O Japão usou gasolina para apagar o incêndio que começou na MotoGP no GP de Aragão. Com o campeonato pegando fogo depois da queda de Fabio Quartararo no MotorLand na semana passada — o que deixou os três primeiros na classificação do Mundial de Pilotos separados por só 17 pontos —, a chuva entrou em cena não só para diminuir o tempo de pista, mas também para embaralhar as posições de largada neste sábado (24).

Pela primeira vez desde o GP do Japão de 2019, Marc Márquez tem a posição de honra do grid. No segundo GP desde que voltou à ativa após a quarta cirurgia no braço direito, o espanhol se valeu das condições traiçoeiras, que não só cancelaram o terceiro treino livre — que seria, na prática, aquilo que normalmente é o quarto treino, já que esta 16ª etapa do ano não contou com as atividades da manhã de sexta-feira por questões logísticas —, mas que também adiaram longamente o início das atividades para conquistar a 91ª pole no Mundial de Motovelocidade.

Marc Márquez encerrou um longo jejum de poles (Foto: Repsol)

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Com 1min55s214, Marc deu uma trégua na crise da Honda, que vive a maior seca de pódios desde que retornou à classe rainha do Mundial em tempo integral, em 1982, ao bater Johann Zarco por 0s208 para ficar com a posição de honra. O resultado, claro, animou o espanhol, que viveu uma verdadeira epopeia nos últimos anos, mas não tira dele a consciência dos defeitos da RC213V, que segue sendo uma moto difícil, e nem da falta de forma física, já que ele ainda precisa recuperar os músculos, uma vez que foi liberado para treinar o braço direito com pesos maiores apenas recentemente. Marc foi muito claro em dizer que não está pronto, mas afirmou claramente que a última cirurgia foi uma “vitória”, pois consegue viver a vida normal sem problemas, mesmo que ainda não saiba exatamente os efeitos disso no lado profissional.

“A última pole foi aqui, há três anos, foi uma espera muito longo”, disse Marc ao serviço de streaming espanhol DAZN. “Eu tinha que aproveitar. Me sinto muito confortável na água. Me falta força no braço no seco, mas, no molhado, posso pilotar como quero, então aproveitei”, explicou.

“Quero agradecer todo mundo que me ajudou na recuperação. Sei que fizemos uma pole no molhado, mas, na minha condição e depois de tudo que passamos, precisamos celebrar tudo”, frisou.

Com previsão de uma corrida em pista seca, Marc está menos confiante para a corrida, mas falou em buscar motivação.

“Amanhã será uma corrida no seco e vamos ver o que acontece. Mas temos de buscar motivação para seguir em frente”, completou.

Por mais estranho que possa parecer, a presença de Marc na pole não foi a única coisa incomum da classificação. Desta vez, não teve um paredão de Ducati. Não que elas não estivessem por lá, mas as Desmosedici ficaram mais espalhadas: apenas uma em cada uma das três primeis filas. Zarco em segundo, Jorge Martín em quinto e Jack Miller em sétimo.

E onde foi parar Francesco Bagnaia, vice-líder do Mundial, que além de andar grudado no pódio, vinha ficando no máximo na segunda fila? Na chuva, Pecco não rendeu igual e, com a melhor volta em 1min57s373, ficou só em 12º, 2s159 atrás de Márquez. É o terceiro pior grid do italiano no ano, melhor apenas que o 24º lugar do GP de Portugal e que o 13º do GP da Argentina.

“Ainda não consegui analisar nada, mas parece que algo está errado com esta moto”, lamentou Pecco. “No ano passado fui rápido no molhado, mas este ano, na Indonésia, a única corrida com chuva até então, terminei em 15º. E não é aceitável, esta manhã fui mais rápido do que na classificação, em piores condições”, encerrou o italiano.

“Não tenho qualquer sentimento com a moto. Este ano não tivemos muitas oportunidades de rodar no molhado, mas temos de descobrir o que acontece. Sei que o meu nível é muito mais alto nestas condições”, declarou.

Apesar do revés na classificação, Pecco não arredou o pé da estratégia de vencer.

“A estratégia é ir para cima. Vou tentar ultrapassar o máximo de pilotos que puder nas primeiras voltas”, anunciou. “Meu objetivo é vencer. Meu primeiro objetivo não é ultrapassar Fabio, mas vencer”, admitiu.

