Andrea Kimi Antonelli é campeão mundial de F1. O italiano confirmou o título com o terceiro lugar no GP da Cidade do México e, aos 20 anos e 68 dias, se tornou o campeão mais jovem da história. A marca anterior era de Sebastian Vettel, e o representante da Mercedes a quebrou por uma margem de mais de três anos. Antonelli também encerrou o jejum da Itália, que não vencia com um piloto desde Alberto Ascari, em 1953.
20 anos e 68 dias não é pouco tempo, mas tanta coisa mudou desde então que parece estarmos falando do século passado. Quando Antonelli nasceu, em 25 de agosto de 2006, em Bolonha, ninguém pôde postar a foto do bebê no Instagram, que só surgiria em 2010. Para avisar os amigos, o jeito era deixar um scrap no Orkut ou mandar mensagem no MSN e torcer para o contato não estar “ausente”. O iPhone ainda não existia. Lula se reelegia presidente para o segundo mandato, Internacional e São Paulo disputavam títulos, enquanto Plutão deixava de ser planeta.
A F1 também era outra. Michael Schumacher ainda corria pela Ferrari, Fernando Alonso caminhava para o bicampeonato e os carros paravam nos boxes para encher o tanque. DRS? Ninguém tinha ouvido falar. A seguir, o GRANDE PRÊMIO relembra como era o mundo no ano em que o novo campeão nasceu.
Tanque cheio, pneu com sulco e nada de DRS
A F1 de 2026 discute gestão de energia, enquanto a de 2006 analisava quantos litros colocar no tanque. O reabastecimento, proibido a partir de 2010, decidia corridas, e muitas vezes a pole-position dizia mais sobre a quantidade de combustível do que sobre o piloto. Polêmico, o DRS só chegaria em 2011. Os carros usavam pneus com sulcos, obrigatórios desde 1998, com os slicks voltando somente em 2009.

Os motores V10 davam lugar aos V8 de 2.4 litros — a exceção era a Toro Rosso [atual Racing Bulls], autorizada a usar um V10 com giro limitado. A classificação estreava o formato com Q1, Q2 e Q3, uma das poucas coisas daquela época que sobreviveram até hoje. Nos pneus, Bridgestone e Michelin viviam a última temporada da guerra entre fornecedoras.
O grid era coisa de montadora: Renault, Ferrari, Honda, Toyota e BMW tinham equipe própria. A Mercedes, que hoje leva Antonelli ao título, era somente fornecedora de motores da McLaren — outra coisa que resiste nos dias atuais. Toro Rosso, Super Aguri e Midland, a antiga Jordan, completavam a lista de novidades.
Curioso é que a BMW tinha parceria com a Sauber, que recentemente foi comprada pela Audi. A Honda deixou a F1 para dar lugar à Brawn em 2009, que posteriormente foi adquirida pela Mercedes.
Alonso campeão, Schumacher se despede (pela primeira vez)

Fernando Alonso fechou o bicampeonato em Interlagos, e a Renault levou também o título de Construtores. O espanhol é o único piloto daquela época que continua na F1 e compete contra Antonelli, que nasceu meses antes do segundo título do atual representante da Aston Martin.
Foi também o ano da primeira aposentadoria de Schumacher, anunciada em Monza. No mesmo dia, a Ferrari confirmou outro Kimi, que não o Antonelli: Kimi Räikkönen deixou a McLaren para competir pelos italianos em 2007.
A despedida do alemão em Interlagos teve pneu furado, queda para o fim do pelotão e recuperação até o quarto lugar. A vitória ficou com Felipe Massa, primeiro brasileiro a vencer em casa desde Ayrton Senna, em 1993 — Massa também segue sendo o último, mas com o triunfo alcançado em 2008.

