A cada quatro anos, durante aproximadamente um mês, o mundo concentra olhares atentos na Copa do Mundo Masculina da FIFA, considerada o maior espetáculo esportivo do planeta para uma única modalidade. Para 2026, o evento ficou ainda maior, com um total de 104 jogos, 48 seleções e três países — Estados Unidos, México e Canadá — como sedes. Ao longo das décadas, a Fórmula 1 se aproximou da Copa do Mundo e realizou corridas no mesmo país que sediou o torneio mais importante do futebol em 13 edições, mas as duas modalidades nunca estiveram tão próximas quanto em 2026. E o protagonista deste movimento fraternal é o Hard Rock Stadium, em Miami, onde a Seleção Brasileira joga contra a Escócia nesta quarta-feira (24), às 19h (de Brasília, GMT-3), para definir a vida na fase de grupos.

Enquanto boa parte da imprensa nacional se concentra em Miami hoje para tratar da possível estreia de Neymar, do florescer de Vinícius Júnior com a amarelinha ou de como Carlo Ancelotti substituirá Raphinha, aqui vamos ficar com a parte que nos cabe dessa dobradinha: a da velocidade. Vez ou outra, além de estarem no mesmo país, F1 e a Copa do Mundo promovem ações conjuntas para alcançar diferentes públicos. Exemplo disso foi a presença de Gianni Infantino, presidente da FIFA, e do troféu da Copa do Mundo na cerimônia de abertura do GP do Catar de 2021, um ano antes do início da competição no país. 

Embora a F1 e a Copa do Mundo passem pelo mesmo país, poucas vezes compartilham a mesma cidade, muito menos instalações próximas. Pudera, uma delas exige estádios, enquanto a outra necessita de autódromos ou pistas urbanas com as condições adequadas de logística e segurança. Acontece que o Hard Rock Stadium é uma das raras exceções à distância entre os mundos e faz-se capaz de reunir ambos. Isso porque a estrutura do estádio e seus entornos reúnem condições para a F1. Foi projetado para muito mais que receber os jogos de futebol americano do Miami Dolphins, time da NFL, que conta com apenas alguns meses de temporada. Numa cidade com o prestígio desta, no litorâneo e festeiro Sul da Flórida, a intenção era contar com uma praça que pudesse receber vários eventos esportivos e shows musicais. E assim acontece, não apenas com a F1 e a Fórmula E, na velocidade, mas também com o Aberto de Miami de tênis, entre outros.

Ciente do potencial de consumo do público americano, desde que foi adquirida pelo Liberty Media, quase uma década atrás, a F1 iniciou um processo de expansão nos Estados Unidos. Embora já contasse com uma etapa no país, realizada em Austin, no Texas, o grupo acrescentou outras duas ao calendário: Miami e Las Vegas. A categoria registrou um aumento considerável de audiência no mercado local, com ingressos esgotados em praticamente todas as edições dessas corridas.

A FIFA, naturalmente, também quer se beneficiar desse mercado consumidor e, por isso, escolheu os Estados Unidos como uma das sedes da Copa do Mundo de 2026, 32 anos depois do país, então de maneira solitária, receber o Mundial pela primeira vez. Curiosamente, a última edição com 24 seleções e a primeira com 48. Apesar de outros dois países, é nos Estados Unidos que a maior parte das partidas será disputada, inclusive com a final marcada para o MetLife Stadium, em Nova Jersey, mas que é parte do mercado de Nova York.

Os Estados Unidos possuem uma cultura esportiva muito forte, especialmente em modalidades tradicionalmente populares no país, como basquete, futebol americano, beisebol e Nascar. Ainda que a F1 tenha conseguido conquistar algum espaço entre os torcedores americanos, o futebol ainda não parece ter rompido essa barreira cultural.

É uma percepção que ficou evidente durante a cobertura do GP de Miami de 2026, acompanhada in loco pelo GRANDE PRÊMIO. A etapa aconteceu no fim de semana de 3 de maio, cerca de um mês e meio antes da primeira partida da Copa do Mundo no Hard Rock Stadium, o confronto entre as seleções de Arábia Saudita e Uruguai, no último dia 15 de junho. Serão, ao todo, sete partidas por lá. Num país que respira esportes, seria natural perceber a aproximação da Copa do Mundo ou mesmo à F1. Não foi isso o que aconteceu.

