Se por um lado, o GP dos Países Baixos ajudou a colocar pimenta no Mundial com a segunda vitória seguida de Lando Norris na F1 2026, foi a Ferrari quem roubou os holofotes graças à birra de Charles Leclerc ao não obedecer a chamada de boxes que favoreceria o companheiro de equipe, Lewis Hamilton, na luta direta contra George Russell pelo pódio. E os tempos de volta mostram que, desculpas à parte pelo “calor do momento”, o heptacampeão teve lá a sua razão na bronca.

A bandeira vermelha ainda na volta 1 abriu algumas possibilidades estratégicas para a corrida, porém tanto Mercedes quanto Ferrari mantiveram os pilotos com os mesmos compostos da largada. Ou seja: George Russell e Andrea Kimi Antonelli fizeram o primeiro stint de médios, enquanto Charles Leclerc e Hamilton ficaram com os macios.

Mas apesar da teórica vantagem, a Mercedes resolveu parar Russell cedo, na volta 17, e colocou pneus duros. Leclerc entrou na 21 e foi de médios, e Hamilton, que parou na 25, optou pelo mesmo tipo de pneu de George, deixando claro que a briga era contra o #63. Hamilton voltou à pista 6s7 atrás de Leclerc e tirou 5s7 em seis giros. Ele abiu a volta 34 a 1s2 de Charles. A distância para Russell, em terceiro, era de 4s2.

Até aí, Oscar Piastri também bloqueava o ritmo de Leclerc, que conseguiu se livrar do carro papaia no giro 34. Hamilton fez o mesmo na volta 35, mas essa briga fez Hamilton se afastar um pouco de Leclerc, além de perder de 1s5 a 1s9 em relação a Russell. Quando ultrapassa Oscar, está 5s4 atrás do #63.

Hamilton, então, começa a ser substancialmente mais veloz que Charles: primeiro, na 37, baixa 0s6. Depois, na 38, 0s2; na 39, 0s5.

Lewis Hamilton se irritou com demora da Ferrari para parar Charles Leclerc (Vídeo: Reprodução/DAZN)

Na volta 40, Lewis é 0s4 mais rápido, e aqui chegamos ao ponto de toda a controvérsia. Russell é chamado aos boxes no instante em que Leclerc estava a menos de 1s de distância, com Hamilton 1s2 atrás. O tempo total de parada do #63 é 17s451 (troca em 2s4), que volta em sexto, 16s1 atrás de Lewis.

Volta 41, Hamilton é novamente 0s6 mais rápido que Charles. É quando vem o rádio na volta 42: “Estou mais rápido que Charles, meus pneus estão em melhores condições”, diz Lewis ao engenheiro Carlo Santi.

Leclerc, então, recebe o chamado de Bryan Bozzi para entrar nos boxes na 42, mas protesta: “Como assim? Isso vai foder com a minha corrida, parar duas voltas depois de Russell”. O engenheiro retorna após algumas curvas: “Charles, queremos que você entre”.

Mas o monegasco abre a volta 43, e Hamilton vai à loucura: “Estamos perdendo tempo!” Bozzy, então, volta ao rádio: “Box, Charles, box, vamos colocar os duros”. Leclerc enfim acata, mas o tempo perdido atrás custou a Hamilton mais de 2s em relação a Russell. “Grande maneira de perder tempo, pessoal, ótimo trabalho!”, esbraveja o #44, inconformado com a postura do colega.

Sem Leclerc à frente, Hamilton conseguiu recuperar 0s5 em relação a George, só que a diferença de pneus começou a pesar no giro seguinte. Em 11 voltas, Russell descontou 9s9 dos 14s que havia entre ele e Lewis na abertura da volta 44.

Lewis Hamilton tentou de todas as formas ultrapassar George Russell, mas sem sucesso (Foto: F1)

A estratégia, contudo, era permanecer o máximo de tempo em pista e apostar em um stint final com os macios, e o safety-car virtual causado por Esteban Ocon abriu a janela decisiva na volta 55. Hamilton voltou à pista 12s5 atrás de Russell, porém muito mais rápido, tanto que a diferença rapidamente se dissipou e ficou em 1s4 quando veio a ordem das garagens prateadas para que George deixasse Antonelli passar, na volta 65.

Hamilton perseguiu Russell por seis voltas e chegou a ficar a 0s1 de distância nos trechos mais sinuosos, mas ainda foi atrapalhado por um safety-car virtual a dois giros do fim. Cruzou a linha de chegada em quarto, a 0s8 do piloto da Mercedes e foi muito vocal ao ouvir de Santi que tiveram “azar com Russell”.

Não foi azar. Perdemos tempo mais cedo, e isso nos custou o terceiro lugar. Podemos discutir isso fora do rádio”, disparou.

De fato, os quase 2s desperdiçados com a negativa de Leclerc de entrar nos boxes custou tempo precioso, pois Hamilton teria voltado da segunda parada mais perto de George, tendo mais chances de conseguir a ultrapassagem sem a interferência do SCV. Mas é difícil cravar que foi somente este recorte o responsável pela perda do pódio. Vale lembrar que Leclerc passou Lewis na largada e manteve-se à frente até o momento da primeira parada, quando, então, as estratégias se dividiram — e foram 25 voltas assim até o fator pit-stop também pesar no resultado.

Norris venceu a corrida, com Antonelli e Russell completando o pódio. Hamilton terminou na quarta posição e deixou Zandvoort a 59 pontos de Kimi, empatado em 183 com Russell na segunda posição do Mundial de Pilotos da F1 2026.

A Fórmula 1 volta de 4 a 6 de setembro em Monza, palco do GP da Itália, 13ª etapa da temporada 2026.