Foi difícil manter a concentração na pista e não deixar a cabeça vagar para assuntos diversos, na era da hiperestimulação de informações, por 53 voltas inteiras do GP da Espanha realizado na nova pista urbana de Madri no último fim de semana. Um traçado feito com grande colagem, como aquelas cartas anônimas montadas com letras e palavras recortadas de revista. As mensagens anônimas dum mundo que não existe mais. Infelizmente, a F1 em Madri existe ainda e vai existir por uma década inteira, pelo menos. A não ser que mudanças drásticas sejam feitas, não vai ser fácil se acostumar.

MADRI escancara crise da F1 enquanto ANTONELLI dispara e RUSSELL afunda | PADDOCK GP

Embora todo mundo saiba que o assunto preferido de dez entre dez pessoas ligadas à F1 nos últimos dias tenha sido a pista, ainda é necessário questionar algumas coisas. Sim, há a dúvida sobre quem e em que condições deu luz verde para despejar uma quantidade astronômica de dinheiro nesta ideia? Mas sobretudo a da falta de carinho da F1 com novos traçados. Não deveria bastar que fossem seguros — esse é seguro? — ou que atendessem necessidades logísticas básicas, além das financeiras. É preciso que se tenha tudo isso, claro, mas que a pista seja desafiadora para o domingo. O Madring oferece desafios, mas não na hora da verdade. Para treinos e classificação, é ótimo, mas há mais que isso em jogo.

Desenhar e construir um traçado que divirta não custa mais que um cause pasmaceira. Não é um pacote extra dum jogo de videogame, aquela muda de roupa diferente para um personagem online que alguém, por algum motivo que a mim mistifica, gasta dinheiro real para ter acesso — e estamos de volta ao mundo contemporâneo. É desenhar e construir, custa tão caro quanto.

Nota-se comparações a Mônaco, mas isso é um absurdo. Mônaco não nasceu para ser uma corrida de poucas emoções. É um traçado pensado há mais de um século para carros da época e que, ao longo do tempo, tornou-se pista de autorama para carros reais. Mas é original como poucas, desafiadora como quase nenhuma e tem tradição e couro largo que se refletem hoje em dia em seus cabelos brancos, como diz aquela música de Nelson Gonçalves — voltamos ao passado! É incomparável ao caleidoscópio madrilenho.

As notas do Ranking GP são distribuídas por Gabriel Carvalho, João Pedro Nascimento, Luana Marino e Pedro Henrique Marum. A Fórmula 1 faz uma pausa neste fim de semana e volta entre os dias 24 e 26 de setembro, com o GP do Azerbaijão, 15ª etapa da temporada.

F1 2026, ESPANHA, CORRIDA, MERCEDES, KIMI ANTONELLI, ROSTO, RETRATO
Kimi Antonelli se aproximou mais do título (Foto: F1)

1º) Andrea Kimi Antonelli – 7.0 – O segredo para a vitória foi não deixar a peteca cair na classificação, mas o rendimento na corrida foi o pior entre as oito vitórias. Numa pista em que ultrapassar é quase impossível, foi tão mal nos primeiros metros que só não perdeu a posição para Verstappen por conta de decisão contestável da Red Bull. A vitória veio com sorte, pelo timing ter jogado contra Norris. Muitas escapadas, falta de ritmo constante. Não foi bom, mas foi mais um passo rumo ao título.

2º) Max Verstappen – 8.0 – Com a maneira como o jogo se desenvolveu, poderia até ter vencido caso ficasse com a posição que assumiu nas primeiras voltas da prova. Seria punido pela maneira como se defendeu de Hamilton na largada? É o que pensa a Red Bull, mas não há consenso. De qualquer maneira, os azares de Hamilton e Norris jogaram a favor.