Durante os dias em Miami, a escassez de anúncios e de referências aos grandes eventos internacionais na cidade me chamou a atenção. Em relação à F1, foi possível notar alguns outdoors e peças publicitárias espalhadas por diferentes pontos. Absolutamente nada, entretanto, mencionava a Copa do Mundo. No estádio, próximo à sala de imprensa, ainda era possível encontrar quadros retratando momentos marcantes de edições passadas das corridas e do futebol americano, mas nada sobre o torneio da FIFA.

Arábia Saudita x Uruguai foi o primeiro dos sete jogos da Copa do Mundo no Hard Rock Stadium (Foto: Reprodução)

A única referência ao futebol que deu para encontrar pela cidade foram alguns banners promocionais de cerveja em supermercados ou lojas de conveniência, estampando o rosto do ex-jogador britânico David Beckham, atual sócio do time de futebol da cidade, o Inter Miami, onde jogam, entre outros, Lionel Messi e Luis Suárez. Leonid Kliuev, correspondente do GP que esteve comigo em Miami durante a corrida, teve uma impressão parecida.

“Eu não vi [muitas referências], talvez por não ser um grande fã de futebol. A única ‘referência’ real que tive foi alguns jogadores no paddock da F1. Lionel Messi estava lá, claro, e atraiu muita atenção, mesmo para os padrões do paddock – a multidão que se reuniu era maior do que a de qualquer um dos pilotos, ou do que a de David Beckham, que foi convidado do paddock no GP do Catar do ano passado”, destacou. “Mas não reparei em qualquer publicidade exterior ou instalações/estandes/lojas temporárias dedicadas à Copa do Mundo”, destacou.

As poucas referências, no entanto, não decorrem de uma falha de percepção, nem mesmo do fato de sermos pouco antenados ao futebol. Um levantamento realizado pelo Pew Research Center, em março, mostrou que menos de 30% dos americanos tinham algum interesse na Copa do Mundo. O dado corrobora a percepção. Afinal, é difícil investir em referências visuais e campanhas publicitárias para um evento que desperta interesse limitado no público local.

F1 e Copa do Mundo nunca estiveram tão próximas como em 2026

Desde que a F1 realizou o primeiro campeonato, em 1950, esteve presente em um país-sede em ano de Copa do Mundo em 13 oportunidades. Porém, antes da edição de 2026, a ocasião em que a principal categoria do automobilismo e o Mundial de futebol masculino haviam sido realizados em locais tão próximos ocorreu em 2018, na Rússia. A pista utilizada pela Fórmula 1 e o Estádio Olímpico de Fisht, ambos localizados no Complexo Olímpico de Sóchi, estavam separados por apenas 4,2 km, num trajeto de carro. Era ao lado. Vale destacar que os eventos aconteceram em datas diferentes: enquanto a bola consagrou Antoine Griezmann, Kylian Mbappé e o bicampeonato mundial da França entre junho e julho, a corrida aconteceu apenas no fim de setembro.

O Autódromo Hermanos Rodríguez também ficar próximo ao Estádio Azteca, que é palco da Copa do Mundo da FIFA (Foto: Red Bull Content Pool)

Também houve outras três ocasiões em que a proximidade merece destaque. Em 1954, a pista de Bremgarten e o Wankdorf Stadium, ambos em Berna, na Suíça, estavam separados por apenas 13 km. Atualmente, porém, as duas instalações não existem mais. Logo no ano seguinte, 1955, o grande desastre de Le Mans fez com que o automobilismo fosse proibido no país e, assim, o circuito ficou sem grande utilidade. Como não havia instalações fixas construídas, pouco precisou ser desmobilizado. Parte do que era a pista antiga ainda existe, mas como ruas para trânsito urbano, enquanto o restante foi absorvido pela floresta de mesmo nome, por dentro de onde os carros aceleravam. O Estádio Wankdorf foi casa da eliminação brasileira naquela Copa do Mundo, a derrota para a geração de ouro da Hungria em jogo de tamanha violência que ganhou o apelido de ‘A Batalha de Berna’. O ‘Milagre de Berna’, grande final daquela Copa, também foi disputada lá, mas aí os húngaros levaram a pior na virada lendária que representou o primeiro título da Alemanha — então Ocidental. O antigo Wankdorf foi demolido em 2001, mas deu lugar ao novo Wankdorf, que ainda existe no local.

