Se os verdadeiros donos do show na MotoGP são os pilotos, por qual razão a voz deles não é ouvida?
Nas últimas semanas, antes mesmo de todo o caos do GP da Catalunha, a Comissão de Segurança vinha sendo alvo de questionamentos, já que anda para lá de esvaziada ― hoje, apenas três pilotos comparecem de forma regular: Francesco Bagnaia, Luca Marini e Jack Miller. Alguns apontam para a agenda lotada como justificativa para as faltas. Outros, alegam que abandonaram as reuniões por não sentirem efeitos práticos dos encontros.
Mas, no esporte como na vida, é a união que faz a força. Se em um grid de 22 pilotos, apenas três comparecem aos encontros para defender os interesses deles próprios, como vão conseguir ter voz no campeonato?
A MotoGP precisa, com urgência, entender que os legítimos donos do espetáculo são os pilotos e, por isso mesmo, são eles que precisam ter voz. Ainda mais em questões relativas a segurança, já que é a vida de cada um deles que está em jogo.

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Mas é também necessário que eles entendam a própria força. Juntos, os pilotos serão capazes de fazer mais. Se comparecerem unidos às reuniões, mesmo que não consigam posições unânimes, eles serão mais fortes para cobrar mudanças do que a pífia representatividade de apenas três competidores.
Bagnaia, Miller e Marini merecem todos os aplausos por reservarem o tempo necessário para defender os interesses não apenas deles, mas de todos os pilotos ― inclusive aqueles das classes menores, que tem ainda menos representatividade e que precisam ser protegidos por aqueles que já alçaram voos maios no campeonato e atingiram um status superior. Mas eles precisam de apoio.
Não é possível que só os três tenham tempo disponível. Dois deles são pilotos de fábrica. Um deles, Luca, de uma marca em crise, que tenta de todas as maneiras voltar aos bons dias. O outro, Pecco, arrasta corrente da MotoGP desde o ano passado, mas, mesmo assim, põe de lado os próprios interesses competitivos por um tempo para ir lá debater prioridades coletivas. E alguém vai dizer que Miller, o único entre os pilotos da Yamaha com experiência de verdade com motor V4, tem a agenda livre e tranquila?
Todos são ocupados. Todos têm demandas e compromissos. Mas a Comissão de Segurança precisa estar à frente de todo o resto. Também para as equipes. Cabe a cada um dos times assegurar que os pilotos não estejam ocupados com compromissos outros na hora da reunião. Nada de entrevistas, eventos de patrocinadores, encontros e etc. Ali, no fim da tarde de sexta-feira, debater a segurança deles é prioridade. E nada pode ser mais importante do que isso.
Sempre bom lembrar que o campeonato tem representação de equipes e construtores. IRTA (Associação Internacional das Equipes de Corrida) e MSMA (Associação das Fábricas de Motocicletas Esportivas) estão aí para defender os interesses daqueles que representam e já garantiram um lugar à mesa nas tomadas de decisão do campeonato. Mas os pilotos são hoje um elo fraco. E não deveria ser assim.
As motos, por mais incríveis que sejam, não fazem nada sozinhas. Os engenheiros, por mais talentosos que sejam, precisam de um piloto para ir lá colocar a criação deles à prova. Uma fábrica, por mais gigantesca que seja, não conseguiria provar a própria força sem alguém montado no protótipo para expressar o valor dele. Os pilotos são os protagonistas. E não é justo que eles sejam colocados como elo fraco e silenciados.
Claro, assim como todo trabalhador, eles têm um empregador e um emprego a zelar. Mas, verdade seja dita, é um tipo de emprego bastante particular. Por mais que eles sequer gostem de pensar nisso, cada vez que um piloto entra na pista, a vida dele está em jogo e, justamente por isso, o ofício deles deve ser respeitado. Se os pilotos acham que é preciso mudar a posição de largada da Catalunha, eles devem ser ouvidos. Se eles acham que não dá para ter uma terceira largada depois de dois acidentes horrorosos, eles devem ser ouvidos.
Os pilotos da MotoGP precisam ter voz. Por eles e pelos menores. Pelos que estão lá hoje e pelos que virão depois.
Pedro Acosta disse outro dia que eles são competitivos demais para se organizarem em uma associação. Mas sempre bom lembrar que existe a GPDA na Fórmula 1. E, segundo me consta, também se trata de pilotos competitivos. Alguns deles sequer se gostam, sequer se falam.

Mas é uma associação para zelar pelos interesses deles. Não para que sejam melhores amigos. Os caras jantam juntos uma vez por ano, alguém paga a conta e cada um segue o próprio caminho. Mas quando eles precisam peitar a FIA (Federação Internacional de Automobilismo), por exemplo, eles têm a força de fazer isso em conjunto.
Os resultados da GPDA são esplêndidos? Talvez não. Mas, certamente, são melhores do que seriam se só três gatos pingados saíssem por aí tentando lutar contra o sistema.
Provavelmente, os pilotos da MotoGP não vão conseguir unanimidade em todas as decisões. A vida é assim mesmo. Mas a democracia está aí para resolver esses problemas. É só votar: a escolha da maioria é soberana. O derrotado que volte para tentar em uma outra vez.
A MotoGP retorna entre os dias 29 e 31 de maio, para o GP da Itália, direto de Mugello, na sétima etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento, assim como das demais classes do Mundial de Motovelocidade.
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