Responsável pelo tratamento de Marc Márquez, Samuel Antuña falou com admiração da resiliência do espanhol. O médico ortopedista detalhou as limitações físicas do #93 no braço direito e admitiu que, na mesma condição, Carlos Alcaraz teria tido de abandonar o tênis profissional.

Na semana passada, Márquez postou no Instagram uma foto treinando sem camisa, revelando ao mundo a diferença física entre o ombro direito e o esquerdo. Na esteira da imagem, o médico passou a ser procurado pela imprensa para detalhar o quadro do titular da Ducati.

Em entrevista ao jornal espanhol El Periódico, Antuña ressaltou que, ainda que tenha todos os músculos, vários estão atrofiados, causando não apenas a diferença estética, mas falta de força. O médico apontou, porém, que a condição era diferente na conquista do título do ano passado.

“Quando Marc ganhou o campeonato no ano passado, depois de muito esforço e tantos contratempos, a condição do braço direito dele tinha melhorado muito, e, pelo que ele nos dizia, ele se sentia cômodo pilotando a nova moto. Não me atreveria a dizer que, naquele momento, o braço direito dele estava bem, mas ele podia competir, não tinha muito desconforto, mesmo que o braço seguisse fraco, fruto, logicamente, de todas as cirurgias que precisou fazer no úmero e nesse ombro”, explicou Antuña. “Mesmo sendo Marc Márquez, isso cobra um preço, e a força que ele conseguia fazer com o braço direito não era comparável com a que podia fazer com o esquerdo. Mas, sim, antes do acidente da Indonésia ele estava bem, podia competir, não sentia dor, não se queixava de nada, mas aquela queda mudou tudo”, seguiu.

MotoGP 2026 Marc Márquez
Marc Márquez mostrou evidências das muitas cirurgias no braço direito (Foto: Reprodução)

Questionado se o acidente com Marco Bezzecchi fez Marc retroceder na recuperação, o médico explicou: “A queda da Indonésia significou recomeçar do zero. Ele teve uma luxação acromioclavicular acompanhada de uma fratura na base do processo coracoide. Para quem pilota a 350 km/h, a cicatrização adequada dessa luxação é crucial para evitar problemas a longo prazo. Os músculos do ombro se fixam à clavícula e, se falta estabilidade ao osso, isso pode resultar em complicações. A luxação acabou cicatrizando, mas a recuperação total levou quatro meses”.

“Aquela mesma queda provocou o deslocamento secundário de um fragmento de osso que tinha sido utilizado vários anos antes para estabilizar o mesmo ombro. Marc seguiu competindo, continuou brigando pela vitória, mas com dificuldades para controlar o braço, provocando dores e quedas. Foi aí que detectamos o problema”, destacou. “É aqui que precisamos destacar o tipo de pessoa que Marc é. Ele é um esportista tremendamente dedicado e muito forte, tanto física quanto mentalmente. Ele nunca reclama só por reclamar. E, naquelas corridas, ele nunca se queixou, lidava com o problema, com a dor, com a incerteza, mas, quando dava explicações do motivo de as coisas não correrem bem para a equipe, bom, mais do que a equipe, às pessoas ao redor dele, àqueles que ele chama de ‘outra família’, do motivo de não se sentir cômodo na moto, o motivo de cair, as pessoas começaram a suspeitar que Marc não estava bem, que tinha algo acontecendo e quem Marc sabia o motivo desta instabilidade na pilotagem dele”, revelou.

O ortopedista explicou que, quando voltou ao consultório, Márquez foi examinado minuciosamente, o que resultou no diagnóstico de uma compressão ao nervo radial.

“Quando o examinamos minuciosamente, comprovamos que um dos nervos mais importantes do braço, o nervo radial, estava comprimido dinamicamente por esse pedaço de osso, que flutuava naquela região. E isso fazia que, em determinadas posições durante a corrida, durante os treinos, Marc perdesse o controle absoluto do braço e, por isso, caísse”, contou.

Antuña contou que Márquez aceitou imediatamente a nova cirurgia, mas os médicos optaram por buscar um especialista em nervos para garantir o melhor tratamento.