Casa das finais das Copas do Mundo de 1970 e 1986, bem como da abertura deste ano, o Estadio Azteca, na Cidade do México, está a apenas 18 km do Autódromo Hermanos Rodríguez, palco local da Fórmula 1. Por fim, em 2014, quando a Copa do Mundo foi realizada no Brasil, a então Arena Corinthians, atual NeoQuímica Arena, era a sede paulista do evento e estádio mais próximo do Autódromo de Interlagos, a uma distância de cerca de 37 km.

Por outro lado, foram poucas as ocasiões em que a F1 e a Copa do Mundo realizaram eventos no mesmo dia e no mesmo país. A primeira ocorreu na Inglaterra, em 1966, quando Jack Brabham venceu a corrida disputada em Brands Hatch, em 16 de julho, mesma data em que a Inglaterra superou o México por 2 a 0, com gols de Bobby Charlton e Roger Hunt; a Alemanha Ocidental empatou sem gols com a Argentina; Portugal venceu a Bulgária por 3 a 0, com gols de António Simões e Eusébio (duas vezes); e a URSS derrotou a Itália por 1 a 0, com gol de Igor Chislenko No dia anterior, o Brasil havia sido eliminado da Copa após ser derrotado pela Hungria — ela de novo — por 3 a 1. Ferenc Bene, János Farkas e Kálmán Mészöly marcaram para os húngaros, enquanto Tostão descontou para a Seleção Brasileira. Todos esses jogos foram válidos pela segunda rodada da fase de grupos. Apenas um desses jogos, porém, aconteceu na cidade mais próxima da pista onde correu a F1, a capital Londres. Foi o da equipe da casa, mas que ocorreu em Wembley. Curiosamente o estádio mais próximo de Brands Hatch era a outra praça londrina, o White City, que, verdade seja dita, recebeu apenas uma partida no Mundial, entre França e Uruguai, no dia anterior. Inaugurado em 1908 para ser casa principal dos Jogos Olímpicos daquele ano, o White City foi demolido em 1985. No lugar dele, surgiu um complexo de prédios que por anos sediou todas as operações multimídia da BBC — parte, como o centro de TV, ainda permanece por lá.

A outra coincidência de datas ocorreu em 1998, na França. A corrida disputada em Magny-Cours, em 26 de junho, teve vitória de Michael Schumacher. No futebol, a França superou o Paraguai por 1 a 0, com gol de Laurent Blanc, no que foi o primeiro gol de ouro — quando apenas o fato de marcar um gol na prorrogação era suficiente para encerrar o jogo — da história das Copas do Mundo, enquanto a Dinamarca eliminou a Nigéria com uma goleada por 4 a 1. Peter Møller, Brian Laudrup, Ebbe Sand e Thomas Helveg marcaram para os dinamarqueses, enquanto Tijani Babangida fez o gol nigeriano. O Brasil, mais uma vez, jogou no dia anterior e também goleou o Chile por 4 a 1, com dois gols de César Sampaio e dois de Ronaldo, além de um gol de Marcelo Salas para os chilenos. Todos os jogos foram válidos pelas oitavas de final. E assim como 32 anos antes, nenhum destes jogos foi disputado no estádio mais próximo à pista, que era o Geoffroy-Guichard, em Saint-Étienne. O estádio receberia o último jogo dele na Copa dois dias depois, quando a Argentina eliminou a Inglaterra na disputa por pênaltis.