3º) Lando Norris – 8.5 – O grande nome do fim de semana. Melhor na classificação, o que causou absoluta surpresa pelo rendimento da McLaren nos treinos, e caminhava para a terceira vitória nas últimas quatro corridas. Aí, porém, o enorme azar com o safety-car virtual, que permitiu que todos os outros pilotos, menos ele, parassem nos boxes com perda de tempo muito menor. A derrota é absolutamente circunstancial.

4º) Charles Leclerc – 7.5 – Com uma estratégia diferente, ficou a uma bandeira amarela a mais de conquistar um lugar no pódio. Foi pior que Hamilton na classificação, mas fez corrida bastante honesta.

F1 2026, ESPANHA, CORRIDA, ALPINE, FRANCO COLAPINTO
Franco Colapinto foi o melhor do pelotão intermediário (Foto: Alpine)

5º) George Russell – 5.0 – Terrível classificação e, para ser sincero, não havia muito a fazer na corrida. A Mercedes não devia ter parado Russell no VSC e deixado que seguissem, assim como Leclerc fez, para buscar ganhar posições com outro acidente. No fim das contas, porém, não mudaria nada, porque não teve outro. O ponto positivo foi que conseguiu ultrapassar alguém na pista — Lawson, no caso.

6º) Liam Lawson – 7.5 – O ultrapassado, mas com bom fim de semana. Depois de corrida ruim na Itália, conseguiu fazer o trabalho de substituto que a Red Bull queria: colocar-se em posição entre as principais equipes do grid. Na frente de Piastri e com o abandono de Hamilton, pode voltar para a Racing Bulls tranquilo pelo que entregou.

7º) Franco Colapinto – 8.0 – O melhor do resto. Se na Itália tinha sido o companheiro de equipe Gasly, Colapinto mostrou uma vez mais o valor que tem. Largou bem, conseguiu se defender da McLaren atrás dele sem se arriscar nos muros e saiu vencedor naquilo que era possível fazer.

8º) Oscar Piastri – 5.0 – Muito pior que Norris na classificação e na corrida, graças também a uma largada horrorosa em que quase tirou Russell da prova. Para onde vai a temporada de Piastri?

F1 2026, ESPANHA, CORRIDA, AUDI, NICO HÜLKENBERG
Hülkenberg foi o invasor do top-10 (Foto: Audi)

9º) Arvid Lindblad – 7.5 – Mais uma exibição que entregou razoavelmente aquilo que a equipe tinha e terminou em pontos, mas é um pouco decepcionante. Isso porque a aparência no começo do fim de semana era de que a Racing Bulls tinha ampla vantagem para a Alpine, mas acabou pontuando menos.

10º) Nico Hülkenberg – 8.0 – O invasor da zona de pontos em relação à posição de corrida. Fez boa prova com o ritmo que tinha e viu a Audi trabalhar muito bem nos boxes para ganhar por lá a posição de Ocon. Cada vez mais, a equipe alemã se coloca na briga com Racing Bulls e Alpine.

11º) Esteban Ocon – 7.0 – Entendeu a pista melhor que Bearman e tirou muito mais ao longo de todo fim de semana. Voltaria aos pontos não fosse pelo trabalho lento da Haas nos boxes, que custou a posição para Hülkenberg.

12º) Pierre Gasly – 6.0 – Um dos pilotos que mais sofreu com aderência ao longo do fim de semana. A estratégia da corrida não funcionou e, sem ter como efetivamente ultrapassar, terminou distante.

F1 2026, ESPANHA, CORRIDA, AUDI, GABRIEL BORTOLETO
Bortoleto fez o possível para alongar o stint, mas a sorte não apareceu (Foto: Audi)

13º) Gabriel Bortoleto – 5.5 – Mais um piloto que largou de pneus duros e alongou o stint o máximo possível para ver se surgia novo safety-car. Caso tivesse vindo, provavelmente teria pontuado, mas não aconteceu.

