os acertos possíveis. Era isso que eu estava fazendo no início do ano. Toda a ideia de ter a melhor performance possível e ter o melhor resultado a cada fim de semana, claro, seria bom, mas era mesmo para resolver problemas. Então pensei em sacrificar a temporada ou todas as sessões para poder obter mais dados e informações. Para que quando eles voltassem para a fábrica, tivessem um melhor entendimento do que estava acontecendo. Mas, no fim, isso atrapalhava alguns finais de semana”, reconheceu.

Mesmo com tudo isso, quis evitar chamar a temporada e o carro de decepções.

“Não quero usar a palavra ‘decepção’ porque você tem que lembrar que há 2.000 pessoas na fábrica que estão trabalhando muito duro para acertar o carro. Claro, eu gostaria que tivéssemos acertado e tivéssemos atualizações para nos empurrar para a frente. Eu queria estar brigando na frente, mas não é assim que é”, analisou Hamilton após o GP da Bélgica.

“Você sabe o que precisa tirar do carro, sabe onde fazer, mas não vai. Ele simplesmente não quer ir aonde você quer e não reage da maneira que você quer, ou qualquer coisa como qualquer carro do passado. Este carro, na fase inicial, meio que desafiou todas as características normais que você experimentaria ao longo de toda a sua carreira de piloto. Como equipe, estamos apenas tentando muitas coisas”, completou.

Hamilton segue com a Mercedes para 2023 (Foto: Mercedes)

“Agimos de maneira a cada fim de semana, fizemos o trabalho no simulador, trabalhando na fábrica. Mas então, quando você chega à pista e vai para o asfalto, era a mesma bagunça que tivemos na corrida anterior. Eu definitivamente diria que foi difícil para todos”, afirmou.

Depois de apenas um pódio nas oito primeiras corridas do ano, Lewis foi a mais oito nas 14 restantes. O nível melhorou, mas a única vitória da equipe no ano veio com Russell, assim como a única pole. Hamilton jamais terminara uma temporada sem poles ou vitórias, bem como nunca abaixo do quinto lugar do Mundial de Pilotos. Foi sexto colocado.

Wolff terminou 2022 elogiando a postura de líder, bem como a qualidade da pilotagem, o que é justo. Mas é justo também apontou 2022 como a pior temporada da maior carreira da história da Fórmula 1. Com um ano de contrato e discutindo uma renovação para chegar aos 40 anos de idade no grid, Hamilton ainda é uma força no grid, mas precisa usar 2023 para mostrar que ainda é quem manda em casa e superar Russell. Fazer mais que isso vai depender da Mercedes.

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