A posição do titular da Ducati, contudo, não será lá um grande alento para Fabio Quartararo. Líder do Mundial, o francês estava mesmo precisando de um revés do adversário para tentar dar uma engordadinha na vantagem da classificação, mas ele próprio não foi lá essas coisas na hora de definir o grid.

Com 1min56s326, o piloto de Nice ficou só em nono, fechando a terceira fila, atrás de Jack Miller e Miguel Oliveira.

“Esperava muito mais”, assumiu Fabio. “Não entendo como não pude melhorar no Q2. Estamos um pouco perdidos no molhado neste circuito”, reconheceu.

Fabio Quartararo reconheceu que esperava mais da classificação no Japão (Foto: Yamaha)

Um dos problemas para a corrida é que a previsão aponta para pista seca e os pilotos não completaram a escolha de pneus, já que tiveram um único treino nessas condições.

“Temos trabalho, especialmente na escolha dos pneus. O warm-up será muito importante. Para mim e para todos”, frisou.

Ao longo de todo o ano, Fabio apontou para a dificuldade que tem para ultrapassar com a Yamaha, um problema que não vai passar despercebido em Motegi.

“O único problema são as facilidades que têm Aleix Espargaró e Pecco para ultrapassar. É preciso encontrar algum lugar para conseguiu passar os outros pilotos”, alertou.

“No momento, o único lugar em que posso ultrapassar é a curva sete, que não é um lugar fácil para passar”, sublinhou.

Entre os candidatos ao título, o melhor desempenho veio de Aleix Espargaró. Com 17 pontos de atraso para Fabio na classificação do Mundial, o pai dos pequenos gêmeos Max e Mia foi 0s557 mais lento que Marc Márquez e ficou em sexto, compartilhando a segunda fila com Maverick Viñales e Jorge Martín.

“Foi um dia muito complicado desde o início. Estou feliz, tanto pela posição no grid, como pelo o que estou sentindo”, disse Aleix. “Sexto é um bom lugar no grid e, se não tivesse cometido um erro na primeira curva, poderia ter lutado pela pole”, acrescentou.

Mesmo confiante de que pode se sair bem, o mais velho dos Espargaró considerou que fez apenas metade do trabalho, que o restante terá de ser feito no apagar das luzes na reta de Motegi.

“Fizemos 50% do trabalho, a largada teremos de fazer a outra metade”, declarou Aleix. “Pecco está largando muito bem, mas recuperar não é fácil. É difícil prever o que pode acontecer no seco. A moto mudou muito”, frisou.

O irmão de Pol frisou que vai para a corrida pensando em vencer, mas falou em ficar atento ao posicionamento de Pecco e Fabio e tampouco descarou Márquez.

“Você tem de usar a cabeça, mas eu quero vencer. Obviamente, terei de saber onde eles realmente estão, mas não é fácil prever o cenário que teremos amanhã. Marc é rápido, vamos ver o físico dele. Eu não acho que ele não vai aguentar. Não vejo por que ele não aguentaria. Acho que ele vai tentar vencer”, encerrou Espargaró.

Enea Bastianini, que tampouco é carta fora do baralho na briga pelo campeonato, uma vez que tem só 48 pontos a menos que Quartararo, teve de passar pelo Q1 depois de sofrer uma queda no primeiro treino do fim de semana, o único realizado com pista seca, mas caiu de novo na primeira fase da classificação e vai sair apenas em 15º.

“Esta manhã eu fui bem, fui forte o suficiente no molhado. De tarde, porém, caí no final do Q1 e não consegui entrar no Q2. Lamento muito, porque tinha um bom ritmo, um bom feeling”, comentou Enea. “Caí na curva 5, mas não fiz nada de anormal, os dados confirmam isso. Mas, você sabe, no molhado, ficamos sempre por um fio”, comentou.

Conhecido por preservar o equipamento e fazer boas provas de recuperação, Bastianini acredita que poderá escalar o pelotão também no Japão.

“Amanhã posso alcançá-los. Os pilotos mais rápidos vão largar atrás, inclusive eu. Ainda não acabou. Temos de alcançar os que estão na frente, mas podemos fazer uma boa corrida”, concluiu.

A largada do GP do Japão de MotoGP, em Motegi, está marcada para este domingo, às 3h (de Brasília). O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do Mundial de Motovelocidade 2022.

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