SÃO PAULO (olha o sol aí!) – Bem, vamos olhar para o lado positivo das coisas. Foi uma corrida legal, taticamente, com três “players”, como gostam de dizer aqui na comunidade. A saber, Vettel, Webber e Grosjean. A Red Bull saiu com possibilidade de usar duas táticas diferentes para seus pilotos. Tião para duas paradas, adiando ao máximo a segunda — claro que isso dependeria das circunstâncias da prova. Nosso hoje sorridente Canguru para três, para tentar um sprint final com pneus médios. Mas também dependia das circunstâncias. Se fosse possível, terminaria a corrida com dois, mesmo. E Grojã com dois pit stops previstos, numa estratégia mais convencional, que começou a funcionar com uma excepcional largada, mas não resistiu no final.
Vettel ganhou. Numerinhos: quinta seguida, nona no ano, 35ª na carreira. Palmas para ele, que ele merece. Abriu 90 pontos de Alonso, 297 a 207, e para ser campeão na Índia não precisa de muita coisa. Se chegar na frente do espanhol, babau. Se Alonso vencer ou chegar em segundo, façam as contas. Que são desnecessárias, a essa altura do campeonato. O tetra cantado há séculos é só uma questão de tempo.
Não viu a corrida?
Foi assim.
Grojã pulou de quarto para primeiro na primeira curva. Para variar, Webber não largou bem. Vettel, mais ou menos. Fechou a primeira volta em terceiro, seguido por Rosberguinho, Massa e Alonso. Hamilton rasgou um pneu na asa de Sebastian, o carro ficou todo detonado e ele acabou abandonando na nona volta. Massa e Alonso era algo interessante. O brasileiro iria abrir para o futuro ex-companheiro? Não abriu. Teve um rádio estranho da Ferrari, “strategy A, now, please”, foi o que ouvi. O “now” demorou. Só na 20ª volta Fernandinho deixou Felipe para trás. Depois da prova, Massa disse que não obedeceu a ordem dada várias voltas antes.
Agora é tarde para insubordinações, eu diria.
Mas, cá entre nós, ali não valia muita coisa. Voltemos aos “players”, então.
Webber foi o primeiro dos três a parar, na volta 12. Grosjean, na 13. Vettel, na 15. Noves fora, tudo igual depois da primeira janela, exceção feita a Hülkenberg, que ganhou as posições dos dois ferraristas e apareceu em sexto.
O melhor momento da corrida, no segundo escalão, aconteceu aí. Da 20ª à 24ª volta, depois que Alonso passou Massa, um trenzinho puxado pelos dois vermelhos trouxe para a festa Guti-Guti, Raikkonen, Pérez e Rosberguinho, que pagara um drive-through porque a Mercedes o liberou de um pit stop de forma, hum, um tanto precipitada. Quase bateu no mexicano maclariano nos boxes, possibilidade de uma merda federal. Um pouco mais à frente de todos, o incrível Hulk. Passa daqui, passa dali, as coisas se acomodaram.
Voltemos aos “players” (estou odiando essas aspas; serão eliminadas na próxima utilização do termo coxinha). Na volta 26, o marsupial rubrotaurino para de novo. Sai dos boxes em terceiro, a 15s de Grojã. Opa. Aí tem. Parou muito cedo. Não aguenta até o fim, óbvio. Vai para três paradas. Pode dar certo. O final vai ser alucinante, pensei cá com os botões do meu pijama.
Grojã começa a perder rendimento. Vettel vai chegando. Box para a Lotus, na 30ª volta. Webber passa, claro. Fica em segundo. Mas terá de parar de novo. Aí neguinho começa a fazer contas. Quando o Vettel parar, Grojã volta a ficar na frente dele, certo? Certo. Então, para logo, rapaz.
E foi aí que Tiãozinho deu o pulo do gato. Foi esticando o stint, esticando, esticando, até a volta 38. Voltaria atrás, sim. Dos dois, Webber e Grosjean. Mas o primeiro teria de parar de novo. E o segundo teria pneus oito voltas mais velhos. Não demorou muito para a estratégia se pagar. Na volta 41, Sebastian foi para cima de Romain e passou sem grande dificuldade. Webber estava 15s à frente. Com aqueles pneus trocados na volta 26, não terminaria a corrida nem por decreto papal. Parou na 43, calçou médios e teríamos, pois, dez voltas beleza pura, com o australiano voando para alcançar os dois. Vettel liderava, 3s3 à frente de Grosjean, que tinha 4s7 para Markão.
Mas não deu para ele. Porque quando nosso querido canguru finalmente chegou no francês da Lotus, na volta 47, tentou e não passou. Na seguinte, de novo. Na outra, necas. Mais uma, e picas. Com isso, Vettel abria mais de 7s para a dupla que andava coladinha. Webber só foi passar Grosjean na 52ª, e aí Inês era morta.
E assim nossos players foram para o pódio nessa ordem: Vettel, Webber (a 7s129) e Grosjean. Os coadjuvantes da brincadeira se divertiram, até. Nas últimas voltas, Alonso e Raikkonen passaram Hülkenberg, que chegou em sexto — mais um grande resultado, que só melhora sua posição na briga por uma vaga na Lotus. Gutiérrez segurou bem Rosberg e foi o sétimo, marcando seus primeiros pontos na F-1. Depois do alemão da Mercedes veio Button, que na última volta passou Massa, que tinha despencado depois de um drive-through por excesso de velocidade nos boxes.
E foi assim. Quem aguentou a madrugada viu um bom GP em Suzuka. O público no autódromo, enorme, também gostou. Eu gostei mais ou menos, queria ver o pobre Webber ganhando uma.
Não houve hostilidades entre os mecânicos de Tião e os do Canguru, porém. Foram vistos comemorando a dobradinha depois da corrida, brindando com cerveja quente e energéticos gelados. Parece que só tinha uma geladeira, e essa ficou para a turma do tetracampeão. Que não bebem, não fumam e não fazem sexo. Todos engomadinhos. Mas não dá para negar. Sabem como ganhar títulos.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.