Proximidade das pistas da F1 com os estádios da Copa do Mundo de Futebol

País/AnoEstádioPistaDistância
Suíça 1954Wankdorf Stadium, em BernaBremgarten13 km
Inglaterra 1966White City, em LondresBrands Hatch52 km
Inglaterra 1966Wembley, em LondresBrands Hatch85 km
México 1970Estádio Azteca, na Cidade do MéxicoHermanos Rodríguez18 km
Alemanha 1974Rheinstadion (atual Merkur Spiel-Arena), em DüsseldorfNürburgring149 km
Argentina 1978Monumental de Núñez, em Buenos AiresOscar y Juan Gálvez43 km
México 1986Estádio Azteca, na Cidade do MéxicoHermanos Rodríguez18 km
Itália 1990Estádio Renato Dall’Ara, em BolognaÍmola57km
Itália 1990Estádio Giuseppe Meazza, em MilãoMonza25 km
França 1998Stade Geoffroy-Guichard, em Saint-ÉtienneMagny-Cours220 km
Japão e Coreia 2002Estádio Nagai, em OsakaSuzuka123 km
Alemanha 2006Commerzbank-Arena (atual Deutsche Bank Park), em FrankfurtHockenheim90 km
Alemanha 2006Commerzbank-Arena (atual Deutsche Bank Park), em FrankfurtNürburgring169 km
Brasil 2014Arena Corinthians (atual NeoQuímica Arena), em São PauloInterlagos37 km
Rússia 2018Estádio Olímpico de Fisht, SóchiAutódromo de Sóchi4,2 km

F1 e a Seleção Brasileira

Um caso de proximidade curiosa que guarda a Seleção e a F1 em ano de Copa, porém, está em 1974. O então treinador Mário Jorge Lobo Zagallo, que comandara o tricampeonato mundial quatro anos antes, planejou uma preparação especial para o Brasil em solo alemão, buscando afastamento de grandes públicos. Escolheu uma temporada de preparação no Hotel Herzogenhorn, na Floresta Negra alemã, próximo à fronteira com a Suíça. A Seleção se despediu do país no Rio de Janeiro, com uma vitória contra o Paraguai em amistoso disputado em temperatura acima dos 30°C, e viajou no dia seguinte.

O problema era que a primavera alemã de 1974 contou com temperaturas abaixo da média e, como o Herzogenhorn estava no alto dos Alpes Alemães a 1.200 m de altitude, a temperatura era gélida. O período de preparação contou com muita neve, ventos fortíssimos e névoa. Foram vários os treinos realizados no centro de convenções — longe, evidente, do que se tinha como ideal. A Seleção sofreu com lesões, como a do volante titular Clodoaldo, que acabou cortado e fora da competição.

Mas onde está a conexão? Na Floresta Negra, justamente. Porque é também nos confins da mata fechada alemã que está o circuito de Hockenheim. Embora não tão próximo, é verdade, porque são cerca de 235 km de distância, os dois pontos dividem o mesmo bosque. Hockenheim havia recebido a F1 em 1970 e voltaria a ser casa do GP da Alemanha, aí de forma oficial, a partir de 1977. Mas está ligada com a Seleção Brasileira em Copas.

Também foi por conta da Copa do Mundo que Ayrton Senna passou a esticar a bandeira do Brasil após as vitórias. Foi há 40 anos, durante a Copa realizada no México, em 1986. Então piloto da Lotus, que era impulsionada pelos motores Renault, sofreu com a eliminação da Seleção pelas mãos da França no sábado de classificação para o GP de Detroit. No domingo, então, vingou-se com uma bandeira do Brasil ao vencer a prova.

Ayrton Senna na F1 e a Seleção Brasileira na Copa do Mundo estavam em busca do tetra em 1994(Foto: Reprodução)

Anos mais tarde, em 1994, Senna também esteve umbilicalmente ligado à campanha brasileira na primeira Copa dos Estados Unidos. No dia 20 de abril, foi convidado para dar o pontapé inicial num jogo entre a Seleção e um combinado das equipes francesas do PSG e do Bordeaux, em jogo disputado em Paris. Horas mais tarde, jantaria com o time. Deixou no ar uma frase. “Acelera daqui, que eu acelero de lá”.

Exatos 11 dias depois, viria o acidente fatal do tricampeão no GP de San Marino. A Seleção logo partiu para os Estados Unidos atrás de quebrar o tabu de 24 anos sem levar a melhor na Copa do Mundo. E conseguiu. No gramado do Rose Bowl, na Califórnia, logo após conquistar o tetracampeonato, a Seleção se juntou para uma foto com uma faixa especial.

“Senna…Aceleramos juntos, o tetra é nosso!”

Copa do Mundo e Fórmula 1: tudo a ver. Talvez.

*Com participação de Pedro Henrique Marum