
SÃO PAULO (deu tempo) – Hoje faz 25 anos do segundo título de Senna. Faz 25 anos do acidente com Prost. Daquilo que muita gente chama de vingança pelo que aconteceu em 1989. Daquilo que muita gente acha que foi apenas uma manobra suja do brasileiro.
Mas faz 25 anos da última dobradinha brasileira na F-1, e essa é minha lembrança mais doce daquele fim de semana enquanto estava diante da TV. Mais do que a conquista de Senna — que acabaria vindo na Austrália, se não fosse a batida na primeira curva. Piquet e Moreno no pódio foi o mais bacana daquela corrida. E um japonês, Aguri Suzuki, em terceiro, foi o pepino no sushi daquela madrugada.
Foi bacana pelo choro de Moreno. Nunca mais ele teria essa chance, mas suas lágrimas valeram por dezenas de troféus.
Foi bacana pelo sorriso aberto de Piquet. Mais duas viriam: na corrida seguinte, na Austrália, e no Canadá, dali a menos de um ano. E nunca mais, também.
Mas ver a dupla da Camber lá no alto foi sensacional. A comemorar um título conquistado de forma controversa, achei na época que os torcedores brasileiros deveriam era festejar o 1-2 de Nelson & Roberto — essa história, com entrevistas de Piquet e Moreno, está no excepcional texto do Fernando Silva hoje no Grande Prêmio.
[bannergoogle] Isso é o que lembro da madrugada. Algumas horas depois estava na redação da Barão de Limeira para fechar a edição que teria nada menos do que 20 páginas, e aí esquece dobradinha, esquece Senna, esquece tudo. Precisava fechar o jornal. Alguém consegue imaginar um caderno de esportes com 20 páginas hoje? Pois era o que tínhamos, com uma de anúncio na contracapa — da Marlboro.
Foram 13 só sobre a corrida e a conquista do título. Eu era editor de Esporte, na época. Nosso titular de F-1, Mario Andrada e Silva, fez seus textos de Paris, onde morava. Por razões de economia (ano do Plano Collor, vocês não fazem ideia do que é crise…), em vez de mandá-lo da França para o Japão, a “Folha” preferiu antecipar a viagem de Fernando Rodrigues, que passaria a ser o correspondente do jornal em Tóquio. Creio que foi sua primeira cobertura do outro lado do mundo. De Narita para Suzuka, sem nunca ter feito um GP na vida.
Mas Fernando é bom jornalista, e a orientação que dei a ele foi: pegue a coletiva do Senna na íntegra. Se der tempo, faz mais alguma coisa. Mas quero cada palavra que o cara disser. E foi o que ele fez. Eu mesmo escrevi um texto pequeno, porque o trabalho de fechamento da edição era monumental. Inclusive defendi Senna, nesse pequeno artigo. Considerei que Prost, se quisesse, poderia ter evitado a batida. Hoje penso diferente, depois de ver a imagem um milhão de vezes.
Desse domingo maluco, lembro também que mandaram para fechar nosso caderno uma diagramadora que estava em sua primeira semana de jornal. Ela era ótima, uma graça, tímida, magrinha, cabelo curtinho, tinha noção das coisas, mas caiu numa fogueira insana. Resolvi fazer uma página dupla só de fotos e legendas bem elaboradas. Escolhi 18 imagens. Naqueles tempos, era preciso pegar a foto original, determinar o corte, calcular a proporção e enviar para sei lá onde para que ela fosse ampliada exatamente no tamanho pedido pelo diagramador.
Às vezes dava erro, na correria do fechamento. Fui inventar aquela dupla e a menina, coitada, enlouqueceu. Isso atrasou um pouco nosso trabalho. Deixei meus editores-assistentes fechando as páginas menos complicadas e fui cuidar pessoalmente daquela maluquice. Tínhamos um horário muito rígido para fechar o jornal, determinado pelo setor industrial — tem hora para a página “descer” para o paste-up (no caso era descer mesmo, para o terceiro andar), para ser montada, para passar pelo secretário-gráfico (que checava títulos, legendas, numeração, fotos) e ser liberada por ele até, finalmente, ser enviada para a impressão. Tem hora para tudo, porque há um tempo necessário para rodar, dobrar, empacotar e enfiar nos caminhões, Kombis e aviões.
Eu estava atrasado, de pé do lado dela, quando ouço uma voz baixa às minhas costas. Flavio, vai demorar? Porque já estouramos o fechamento, acho que está atrasado…, disse a voz. Eu nem me virei, levantei os braços e respondi, porra, são 18 fotos, a menina está fazendo tudo que pode, eu estou fazendo tudo que posso, uma hora fecha, me deixa trabalhar em paz! A voz, ainda baixa, respondeu que OK, faça o possível para não atrasar muito, e quando fui ver quem era aquela voz, era Otavio Frias Filho, o Otavinho, dono da “Folha” — era domingo, regime de plantão, e na escala daquele fim de semana foi ele o responsável pela Primeira Página e pelo fechamento do jornal. Não perdi a pose, mantive a voz firme e disse: fica tranquilo, estamos quase acabando, vai dar tudo certo, muito obrigado pela preocupação, e saiba que existe uma única verdade no jornalismo. Fiz uma pausa, ele me olhou meio espantado e curioso sobre aquela revelação extraordinária, e eu disse qual era a única verdade: sempre fecha.
Sendo bem honesto, é do que mais me lembro daquele domingo, 21 de outubro de 1990.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.