A Prema vive uma verdadeira incógnita na Indy: ninguém sabe, de fato, o que vai acontecer com a equipe. A incerteza sobre a continuidade do time é cada vez mais latente, evidenciada pela saída de diretores e exposição pública da situação por parte dos pilotos. Ficar fora da categoria, nem que em parte da temporada, seria um fracasso retumbante — assinado também pela própria direção da Indy, que tem dado sinais de agir como aquela pessoa que segue à espera do cônjuge, que saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Esse dito popular — de que “fulano saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou” — se refere a alguém que abandona uma situação, relacionamento ou responsabilidade sem comunicar oficialmente o rompimento. A Prema até luta para seguir adiante, embora se esfarele a cada dia, enquanto a Indy, publicamente, adotou uma postura de espera, na esperança de que as coisas melhorem, depois de ter escolhido o time italiano em vez de outros competidores estadunidenses — um contexto que remonta a dois anos atrás.

A Prema chegou à Indy com pompas de grande equipe europeia, atravessando o Oceano Atlântico em busca de sucesso nos Estados Unidos. Em 2024, René Rosin, então comandante da equipe, anunciou, ao lado de Piers Phillips, CEO da operação na Indy, e Jay Frye, então presidente da categoria, que a Prema desembarcaria nos EUA em 2025.

Na pilotagem, a Prema se cercou de dois velhos conhecidos: Callum Ilott, que já tinha experiência na Indy, e Robert Shwartzman — ambos formados na base da equipe. Para liderar a parte técnica, trouxe Steve Cannon, ex-engenheiro de Scott Dixon, apontado como a mente por trás do acerto “voador” que a Foyt, onde estava, e a Penske encontraram nas 500 Milhas de Indianápolis.

Robert Shwartzman (Foto: IndyCar)

O primeiro sinal de alerta de que havia algo errado, mesmo que não financeiro, na Prema veio quando o próprio Cannon pediu demissão. O engenheiro alegou que não era ouvido dentro do time, novato na Indy.

O início da trajetória da Prema foi complicado. Em termos de desempenho, a equipe não apresentou resultados expressivos nas primeiras etapas do campeonato, algo que acabou ficando em segundo plano após Shwartzman conquistar uma surpreendente pole-position nas 500 Milhas de Indianápolis — uma combinação de piloto novato e equipe estreante, resultado de uma semana inteira de preparação focada exclusivamente na classificação da prova.

A pole, que fez a Prema tocar o céu, foi o único lampejo de uma temporada de desempenho mediano, algo até esperado por se tratar de um ano de estreia. No entanto, o que foi visto em pista representou apenas o topo do iceberg: nos bastidores, a situação era muito mais preocupante. Uma má gestão financeira teria causado um rombo superior a US$ 40 milhões (cerca de R$ 208 milhões).

Sem conseguir atrair grandes patrocinadores ao longo de 2025, a Prema ainda gastou muito além do que estava previsto para o início da temporada. O GRANDE PRÊMIO apurou que, na reta final do campeonato passado, diante das contas no vermelho, a equipe adquiriu um showcar junto à Dallara.

Robert Shwartzman foi o pole da Indy 500 (Foto: Indycar)

É claro que, diferentemente das adversárias, a Prema precisou montar uma estrutura física para estrear na Indy, mas o valor estimado como rombo é superior ao que a Ganassi, campeã com Álex Palou em quatro dos últimos cinco anos, gasta anualmente com três carros — o orçamento de cada operação gira em torno de US$ 9 a 12 milhões (entre R$ 46 e R$ 62 milhões).

Diante das enormes dificuldades financeiras, a Prema passou a conviver com o êxodo de pessoas-chave, o que respingou até na operação europeia. A família Rosin deixou o comando. Ryan Briscoe, diretor esportivo, também saiu. Nos EUA, quem ainda tenta manter o time de pé é Phillips.

Tentando sobreviver, a Prema não deve aparecer nos testes de pré-temporada da categoria, marcados para Sebring e Phoenix, nas próximas semanas. Ilott apontou que considera improvável correr na abertura do campeonato, em St. Pete — etapa marcada para o dia 1º de março —, pois vê o time longe de estar pronto. Já há quem diga que, se conseguir sobreviver, a Prema só estaria apta a competir no GP de Long Beach, em 19 de abril, a quinta etapa da Indy 2026.

Por qual razão a Indy fracassa junto da Prema?

René Rosin deixou comando da Prema (Foto: Reprodução)

A Indy não tem relação direta com a gestão financeira calamitosa da Prema, mas a categoria estendeu o tapete vermelho aos italianos, rejeitando o interesse de diversas equipes norte-americanas, mais adaptadas à cultura da categoria — parecia até um leve aceno à internacionalização.

Entre o fim da temporada 2023 e o início de 2024, quando a Indy anunciou a chegada da Prema e passou a desenhar o sistema de charters — do qual o time italiano, inclusive, ficou de fora —, havia uma fila de interessados.

Da Indy NXT, HMD e Abel Motorsports expressaram o desejo de subir para a Indy. Parceiras nas 500 Milhas de Indianápolis, Dreyer & Reinbold e Cusick também comentaram que gostariam de ter um carro em temporada completa. Até a Pratt Miller, onde Pietro Fittipaldi correu de LMP2 no IMSA SportsCar em 2025, adotou postura semelhante. Todas essas, entretanto, foram preteridas em favor da Prema.

Por essa razão, a Indy teria de ter uma postura mais ativa em relação à situação da equipe italiana. Depois de limitar o grid a 27 carros — com exceção das 500 Milhas de Indianápolis —, a categoria sofreria um duro golpe se largasse com apenas 25 pilotos em St. Pete. Após assinar a chegada da Prema, a organização precisa agir para garantir essas duas vagas na etapa da Flórida — e o tempo urge.

A temporada 2026 da Indy tem início no dia 1º de março, com o GP de St. Pete, no circuito de rua montado na cidade localizada na Flórida.

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