O encerramento da Fórmula E em Londres, neste fim de semana, marca uma série de despedidas na categoria. Da aposentadoria de Lucas Di Grassi ao adeus da ExCel Arena, palco tradicional da corrida inglesa, a modalidade terá uma aparição final dos carros que mudaram tudo. Quatro anos após a estreia, que criou uma ilusão preocupante sobre como seria o futuro, o Gen3 protagoniza o último ato com a certeza de que cumpriu sua missão.

A ideia por trás da concepção do carro Gen3 não girava em torno apenas de velocidade ou evolução tecnológica, mas também do que a Fórmula E queria ser como esporte. Foco em entretenimento, com dispositivos como o extinto Fan Boost, ou mira travada na parte esportiva, com a imprevisibilidade como carro-chefe? No fim, a categoria escolheu a segunda opção.

O nascimento dos novos monopostos, bem antes de qualquer ideia do Gen4 tomar proporções reais, já trouxe um rompimento com o passado. Saíram de cena os robustos Gen2, que premiavam disputas praticamente ‘ombro a ombro’ e geravam corridas extremamente físicas, e entraram os ágeis Gen3 — que já mostrava na suspensão sem cobertura que empurrar outros carros não seria bom negócio.

Muito além disso, porém, o novo monoposto trouxe um conceito de corrida completamente diferente para a Fórmula E, que manteve a veia do equilíbrio e acrescentou a isso um novo estilo dentro do próprio campeonato: as corridas de pelotão.

Mais veloz e ágil que o modelo anterior, o Gen3 passou a exigir um controle de energia tão detalhado que o vácuo se tornou parte fundamental das estratégias. Em pistas de maior exigência de energia, liderar corridas significa gastar mais energia do que quem anda atrás, já que o auxílio do vácuo só não ajuda o primeiro colocado. E essa resistência do ar custa bateria, o que gera um componente estratégico interessante.

Assim como em categorias como Indy, Fórmula 1 e WEC, por exemplo, em que há gestão sobre combustível, pneus e equipamento no geral, a Fórmula E tem como característica a gestão de energia. E a capacidade do Gen3 de seguir os concorrentes de perto, muito por conta da baixa aerodinâmica, tornou essa gestão milimétrica; afinal de contas, na maior parte do tempo, todos estão colados na pista.

Londres marca o adeus à ExCel Arena para a chegada de Brands Hatch e também aos carros Gen3 (Foto: Fórmula E)

O resultado final foi espetacular: corridas alucinantes, temporadas com todas as equipes no pódio, vencedores absolutamente inesperados e campeonatos decididos até a última etapa, com exceção do título de Oliver Rowland.

As margens se tonaram tão pequenas que decisões sensíveis definiram resultados, como na surpreendente vitória de Lucas Di Grassi em Xangai, com o pior carro do grid na Lola Yamaha.

Ao longo deste período, outras alterações no estilo de corrida também ajudaram a moldar o que é a Fórmula E hoje. Um dos grandes problemas do Gen2 era a dificuldade de traduzir a potência em tração, o que tornava a ativação do Modo Ataque (que eleva a potência do carro) um verdadeiro sacrifício.

Na Gen3, isso foi consertado em determinado grau nos dois primeiros anos; o que viria a seguir, contudo, elevaria a tecnologia a outro nível.

O surgimento do Gen3 Evo para a temporada 2024/25 trouxe atualizações em relação ao Gen3, com mudanças leves no chassi, maior capacidade de aceleração e principalmente a introdução da tração integral. Este último avanço revolucionou o Modo Ataque, que passou a permitir não apenas a elevação de potência de 300 kW para 350 kW, como também a própria tração. Ou seja, carros muitos mais rápidos e com aderência, tudo o que faltava no modelo anterior.

A partir da próxima temporada, o Gen4 assume o posto de carro oficial da Fórmula E (Foto: Fórmula E)

Todo este texto foi uma forma de tentar explicar o quão revolucionária foi a era Gen3 na Fórmula E, mas a única forma de obter uma compreensão total é observar o nível de profundidade necessário nas leituras das corridas e o pandemônio que tomou conta da categoria nos últimos anos.

A Fórmula E escapou da rota na pandemia, sem lugar para correr e basicamente com um esporte que não tinha propósito de existir com o isolamento e as necessidades urgentes em questão no mundo. Os problemas chegaram a atrasar o lançamento do Gen3, que deveria nascer um ano antes, e ainda assim geraram um lançamento complicado, com acidentes, falhas e muitas dúvidas sobre o futuro.

Com apenas algumas corridas, porém, o carro logo mostrou o que poderia gerar aos fãs e manteve uma regularidade invejável por quatro temporadas. Parcerias rentáveis chegaram, a audiência aumentou e os olhares se voltaram cada vez mais para o paddock, sobretudo de novas marcas.

Do ano inicial dominado pelas clientes Andretti e Envision ao poderio flagrante de Porsche e Jaguar, as duas grandes montadoras deste capítulo, a era Gen3 desembarca em Londres com um largo sorriso, mais uma batalha imprevisível pelo título e a certeza de que agora, sim, o futuro está no caminho certo.

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