Fórmula E
Andretti dominante, Ticktum se afunda: quem sai em alta e em baixa do eP de Sanya
Do fim de semana perfeito da Andretti a mais um episódio negativo de Dan Ticktum, o GRANDE PRÊMIO separou quem se destacou positiva e negativamente no retorno da Fórmula E a Sanya
O eP de Sanya foi a corrida mais caótica da temporada 2025/26 da Fórmula E. Entre acidentes, bandeira vermelha, punições e reviravoltas na classificação final, a etapa chinesa foi vencida por Jake Dennis e produziu impactos importantes tanto na disputa pelos campeonatos quanto no momento vivido por equipes e pilotos.
A Andretti foi o principal destaque positivo do fim de semana ao demonstrar um nível de competitividade raramente visto no atual grid. Mesmo que a punição aplicada a Felipe Drugovich tenha alterado o resultado oficial, o desempenho coletivo deixou claro o potencial da estrutura estadunidense quando consegue alinhar ritmo de classificação, estratégia e execução de prova.
Também chamaram atenção atuações de nomes como Pepe Martí, Nyck de Vries e Lucas di Grassi. Em comum, todos aproveitaram o caos de Sanya para maximizar oportunidades e reforçar tendências positivas neste momento do campeonato.
Do outro lado, a etapa também expôs fragilidades importantes. Oliver Rowland desperdiçou uma chance de ouro para assumir a liderança do Mundial de Pilotos. Pascal Wehrlein voltou a sair zerado em meio a uma sequência preocupante da Porsche.
Dan Ticktum somou mais um episódio negativo em uma temporada marcada por incidentes e inconsistência. A Envision também é uma derrotadas após mais uma prova sem conseguir converter o potencial do conjunto Jaguar em resultados expressivos.
Com isso, o GRANDE PRÊMIO analisou quem sai em alta e em baixa do eP de Sanya.

Quem deixa o eP de Sanya em alta
Andretti
A Andretti foi simplesmente perfeita em Sanya. Por mais forte que a palavra “perfeição” seja, não há exagero em utilizá-la para descrever o trabalho da equipe estadunidense: permitiu a Jake Dennis e Felipe Drugovich chegarem ao duelo final na classificação, consequentemente fechou a primeira fila do grid de largada e executou uma estratégia perfeita na corrida para conquistar uma dobradinha pela primeira vez na Fórmula E.
A punição que derrubou Drugovich para o 4º lugar obviamente foi um balde de água fria na comemoração, mas em nada apaga o que foi feito pela Andretti — nem mesmo pelo brasileiro, já que a decisão foi tão questionável que até mesmo Pascal Wehrlein, suposto prejudicado, acredita que o lance não era passível de sanção. Conseguir ser competitiva em ritmo tanto de classificação quanto de corrida é muito difícil. Executar uma prova onde os dois carros fiquem próximos praticamente o tempo todo e puxem um ao outro para frente, ainda mais — principalmente em uma corrida tão acidentada. Esse fim de semana mostra o nível que a Andretti pode alcançar quando acerta os ponteiros. E se conseguir repetir isso mais algumas vezes, Dennis volta com força à briga pelo título.
Pepe Martí
A temporada de Pepe Martí é impressionante. É muito raro ver um piloto novato conseguir ser consistente da forma que o espanhol vem sendo até aqui: das 11 provas, pontuou em sete e subiu ao pódio em duas delas. O “boom” de Drugovich nas últimas etapas o coloca apenas 16 pontos atrás no Mundial de Pilotos, mas Martí é com alguma sobra o novato mais impressionante do campeonato — até pela inexperiência comparado ao brasileiro e a Joel Eriksson, outro que disputa a primeira temporada completa na categoria.
E o eP de Sanya foi mais um capítulo do atropelo de Martí sobre Dan Ticktum. Enquanto o britânico continua se envolvendo em incidentes e polêmicas — até mesmo com a própria Cupra Kiro —, o novato mostra corrida a corrida ser tão talentoso quanto e muito menos propenso a chuvas e trovoadas. Até o momento, dá um belo cartão de visitas e se coloca como um nome extremamente promissor, que precisa ser observado seriamente por qualquer equipe de ponta pensando nos próximos anos.