“Marc não tem medo de nada e, quando sugerimos que teríamos de fazer uma nova intervenção, ele aceitou imediatamente. Para fazer essa intervenção, que não é pequena, decidimos contatar um espanhol especialista em nervo periférico, que é o Dr. Andrés Maldonado”, explicou. “O osso comprimia o nervo radial na altura do plexo braquial e, por consequência, fazia Marc perder o controle do braço em determinadas posições em cima da moto. Para solucionar o problema, fui necessário ressecar o fragmento ósseo que estava em contato com o nervo, bem como remover vários parafusos. Sem dúvida, essa cirurgia melhorou muito o braço”, atestou.

Perguntado sobre a foto que evidenciou o impacto das cirurgias no ombro direito de Marc, o médico explicou que o volume de cirurgias naquela mesma parte do corpo deixou marcas.

“Quando você sofre uma descompensação como a de Marc, que passou por um montão de operações nessa área do corpo, afetando seriamente toda a musculatura, os músculos não funcionam mecanicamente da mesma forma que os do braço esquerdo. É evidente, não?”, frisou. “Repito, nós estamos diante de uma pessoa especial, um lutador nato. Marc trata de compensar todos esses déficits se preparando com o máximo de força possível e adaptando a pilotagem às características que o braço tem agora. Mas é evidente ― e todo mundo já percebeu isso ―, que Marc tem o músculo latíssimo do dorso forte, mas mecanicamente alterado. O redondo maior também. Ou seja, ele tem alterações musculares, mas o maior problema que ele tem é que ele perdeu a força do bíceps. E, sim, antes do acidente da Indonésia, estava tudo muito bem compensado. Não estava perfeito, mas estava bem compensado. Depois daquele percalço, descompensou, tanto pela luxação acromioclavicular quanto pela lesão neurológica”, continuou.

O médico destacou que Marc ainda tem chances de evoluir o quadro clínico, mas sublinhou que o braço nunca mais será como era antes do início da epopeia de lesões.

“Nós estamos imersos em um processo, que é lento e que, no momento, está melhor do que estava, mas, repito, ele não tem um braço normal, nem nunca voltará a ter. Marc tem dificuldade de jogar padel, e isso diz tudo”, comentou,

Questionado se, na mesma condição de Marc, Carlos Alcaraz poderia seguir jogando tênis, Antuña respondeu: “Se Marc fosse Carlos Alcaraz, teria tido de se aposentar do tênis profissional. Poderia jogar tênis, mas como um fã”.

“Marc tem uma capacidade de suprir as carências que é difícil acreditar. O que eu posso dizer é que o braço está muito limitado em termos de força, especialmente o bíceps. Acho que a expressão de que Marc corre, no momento, com um braço e meio, se adapta muito ao estado atual do braço direito dele”, disparou.

Apesar do diagnóstico, o ortopedista deixou claro que o multicampeão ainda tem margem de melhora, mas ponderou que a recuperação também é afetada pela idade.

“Está em evolução, tem margem de melhora. É preciso lembrar que a última cirurgia aconteceu há três meses. O bíceps vai melhorar, mas não melhora tão rápido e tão bem aos 33 anos quanto acontecia aos 22. Vai custar um pouco mais para Marc melhorar, mas ele está acostumado com as dificuldades, nunca ganhou nada de presente. Tem margem de melhora, mas não podemos saber qual será o máximo, mas nunca será igual a antes das lesões”, avisou. “Clinicamente, é difícil entender o que Marc está fazendo, a maneira como ele segue ganhando corridas. Muitos teriam se aposentado com as lesões que Marc sofreu. Marc é um exemplo admirável para os jovens, que podem ver como ele trabalha sem reclamar, nem em público e nem no privado. Sou testemunha disso”, revelou.

Por fim, ao ser questionado se acredita na conquista do décimo título mundial diante do quadro clínico de Márquez, Antuña respondeu: “Ninguém sabe se, com o braço submetido a tantas lesões e limitações, Marc será capaz de voltar a ganhar um campeonato. O que nós sabemos, aqueles que tiveram a sorte de tratar Marc pessoalmente, é que o exemplo dele vai perdurar entre os esportistas que o acompanham: não apenas pela valentia, a capacidade de trabalho e a vontade que tornam épico aquilo que ele está fazendo, mas também porque ele faz com a humildade que caracteriza uma boa pessoa”.

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