A temporada 2025 da Stock Car era cercada de expectativas. Afinal, a categoria se preparava para passar por uma grande reformulação técnica, na qual abandonaria os sedãs equipados com motores V8 para atender às tendências do mercado e dar espaço aos SUVs impulsionados por motores de quatro cilindros turbinados. Como se isso não fosse suficiente, a Mitsubishi se juntou à Chevrolet e à Toyota, aumentando o número de montadoras no esporte. No papel, tudo parecia perfeito, mas os problemas começaram antes mesmo do início do campeonato.
A primeira dor de cabeça foi a entrega das peças. Às vésperas da etapa de abertura, em Interlagos, duas equipes ainda estavam sem volantes, e alguns testes conduzidos dias antes foram alarmantes, uma vez que apenas quatro carros chegaram a ligar, sendo que dois deles apresentaram problemas de vazamento, apurou o GRANDE PRÊMIO à época. O sentimento geral era de que a primeira rodada de 2025 aconteceria de forma “desafiadora”.
E, de fato, foi um desafio. Além do aumento no número de treinos livres, o fim de semana da Stock Car contou apenas com a corrida de domingo, que teve pontuação reduzida e registrou diversos abandonos por quebras mecânicas. Os problemas persistiram nas etapas seguintes, e Felipe Massa e Bruno Baptista foram multados em R$ 100 mil por criticarem a situação. Alguns dias depois, Gabriel Casagrande ironizou as dificuldades e chamou a categoria de “Stop Car”, em alusão aos inúmeros carros que paravam na pista por falhas técnicas.
Com tantos contratempos, a organização do campeonato se viu obrigada a adiar a etapa do Velocitta, prevista para acontecer de 27 a 29 de junho. Quando a ação foi retomada, em 20 de julho, em uma das passagens da categoria pelo circuito paulista, as quebras continuaram, e a sessão do primeiro dia de treinos extras precisou ser cancelada. A insatisfação passou a atingir também os patrocinadores, e o coro pela volta dos motores V8 ganhou força, apurou o GP na ocasião.

Os problemas diminuíram a partir de Curvelo, quinta etapa da temporada, mas ainda era comum ver um ou outro piloto sofrer quebras antes mesmo da largada. No entanto, à medida que o campeonato avançou, a confiabilidade deixou de ser o único problema e passou a dividir os holofotes com a falta de segurança.
Um acidente na primeira volta da corrida no Velocitta chamou a atenção. Na ocasião, Felipe Baptista tocou no carro de Júlio Campos, que o fez rodar na frente do pelotão, provocando um ‘big one’. Como consequência, diversos pilotos acabaram se envolvendo no incidente, entre eles, João Paulo de Oliveira. O piloto do #7 conseguiu retornar aos boxes, mas abandonou a prova na sequência, em decorrência dos danos na parte dianteira do carro. Na ocasião, boa parte do grid entendeu que a batida não foi forte o suficiente para danificar o chassi — o que, entretanto, ocorreu. A peça trincou com o impacto, apurou o GRANDE PRÊMIO.
Mas a questão da segurança ficou ainda mais preocupante após Oliveira se envolver em um acidente com Bruno Baptista durante o primeiro treino livre em Brasília. Nos últimos instantes da sessão, o #7 acertou em ‘T’ o carro #44. Por causa do acidente, as atividades de pista foram interrompidas por quase quatro horas. Com o impacto, o chassi de Baptista rachou e teve diversas peças quebradas. Dias depois, Bruno confirmou que passou por cirurgia na mão esquerda e sofreu lesões na coluna e na costela. JP, por sua vez, sofreu uma fissura na bacia e um trincado na coluna.
Ao saberem da situação do carro de Bruno, os pilotos cogitaram não correr no fim de semana e organizaram reunião com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), que posteriormente conversou com as equipes. Num primeiro momento, a Vicar, promotora do campeonato, não estava presente nas conversas. Depois de estabelecido que o fim de semana seguiria em frente, Lincoln Oliveira, CEO da Stock Car, reforçou a confiança na segurança dos carros e disse que a preocupação dos competidores foi fruto da emoção do momento.
“Foi uma batida em ‘T’, que normalmente é bastante perigosa, mas o carro demonstrou ser extremamente seguro e cumpriu seu papel. Prova disso é que os pilotos estão bem. O carro ficou destruído, mas estão intactos, e é assim que ele foi projetado. Esperamos que [os pilotos] voltem o quanto antes. Estamos muito felizes porque estão bem”, disse o CEO da Stock Car em entrevista ao Sportv.
“Os pilotos ficaram emocionados e é comum, no calor do momento, alguém dizer que não vai correr. Mas a prova de que tudo funcionou é que eles estão bem. Não é a primeira vez que ocorre um acidente desse tipo, mas este mostrou que os pilotos saíram bem e estavam protegidos”, finalizou.
Mas a situação era um pouco mais séria do que isso. Pouco antes da rodada final em Interlagos, o GRANDE PRÊMIO teve acesso às pastas de prova das 11 etapas disputadas até então. As pastas são relatórios extensos feitos por membros do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN) — cujo presidente é Fábio Borges Greco, que assina os documentos — e comissários desportivos da CBA, presidida por Giovani Guerra. Em dez destas etapas, o relatório do comissário técnico responsável relata que, após vistoria, “todos os carros não estavam aptos a iniciar as atividades de pista, pois apresentavam algumas irregularidades que colocam em risco a segurança dos pilotos”. A exceção foi a oitava, disputada entre 3 e 5 de outubro, no Velocitta.
Todas as páginas em que tais informações constam nas pastas de prova são assinadas digitalmente por um comissário técnico e por quatro comissários desportivos. Matheus Fernandes Maziero e Thiago de Lima Bortolin se revezam no trabalho da parte técnica a cada etapa, enquanto a desportiva é dividida entre Roger Silvestro, Thiago Azalini, José Mario Santos do Amaral, Violeta Pernice e Bruno Fasterra também a cada prova.

Outro ponto foi que os testes do SNG01 no Instituto de Pesquisa e Tecnologia de São Paulo (IPT) não apresentaram resultados plenamente satisfatórios. O GRANDE PRÊMIO teve acesso a um documento, chamado ‘Análise Estrutural Experimental de Chassis de Veículo Stock Car’, datado de 11 de outubro de 2024, em que o objetivo foi o de avaliar a rigidez torcional do chassi e a segurança do piloto.
O relatório revelou que dois chassis foram disponibilizados para os testes, sendo que um deles “foi modificado com a soldagem de dois tubos de reforços após a execução de uma primeira bateria de ensaios de torção”. O documento mostra uma série de testes realizados, mas não há nenhuma menção ao chamado crash-test, os testes de impacto.
Na conclusão, o documento destacou a rigidez da gaiola, mas apontou que a estrutura não dissipa energia adequadamente, sugerindo a inclusão de novos elementos para essa função. O estudo também indicou que a maior parte da carga está concentrada em um único ponto, o que evidencia uma distribuição de esforços pouco eficiente.
A crise vivida pela categoria trouxe impactos financeiros e comerciais, e patrocinadores de peso, como Mobil e Ipiranga, deixaram o barco. Em meio aos inúmeros problemas relacionados à falta de confiabilidade do motor, a Stock Car já confirmou que os V8 voltarão em 2026. Por outro lado, nenhuma mudança em relação à segurança dos carros foi confirmada. Portanto, resta esperar para ver qual será o futuro da categoria em 2026.
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