A Fórmula 1 conta histórias próprias, cria misticismos autorais e lida com tabus difíceis de explicar. São coisas que atravessam anos, décadas e eras. Algumas histórias já foram contadas e jamais serão alteradas, mas outras acontecem agora, estão ativas e podem mudar. Uma delas será posta em xeque neste fim de semana, no GP do Azerbaijão: o estranho tabu envolvendo Charles Leclerc.
Pode parecer trivial para alguns e bizarro para outros, mas não deixa de ser curioso que todas as classificações de Leclerc pela Ferrari em Baku terminaram apenas de dois jeitos: com a pole-position ou num acidente. É obrigatoriamente uma coisa ou outra nas seis edições desde 2019 — em 2020, por conta da pandemia da covid-19, a etapa não foi realizada.
Leclerc iniciou a vida na F1 em 2018, defendendo a Alfa Romeo (Sauber), e impressionou. Bastou somente uma única temporada para encher os olhos da Ferrari que há tanto tempo o acompanhava, desde moleque, para fazer o movimento necessário e, na prática, trocar. Kimi Räikkönen foi para a Alfa, enquanto Charles ascendeu para ser companheiro de equipe de Sebastian Vettel em 2019.
Na primeira parte daquela temporada, embora a Mercedes tivesse o melhor carro do grid, o motor Ferrari impressionava. Logo na segunda prova da temporada, o jovem monegasco conquistou a primeira pole, no Bahrein. O GP do Azerbaijão, então realizado no início do campeonato, era a quarta prova. A Ferrari chegou com expectativas altas.
O que aconteceu, porém, foi totalmente diferente do que sonhava. Leclerc liderou o Q1 e seguia em frente animado com a possibilidade de nova pole. Na última volta rápida do Q2, bateu — e no mesmo trecho em que outro piloto, Robert Kubica, já havia se acidentado no Q1. A bandeira vermelha adiantou o fim do setor intermediário da atividade e colocou Charles no Q3, mas, como não andou, largou em nono. Avançou um pouco na corrida, mas o quinto lugar foi o máximo, enquanto Valtteri Bottas venceu pela Mercedes em dobradinha com Lewis Hamilton, e Vettel ficou em terceiro.

Após o cancelamento de 2020, a F1 retornou ao Circuito Urbano de Baku em 2021 — naquele ano, ainda a sexta etapa do Mundial. Em meio ao duelo já em curso entre Hamilton e Max Verstappen pelo título, roubou a cena no sábado. Já tinha conquistado a pole em Mônaco, na etapa anterior, mas repetiu o feito de maneira acachapante: 0s232 mais rápido que o segundo colocado, Hamilton, com Verstappen atrás.
A corrida foi um fuzuê. Quando parecia que Verstappen venceria, quase no fim da prova, o pneu estourou e jogou a Red Bull no muro. Houve longa parada até a relargada. Hamilton tentou aproveitar a bandeira verde, mas ficou preso na defesa de Sergio Pérez, travou o carro todo numa das curvas, saiu da pista e voltou em último — foi justamente aí que surgiu o apelido de ‘ministro da defesa’ para Pérez. Vitória para o mexicano, mas sem os postulantes ao título nos pontos. Mesmo assim, sem grande ritmo de corrida, Leclerc foi apenas o quarto colocado.
Em 2022, a corrida de Baku foi empurrada um pouco mais para trás, mas ainda era a oitava etapa da Fórmula 1. Sob novas regras naquele primeiro ano dos carros com efeito solo, a Ferrari deu a entender, ao menos nas primeiras corridas, que conseguia brigar com a Red Bull. Leclerc conquistara cinco poles nas primeiras sete oportunidades e repetiu o feito na sede azeri. Quase 0s3 de mais uma pole taxativa.
Logo na largada, no domingo, foi ultrapassado por Pérez. A Red Bull deu o bote com Verstappen também quando resolveu não parar numa intervenção de safety-car virtual (VSC) causada por Carlos Sainz, companheiro de Charles na Ferrari. Pouco depois, entretanto, a corrida de Leclerc chegou ao fim por conta de um problema no motor da Ferrari. Verstappen e Pérez garantiram dobradinha da Red Bull com George Russell em terceiro.

