Publicado em 06/11/2026 às 19:49
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Rafael Câmara em sua estreia na F-1 (Foto: Rodrigo Berton/Agência WarmUp)
SÃO PAULO(ou Londres?) – O melhor tempo de Kimi Antonelli na sexta-feira de Interlagos coloca o italiano da Mercedes como favorito à pole-position para o GP de São Paulo amanhã e também à vitória do domingo. Isso se não chover. Mas deve chover. Por isso, o melhor a fazer depois dos dois treinos livres para a corrida é falar apenas deles, sem fazer muitas previsões.
Campeão no domingo no México, Kimi fez a volta mais rápida do dia em 1min10s763, superando o segundo colocado, Lando Norris, por 0s253. É uma diferença significativa numa pista curta com a de Interlagos, que tem tempos de volta muito próximos. O inglês da McLaren havia sido o melhor do primeiro treino, com Antonelli em segundo.
A equipe inglesa, que não dá o ar da graça desde as vitórias de Norris na Hungria e na Holanda, tende a andar bem em Interlagos. No ano passado em São Paulo, Lando fez duas poles, para a Sprint e para a prova principal, e ganhou ambas. Claro que a referência deve ser relativizada, já que os carros eram diferentes e o regulamento mudou muito. Mas faz algum sentido apostar num bom desempenho pelo próprio DNA papaia. Seus projetos costumam se dar bem em pistas com trechos travados de baixa velocidade, característica de um belo trecho do circuito paulistano – entre a descida do Lago e a curva da Junção.
Os tempos do segundo treino: Norris forte em 2º
Apenas sete carros andaram no mesmo segundo na segunda sessão. Charles Leclerc, o sétimo, ficou a 0s720 da marca de Antonelli. Max Verstappen foi o terceiro, bem perto de Norris, com George Russell em quarto. Este, em seu périplo de infortúnios, já sabe que perderá cinco posições no grid amanhã porque a Mercedes teve de trocar seu motor.
O dia teve também a presença de alguns novatos no primeiro treino, que acabou sendo menos relevante por conta do noviciado da garotada. Ferrari, Audi, Williams, Alpine, McLaren e Cadillac usaram seus reservas. De importante, apenas as 31 voltas completadas por Colton Herta, da Cadillac. Ele precisava de mais 100 km em um treino oficial para obter a superlicença, que lhe permitirá disputar o Mundial no ano que vem. É provável que o time dos EUA coloque o compatriota para correr no lugar de Valtteri Bottas.
Mas esse primeiro treino também marcou a estreia oficial de Rafael Câmara na categoria. Sem nunca ter pilotado o carro da Haas de 2026, nem ter andado em Interlagos com um carro de corrida, o novo brasileiro da F-1 completou 30 voltas e ficou na 18ª colocação com o tempo de 1min13s696 em sua melhor volta.
Na segunda sessão, Rafael deu mais 28 voltas, melhorou seu tempo para 1min12s561 e ficou em 16º. Seu companheiro Oliver Bearman foi o décimo, com 1min11s991. Câmara foi advertido pelos comissários esportivos porque atrapalhou Leclerc numa volta rápida, em situação de algum perigo. Ele estava lento na subida do Café e deslocou o carro para a direita para dar passagem ao monegasco, que foi pelo mesmo lado. Passou entre o carro de Rafael e o muro. Tomou um susto danado.
“Tem sido um fim de semana especial”, disse o piloto de 21 anos. “No primeiro treino foi emocionante quando saí dos boxes, com a intensidade da torcida na sua frente e tal. Mas depois que você começa a pilotar, as coisas voltam ao normal, porque é o que eu tenho feito a vida inteira.” O chefe Ayao Komatsu elogiou o pernambucano: “Os dois treinos foram bem sólidos. Ele lidou muito bem com uma situação difícil, essa de estrear logo em seu país. É um piloto muito calmo e profissional”.
Por ser uma corrida amistosa, uma vez que o título foi decidido por antecipação, todos estão bem relaxados em Interlagos. A prova tem muita importância para o estreante Câmara, claro, e para Liam Lawson, que está em processo de fritura e/ou renovação com a Racing Bulls. Ninguém consegue entender direito as intenções da equipe, que tem o hábito de trocar de pilotos com frequência. O neozelandês parece ser o mais tenso do paddock no fim de semana. “Não sei mais o que preciso fazer”, disse ele, que tem 83 pontos e é o nono colocado no campeonato, o “primeiro dos outros” — atrás apenas das duplas de Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull.
Gabriel Bortoleto no fog de Interlagos (Foto: Rodrigo Berton/Agência WarmUp)
O dia teve todo tipo de clima na região sul de São Paulo. O primeiro treino foi realizado com temperaturas na casa dos 25°C e sol. O segundo, com termômetros marcando 19°C. Na segunda metade da sessão, baixou uma neblina braba sobre o autódromo, um fog londrino que impedia quem estava de um lado da pista enxergar os carros a distância. Mas não atrapalhou em nada.
Segundo a meteorologia, o dia será mais quente amanhã. E é esse calor esperado que pode chamar a chuva. O terceiro treino livre está marcado para as 11h30 e a classificação começa às 15h.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.