O brasileiro, aliás, tinha vencido pela primeira vez na F1 em agosto de 2006, na Turquia, dois dias depois do nascimento de Antonelli. Naquele ano, Jenson Button ganhou sua primeira corrida, na Hungria, Robert Kubica estreou e Juan Pablo Montoya largou a McLaren no meio do campeonato para correr na Nascar
Lewis Hamilton já batia na porta da F1 com o título da GP2, o último degrau nas categorias de base — na ocasião, correndo pela ART, que tinha Frédéric Vasseur como chefe. O vice foi Nelsinho Piquet.
Scrap, MSN e celular de flip

O brasileiro conectado em 2006 tinha perfil no Orkut, entrava no MSN para ver quem estava online e ouvia música no iPod. Celular bom tinha flip — aquele modelo de telefone com uma dobradiça que permite dobrar o aparelho ao meio. O iPhone só seria apresentado em janeiro de 2007, e WhatsApp e Instagram ainda não existiam.
O Facebook abriu o cadastro para qualquer pessoa em setembro. O Twitter foi criado em março. Em outubro, o Google pagou US$ 1,65 bilhão pelo YouTube em uma época em que o termo “redes sociais” não era tão difundido. No fim do ano, o Nintendo Wii e o PlayStation 3 chegaram às lojas.

No cinema, um dos sucessos do ano foi “Carros”, da Pixar, sobre um novato que sonhava com o título — veja só!
O Sistema Solar encolheu
O rebaixamento de Plutão carrega uma conexão quase cósmica com a chegada do novo campeão da F1. Exatamente um dia antes de Antonelli nascer, em 24 de agosto de 2006, a União Astronômica Internacional (IAU, International Astronomical Union em inglês) votou pela mudança de status do corpo celeste durante uma assembleia em Praga.
Descoberto em 1930 pelo americano Clyde Tombaugh, Plutão ocupou o posto de nono planeta do Sistema Solar por 76 anos, até esbarrar nas novas regras de classificação astronômica que exigiam a dominância gravitacional de sua órbita.
Como o astro divide seu espaço com milhares de outros objetos gelados no Cinturão de Kuiper e não tem massa suficiente para limpar sua vizinhança, acabou rebaixado para a recém-criada categoria de planeta-anão, juntando-se a nomes como Ceres, Éris e Makemake. Assim como a principal categoria do automobilismo mudou radicalmente seus regulamentos aerodinâmicos e de motores ao longo destas duas décadas, a ciência também seguiu reescrevendo algumas diretrizes.
Ano bom para nascer italiano
Antonelli escolheu um bom ano para nascer na Itália. Em fevereiro, Turim recebeu as Olimpíadas de Inverno. Em julho, a seleção ganhou a Copa do Mundo na final contra a França, aquela da cabeçada de Zidane em Materazzi, disputada na Alemanha. Cannavaro fechou o ano com a Bola de Ouro. Nem tudo foi festa: o Calciopoli mandou a Juventus para a Série B.
Aquela Copa do Mundo foi a última de nomes como Ronaldo, Ronaldinho, Cafu e Roberto Carlos, além de ter sido a primeira de Cristiano Ronaldo e Messi.
E no Brasil?

Lula foi reeleito no segundo turno contra Geraldo Alckmin, e Marcos Pontes virou o primeiro astronauta brasileiro. No futebol, o Internacional ganhou a Libertadores e o Mundial contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho, o São Paulo foi campeão brasileiro pela quarta vez e o Flamengo quebrava o jejum de 14 anos sem títulos nacionais na Copa do Brasil — tudo isso assistido na TV analógica, pois a digital só chegou no ano seguinte.
De 2006 para cá, quase tudo mudou. O Orkut acabou, o MSN foi desligado, o reabastecimento foi proibido e os V8 só não viraram peça de museu pelo ensejo do retorno sonoro. Plutão continua planeta-anão. E Alonso segue no grid — lutando com a Aston Martin —, mas vendo o título ir para um piloto que nasceu quando ele já era o dono do mundo na F1.