Nyck de Vries
Nyck de Vries vem construindo uma bela reviravolta na temporada 2025/26. Até o eP de Berlim, fazia um campeonato muito abaixo das expectativas e talvez fosse o piloto com saldo mais negativo entre o equipamento que tinha em mãos e os resultados apresentados. De lá para cá, o crescimento é inegável.
Em Mônaco, encerrou o jejum de vitórias da Mahindra — e próprio — com uma atuação brilhante na corrida 1. Na corrida 2, não teve ritmo para brigar pelo triunfo, mas entregou mais alguns pontos com o 8º lugar. Em Sanya, fez uma prova inteligente, evitou grandes incidentes e cruzou a linha de chegada em 4º. Com a punição de Drugovich, aliada à remoção de uma sanção que recebeu durante a prova, foi promovido ao pódio — o segundo em três corridas. O recado do neerlandês é claro: jamais descarte um campeão mundial antes da hora.
Lucas di Grassi
Mais uma vez, Lucas di Grassi demonstrou que vai deixar as pistas antes que as pistas o deixem. O brasileiro chegou a Sanya com punição de 40 posições no grid, precisou pagar um stop-and-go de 10s para completar e ainda assim conseguiu pontuar.
Verdade que a sorte sorriu com uma bandeira vermelha que o permitiu se juntar ao pelotão, mas a sorte ajuda apenas quem faz por merecer. Di Grassi apostou justamente em uma situação dessas, poupou energia com maestria e chegou na reta final da prova com mais bateria que todos e os dois Modos Ataques para acionar. A partir daí, falou mais alto o talento do brasileiro, que escalou todo o pelotão intermediário e ficou no 10º lugar. Uma atuação que mostra porque é um dos maiores pilotos da história da Fórmula E.

Quem deixa o eP de Sanya em baixa
Oliver Rowland
A montanha russa de Oliver Rowland segue a todo vapor. O britânico voltou a sofrer com falta de ritmo na classificação, mas a Nissan compensou com uma boa estratégia na corrida e colocou o piloto na briga por um pódio. Mas o atual campeão cometeu um erro grosseiro ao tentar dividir curva com Nico Müller e foi parar no muro.
Com o abandono de todos os candidatos ao título, principalmente Mitch Evans, o prejuízo de Rowland não foi tão grande assim. Mas o eP de Sanya foi uma oportunidade perdida de assumir a liderança do campeonato. Na Fórmula E, chances como essa não podem ser desperdiçadas. Em uma temporada em que vive tantos altos e baixos, então, menos ainda.
Pascal Wehrlein
Pela segunda etapa consecutiva, nada deu certo para Wehrlein. Com ritmo claramente inferior ao da Andretti, o alemão até esteve no bolo que se revezou na liderança no primeiro terço da corrida, mas é difícil imaginar que teria qualquer condição de desbancar Dennis.
Não bastasse isso, ainda se envolveu em um toque com Norman Nato e foi punido em 5s, o que fez o piloto da Porsche cair de 7º para 14º. Com isso, são três corridas seguidas sem pontuar, o que precisa ligar um sinal de alerta em Weissach. Com mais três rodadas duplas pela frente, cada uma com muitos pontos em jogo, mais um fim de semana repleto de erros pode custar muito caro nos três Mundiais.

Dan Ticktum
Se Dan Ticktum sofreu com falta de sorte no início do campeonato, isso não pode mais ser usado como desculpa para passar pano na temporada muito fraca do britânico. Mesmo largando na segunda fila, conseguiu se complicar ao acertar em cheio a traseira de Evans e comprometer uma corrida que se desenhava muito promissora para a Cupra Kiro. Para piorar, ainda viu Martí subir ao pódio mais uma vez.
Ainda sem contrato para a próxima temporada e em rota de colisão com a equipe, Ticktum talvez seja quem menos tenha o direito a cometer erros — já que o histórico polêmico é sempre um fator pesado pelos times quando o nome surge em qualquer discussão sobre dupla de pilotos. A junção da personalidade difícil, com a chuva de equívocos em pista e o baile que está levando de um companheiro novato pode se tornar demais para o britânico e custar a chance de conseguir uma boa vaga para 2026/27 — ou até deixá-lo sem assento.
Envision
A Envision chegou a sonhar com um salto em Sanya, mas acordou com um tombo. A equipe britânica tem em mãos um excelente trem de força Jaguar, mas não consegue extrair todo o potencial disponível. E ainda viu o pão cair com a manteiga para baixo quando a bandeira vermelha foi acionada bem no momento em que Sébastien Buemi ativou o Modo Ataque — jogando no lixo a potência extra e custando muitas posições ao suíço. Eriksson passou totalmente despercebido na prova e também não conseguiu salvar nenhum ponto.
O saldo, então, foi muito negativo: não conseguiu aproveitar da prova em branco da Nissan e ainda foi superada pela Andretti no Mundial de Equipes, caindo para a 6ª posição. Exceção feita ao 2º lugar do sueco na segunda corrida do eP de Jedá, a Envision não tem nenhum grande momento para chamar de seu nesta temporada. Uma queda muito grande para um time que foi campeão no primeiro ano da era Gen3, mas que não consegue ser sombra do que já foi um dia.
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