O tabu chegou ao auge em 2023, quando a prova voltou a ser a quarta do longo calendário. Na temporada que marcaria o tricampeonato de Verstappen, a prova azeri ganhou o direito de ser uma corrida sprint. E não é que Leclerc conquistou a pole tanto da sprint quanto da prova oficial? Por margens menores que nos anos anteriores, mas conseguiu. Com direito a uma batida para sacramentar a pole sprint! Batida sem tanta força, mas que rendeu bandeira amarela e evitou que alguém superasse o tempo anotado.
A prova curta ficou com Pérez, que usou a força da Red Bull em tempo hábil o suficiente para não desgastar demais os pneus e passou Leclerc. Verstappen não fez o mesmo e foi o terceiro. Já na prova principal, os dois passaram nas primeiras seis voltas. Pérez venceu de novo, mas com Verstappen em segundo e Leclerc completando o pódio.
Foi na temporada 2024 que o GP do Azerbaijão foi transferido para a segunda metade, como ainda funciona hoje. 17ª etapa daquele campeonato, pegou momento em que a ordem de forças já havia sido alterada, com Ferrari e especialmente a McLaren encostando na então toda-poderosa Red Bull. E não teve conversa: por mais de 0s3, Leclerc cravou a pole novamente: a quarta seguida, quinta se contar a classificação curta.
Foi a corrida em que mais passou perto de realmente vencer. Foram 20 voltas até ser ultrapassado por Oscar Piastri. Na realidade, o piloto da Ferrari parecia ter sido pego de surpresa pelo mergulho do rival. Mas Charles manteve Oscar perto e começou uma longa perseguição. Foram cerca de 25 voltas de ataque até Leclerc perder rendimento e acabar atacado por Sainz e Pérez atrás dele. Os dois terminaram se achando, batendo e deixando Leclerc em paz para a segunda posição. Piastri venceu e Russell completou o pódio.

A classificação de 2025 foi marcante pela insanidade: bateu o recorde histórico de bandeiras vermelhas, com cinco, e teve mais de duas horas de duração. Charles foi até o Q3, mas arrebentou o carro na mureta da curva 15 antes de gravar volta rápida — Piastri ainda bateria depois. Foi o fim da série de poles que durava desde 2021. Largou em décimo e subiu apenas para a nona posição na corrida, sem grandes emoções. Verstappen, Russell e Sainz formaram o pódio.
São seis anos, duas batidas e quatro poles — cinco se levar em conta a classificação sprint. Um tabu estranho, mas real para ser desafiado neste 2026.
A F1 volta à ação neste fim de semana, de 24 a 26 de setembro, com o GP do Azerbaijão. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da corrida em Baku AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
GP do Azerbaijão de F1: veja os horários no Brasil, Cabo Verde, Portugal, Angola e Moçambique:
Horários no Brasil*
Quinta-feira (24)
- Treino livre 1: 05:30
- Treino livre 2: 09:00
Sexta-feira (25)
- Treino livre 3: 05:30
- Classificação: 09:00
Sábado (26)
- Corrida: 08:00
Horários em Cabo Verde
Quinta-feira (24)
- Treino livre 1: 07:30
- Treino livre 2: 11:00
Sexta-feira (25)
- Treino livre 3: 07:30
- Classificação: 11:00
Sábado (26)
- Corrida: 10:00
Horários em Portugal e Angola
Quinta-feira (24)
- Treino livre 1: 09:30
- Treino livre 2: 13:00
Sexta-feira (25)
- Treino livre 3: 09:30
- Classificação: 13:00
Sábado (26)
- Corrida: 12:00
Horários em Moçambique
Quinta-feira (24)
- Treino livre 1: 10:30
- Treino livre 2: 14:00
Sexta-feira (25)
- Treino livre 3: 10:30
- Classificação: 14:00
Sábado (26)
- Corrida: 13:00
*Horários de Brasília