A virada de um novo regulamento técnico na Fórmula 1 costuma oferecer novas possibilidades a equipes que sofreram no ciclo anterior. Não à toa, é absolutamente comum ver esquadras inteiras deixando de lado o campeonato vigente para focar no seguinte, de olho em um salto miraculoso que permita uma realidade diferente no ano seguinte. E esse era exatamente o plano da Williams, que definitivamente não esperava que essa ‘realidade diferente’ trouxesse um nível ainda pior em 2026.

Contratado em 2023 para comandar um longo processo de reestruturação interna em uma equipe absolutamente defasada, o chefe James Vowles deixou a Mercedes e partiu para Grove já pensando em 2026. Afinal de contas, a mudança de ciclo da Fórmula 1 ofereceria uma página em branco à Williams, uma nova plataforma para que a equipe pudesse recomeçar o projeto.

Enquanto isso, o foco do britânico foi elevar o nível de infraestrutura da equipe. Seja por meio da contratação de novos funcionários, ajustes em funções internas ou introdução de novos equipamentos, Vowles se embrenhou nos fundamentos do time para elevá-los ao máximo.

Neste contexto, até a contratação de Carlos Sainz para a temporada 2025 teve um toque disso. Com experiências prévias em equipes como Red Bull (na Toro Rosso), McLaren e principalmente Ferrari, o espanhol chegou como um piloto capaz também de apontar problemas e caminhos fora das pistas.

Assim, havia um plano claro em curso: investir na infraestrutura da equipe, elevar o potencial ao máximo, criar uma cultura diferente e focar tudo no projeto do regulamento de 2026. Para isso, até o campeonato de 2025 seria sacrificado. O que a Williams não esperava, porém, é que tudo acontecesse exatamente ao contrário.

A primeira surpresa veio ainda em 2025, e de forma positiva. Mesmo focada em 2026 por boa parte do ano, a Williams somou 137 pontos e terminou como líder da ‘F1 B’, na quinta posição do Mundial de Construtores, atrás apenas das gigantes McLaren, Mercedes, Red Bull e Ferrari.

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Sainz tem perdido a paciência com os numerosos problemas da Williams (Foto: Gabriel López/Grande Prêmio)

E o resultado obviamente gerou um presságio interessante para o que o time poderia fazer em 2026, já que teve tempo para trabalhar na nova plataforma. E o resultado foi absolutamente ridículo: um carro acima do peso, incapaz até de participar dos testes coletivos em Barcelona, e cheio de problemas.

“É muito psicológico neste ano nesse sentido, porque não existe nada fácil. Estamos apagando incêndios. Temos pequenos problemas que estamos tentando resolver, então é difícil diferenciar o que é você e o que é o carro”, disse Albon após o GP da Hungria, último antes da pausa de verão.

“Tudo que posso fazer, e essa tem sido minha abordagem nas últimas três ou quatro corridas, é simplesmente focar na pilotagem e deixar a engenharia cuidar da engenharia”, explicou.

Ou seja, a equipe tem dificuldades até de avaliar os desempenhos reais dos pilotos, já que são tantos problemas — em diversas áreas — que uma avaliação justa simplesmente não é possível. Além da falta de equilíbrio causada pelo excesso de peso, gradualmente resolvido, o monoposto vai mal em curvas principalmente de baixa e sofre com a confiabilidade e a pressão aerodinâmica.

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Para Albon, os problemas são tantos que fica difícil avaliar os pilotos (Foto: Rodrigo Ruiz/Grande Prêmio)

O problema é tão profundo que o conjunto de atualizações prometidas por Vowles como “um carro novo” no GP do Azerbaijão foi totalmente ignorado por Albon. Sem esperanças em reverter a situação esse ano, o tailandês disse “duvidar” que os problemas sejam resolvidos em Baku e já começou a projetar a temporada de 2027.

Inacreditavelmente, a Williams conseguiu sacrificar uma temporada em que foi bem para focar em um campeonato no qual não consegue se encontrar. Assim, tem sido aos poucos levada a abandonar 2026 também, em uma sequência muito difícil de explicar para um trabalho iniciado em 2023.

É importante salientar, inclusive, que a única coisa que impede a Williams de ser vice-lanterna da Fórmula 1 é a vergonha protagonizada pela Aston Martin, que foi à pista com um carro ainda mais incompleto. As atualizações trazidas pela equipe britânica, porém, dão a sensação de que o posto em breve será do time inglês — que só não é lanterna porque a novata Cadillac se desmancha na pista.

Olhando para o momento do pelotão intermediário da F1, Racing Bulls e Alpine se mostram em um nível diferente das demais neste momento. Assim, a briga da Williams é pelo sétimo lugar, que já parece longe com uma Haas que tem dez pontos a mais (21 a 11). No entanto, considerando a falta de evolução do carro, será que é possível mesmo buscar a diferença?

Após um ano melhor que o esperado, Vowles encara um pesadelo em 2026 (Foto: Gabriel López / Grande Premio)

Neste momento, a verdade é que a Williams parece mais próxima de ser ultrapassada pela Aston Martin nos Construtores do que de qualquer vantagem sobre Haas ou Audi. A equipe alemã, inclusive, tem mostrado ritmo consideravelmente superior ao time inglês, mas a falta de confiabilidade preocupa; é outro que vive problemas, mas parece ao menos se encontrar, diferentemente do que acontece em Grove.

Daqui em diante, mais do que pontos no campeonato, a missão da Williams é voltar aos trilhos e impedir a necessidade de sacrificar mais uma temporada em 2027. Caso isso não aconteça, o trabalho de Vowles começa a ficar em xeque.

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