Carregar um sobrenome respeitado no automobilismo traz visibilidade automática, mas Vicky Farfus não quer ser lembrada apenas como a filha de Augusto Farfus. A jovem pilota tem um objetivo próprio e audacioso bem definido: quebrar uma escrita histórica e se tornar a primeira mulher brasileira a ocupar um assento titular no grid da Fórmula 1.
Aos 14 anos, Vicky lida com a herança das pistas com naturalidade e planejamento tático. Em vez de percorrer o caminho tradicional das categorias de base no Brasil, a pilota tomou uma decisão ousada ao migrar do kart direto para o Ginetta Junior Championship, no Reino Unido. A escolha atendeu a uma exigência regulamentar: o campeonato britânico de turismo era o único na Europa que permitia a participação de pilotos de 14 anos com carros fechados, oferecendo um cenário interessante para o desenvolvimento.
Agora, ao desembarcar em Interlagos para disputar a etapa da F4 Brasil como convidada no fim de semana do GP de São Paulo de Fórmula 1, Vicky experimenta a sensação de dividir o paddock com a categoria em que projeta construir sua carreira.
“Meu foco é totalmente a Fórmula 1. Esse é o meu objetivo e é onde quero chegar”, afirmou Vicky Farfus ao GRANDE PRÊMIO.
Mentoria em casa e referências nas pistas
Ser filha de Augusto Farfus — vencedor das 24 Horas de Nürburgring, de Daytona e de grandes provas de turismo pelo mundo — não é visto como um peso ou cobrança para Vicky, mas como um privilégio. Afinal, ela tem dentro de casa um grande aliado no desenvolvimento para o automobilismo.
“Para mim não existe peso, só orgulho. Tenho a sorte de ter um pai que conquistou tanto no automobilismo e que hoje é um grande mentor, que me ajuda na parte técnica e também em tudo que envolve a carreira. Mas quero construir minha própria trajetória com muito trabalho”, disse Vicky.
Por enquanto, o momento mais marcante dessa parceria nas pistas ocorreu quando dividiram o mesmo grid nas 500 Milhas da Granja Viana, disputada em 2025. Não no mesmo kart, mas “um momento que vai ficar para sempre na minha memória porque nos divertimos muito juntos”.
Além da referência paterna, Vicky busca inspiração em Ayrton Senna e na liderança de Susie Wolff, diretora da F1 Academy, que chegou a pilotar um carro de Fórmula 1 e se tornou referência de gestão no fomento à presença feminina no esporte a motor.
Do aprendizado no turismo britânico aos monopostos

A passagem pelos carros de turismo serviu como um laboratório intensivo de disputa roda a roda, leitura de corrida e controle do carro em condições adversas na Inglaterra. Essa bagagem agora é transferida para a pilotagem técnica e refinada dos monopostos.
“Não foi uma mudança de rota, sempre fez parte do plano. Fui do kart para a Ginetta porque queria continuar ganhando experiência de corrida e desenvolvendo o race craft. Era o único campeonato que permitia competir com 14 anos, então foi um passo pensado para chegar preparada aos monopostos”, explicou Vicky.
Para encarar a transição para os carros de fórmula e a exigência física de circuitos rápidos e no sentido anti-horário — como o Autódromo de Interlagos —, a rotina de preparação de Vicky inclui treinos diários de academia focados no fortalecimento cervical e uma rotina intensa de simulador para decorar pontos de frenagem e acerto aerodinâmico.
“Estou me preparando o máximo possível para chegar em Interlagos na minha melhor forma. Faço academia e simulador todos os dias, porque sei que um circuito como Interlagos exige muito fisicamente e tecnicamente”, comentou. “É uma sensação incrível [dividir o fim de semana com a F1], que vai ficar na minha memória para sempre. Minha expectativa é aprender o máximo possível, dar o meu melhor e conquistar o melhor resultado que estiver ao meu alcance”, completou.
O plano para quebrar a barreira do grid feminino

A ausência de mulheres no grid titular da F1 desde a década de 1990 — Giovanna Amati, no GP do Brasil de 1992 pela Brabham, foi a última a tentar a classificação — é encarada por Vicky Farfus como um desafio geracional prestes a ser superado. O planejamento para a próxima temporada prevê o ingresso na F4 na Europa para acumular rodagem nas categorias de base com chancela da FIA.
A F1 Academy surge como uma opção estratégica, mas não para o momento imediato, pois a pilota ainda não possui a idade mínima para fazer parte do grid. No entanto, é encarada como uma opção futura que pode ser conciliada com outros campeonatos regionais.
“Meu plano é fazer a F4 na Europa no ano que vem e ir subindo de categoria ano após ano. Quero construir esse caminho passo a passo, sempre evoluindo e me preparando para chegar à Fórmula 1”, pontuou.
“Não vejo isso como uma barreira, vejo como um desafio. Durante muitos anos o número de mulheres no automobilismo foi muito menor, mas isso mudou bastante. Essa nova geração está chegando muito mais preparada, fisicamente, mentalmente e com mais experiência em carros. Quero fazer parte dessa geração”, frisou Vicky.
Entretanto, apesar de o esporte viver um período com maior presença feminina, a pilota admitiu que o meio ainda apresenta episódios de preconceito. “Ainda acontece, mas acredito que já melhorou muito. Sempre existe alguém que acha que automobilismo é só para homem, mas quero mostrar, com resultados, que mulheres também podem competir em alto nível”, destacou.
“Quero que elas lembrem que trabalho duro, dedicação e disciplina não têm gênero. Sonhar alto tem um preço, que é muito trabalho e muitos sacrifícios, mas vale a pena. Mesmo quando aparecerem barreiras, nunca deixem de acreditar e de correr atrás dos seus sonhos”, concluiu Vicky, em recado deixado às meninas que sonham em trilhar uma carreira como pilota.
De olho no topo do esporte a motor e amparada por uma estrutura que combina bagagem internacional e mentoria familiar, Vicky Farfus pavimenta seu caminho com o compromisso de mostrar que talento, disciplina e tempo de reação não têm gênero.