14º) Yuki Tsunoda – 5.0 – Logo na largada, foi tocado por um desastrado Sainz, perdeu um pedaço da asa e, daí por diante, o ritmo foi comprometido sem chances de avançar.

15º) Alexander Albon – 5.0 – Em mais uma demonstração da Williams abaixo do pelotão intermediário, saiu dizendo que era o máximo resultado possível. É impressionante a temporada da equipe.

16º) Oliver Bearman – 4.0 – Não havia caminho realista para a recuperação após largar do pit-lane por troca de motor. Continua numa sequência ruim da temporada, bem como a da Haas.

O lance que fez Fernando Alonso reclamar de Carlos Sainz durante o GP da Espanha (Vídeo: Reprodução/F1 TV)

17º) Fernando Alonso – 5.0 – Sem ter para onde ir com a Aston Martin, ainda precisou se defender de outro movimento desastrado de Sainz que quase tirou os dois espanhóis da prova ao mesmo tempo.

18º) Valtteri Bottas – 4.5 – Uma vez mais, estava mais lento que o companheiro de equipe, mas é a única avaliação possível. A Cadillac corria contra ninguém. Mas sobreviveu de novo, algo que Pérez não faz.

19º) Carlos Sainz – 2.5 – Foi o pior piloto do domingo. Já não tinha ido bem no sábado, mas a Williams tem as limitações claras e dá para entender. Na corrida, porém, bateu em Tsunoda na largada, quase tirou Alonso da corrida e foi punido por ambas. Acabou abandonando por conta de danos no assoalho justamente pelo incidente da largada.

20º) Sergio Pérez – 4.0 – Depois de um bom começo de corrida e saber se colocar na briga contra equipes mais fortes, perdeu força e voltou a ter problemas, agora com vazamento. Talvez a nota seja dura demais com o que mostrou e um reflexo mais das dificuldades que a Cadillac não consegue resolver, mas o fato de ter tantos problemas é de saltar aos olhos.

F1 2026, ESPANHA, CORRIDA, FERRARI, LEWIS HAMILTON
Hamilton abandonou com problema nos freios (Foto: Reprodução/F1)

21º) Lance Stroll – 3.5 – Sem muito a destacar e sem brigar com ninguém, abandonou com problemas no freio e terminou indiretamente mudando a história da corrida.

22º) Lewis Hamilton – 6.5 – Largou bem e já estava em posição de pódio quando começou a ter problemas no freio e foi obrigado a abandonar. Desta vez, dá para dizer que as falhas da Ferrari custaram um pódio.

GP da Espanha – 1.5 – Que decisão estapafúrdia de autorizar o traçado do Madring. No fim das contas, ainda teve azar da F1, porque nada do que poderia transformar um pouco o perfil da corrida aconteceu. Tudo ruim.

Melhor GP – GP do Canadá – 8.5
Pior GP – GP da Espanha – 1.5
Média: 6.2

MÉDIA DA TEMPORADA:

1º) Andrea Kimi Antonelli – 8.3
2º) Lando Norris – 7.4
3º) Max Verstappen – 7.2
4º) Pierre Gasly – 7.1
5º) Lewis Hamilton – 7.0
6º) Liam Lawson – 6.9
7º) Arvid Lindblad – 6.9
8º) Isack Hadjar – 6.5
9º) George Russell – 6.4
10º) Franco Colapinto – 6.3
11º) Gabriel Bortoleto – 6.1
12º) Nico Hülkenberg – 6.1
13º) Charles Leclerc – 6.0
14º) Fernando Alonso – 5.7
15º) Oscar Piastri – 5.6
16º) Oliver Bearman – 5.5
17º) Esteban Ocon – 5.2
18º) Carlos Sainz – 5.1
19º) Alexander Albon – 4.9
20º) Sergio Pérez – 4.7
21º) Lance Stroll – 4.2
22º) Valtteri Bottas – 4.1

RESERVAS

Yuki Tsunoda – 6.3 (em três participações)