SÃO PAULO (vai apertar) – Quando o azar vem, vem de baciada. É um velho ditado lituano. Alonso quase teve a cabeça arrancada por Grosjean na Bélgica. Em Monza, ontem, teve problema de motor, câmbio, freio, faróis, má sintonia de FM, carburador, bobinas, platinados, condensadores, biela e, na hora do almoço, a pasta veio grudenta e o expresso sem espuminha. Hoje, quebrou uma barra estabilizadora.
Resultado: décimo pro espanhol no grid. A primeira parte do plano, marcar Vettel de perto, já deu errado. O alemão vai largar em sexto.
Mas não é com ele que o ferrarista tem de se preocupar daqui até o fim da temporada. É com a McLaren, que voltou a ser dominante, como nas primeiras corridas do ano — período mal aproveitado, diga-se. Hamilton fez a pole de novo. Quarta no ano, terceira seguida da McLaren, 23ª de sua carreira. Com mais uma, empata com Piquet e entra nas dez mais da Bandeirantes.
Pelo andar da carruagem, a Red Bull ameaça menos que a McLaren. A equipe tem tido um desempenho muito irregular neste ano. Webber, por exemplo, fez o 11° tempo e nem passou para o Q3. E ninguém ficou boquiaberto por isso. Para Fernandinho, o negócio amanhã é marcar alguns pontos e voltar para casa com o rabinho entre as pernas. Não é seu fim de semana.
Mas ele pode reagir, claro. A Ferrari não está exatamente mal em Monza. Ao contrário. O carro é rápido, como mostrou o próprio Alonso nos treinos livres e como comprovou Massa na classificação: terceiro no grid, sua melhor posição desde o GP do Canadá do ano passado, onde também largou na posição ímpar da segunda fila (o que a gente não faz para não repetir palavras numa frase…). Portanto, para El Fodón de Las Asturias, a chave é fugir de confusão na primeira volta e deixar a vida levá-lo.
O sábado de sol e calor em Monza fez a primeira vítima no Q1. O pobre Hülkenberg, bem na semana em que foi escalado para a Ferrari e para a McLaren para 2013, teve problemas na bomba de gasolina e larga em último. Foi ótimo para todos, já que as outras seis vagas da degola, quase sempre nessa ordem, pertencem aos dois caterhânicos, aos dois marússicos e aos dois hispânicos. Alonso foi o mais rápido na abertura dos trabalhos com uma excelente volta em 1min24s175, que lhe daria o terceiro lugar no grid se fosse obtida no Q3. Como é a natureza, diria aquele lá.
No Q2, Tião alemão passou raspando e o supracitado Canguru Desolado ficou. Como ficaram Maldanado (que de 12° cairá para 22° pelas punições de Spa), Chapolin, Senninha, Ricardão, Ambrosina (fez a dele, não se pode esperar milagre em estreia) e Verme. Mais ou menos tudo normal, com alguns traços de equilíbrio. Alonso foi o melhor de novo, estava todo animadinho, e dele até o décimo, Raikkonen, a diferença foi de apenas 0s5. Para Bruno, o 14°, 0s8. Como é a natureza, concordaria o outro acolá.
E no Q3, quando a porca torce o rabo e a onça bebe água, Alonso começou mal e teve algum problema na primeira tentativa. Foi para uma segunda volta com o mesmo pneu, mas abortou. Algo estava errado no seu carro. Aí Hamilton cravou 1min24s010 para ninguém chegar perto. Pole garantida. Resta Um, Massacrado e Bonittão se alternaram no segundo lugar, que terminou com o inglês. O escocês forceíndico fez um ótimo sábado, quarto tempo, mas cai para nono porque trocou o câmbio.
Ao fim e ao cabo, primeira fila da McLaren, Felipe e Matusalém na segunda, Tião em quinto no grid ao lado de Rosberguinho, Raikkonen em sétimo, Koba-Mito em oitavo, e, na quinta fila, Di Resta e Alonso, que ficou a 1s668 da pole. A pé seria mais rápido.
Ano passado, Vettel venceu com duas paradas. A Pirelli acha que dá para fazer só uma amanhã, e acho que será a escolha da maioria. Largar na pole em Monza tem sido ótimo de uns tempos para cá. Nas últimas 12 edições do GP itálico, nove vencedores saíram da posição de honra do grid (o que a gente não faz para não repetir palavra em frases próximas…). Não que seja difícil passar. É bico, até, com enormes retas, vácuo, asa móvel, KERS, vento de través e algumas orações. Mas é que numa pista sem grandes segredos ou necessidade de acertos mirabolantes, aquele que anda mais rápido no sábado, em geral, vai ser o mais rápido do domingo também em condição de corrida. Parece o óbvio ululante, mas não é. Em certos circuitos, nem sempre o carro mais rápido do sábado é o mais eficiente do domingo. Em Monza, é.
O mais provável amanhã é que a temporada europeia se encerre com Alonso mais pressionado na classificação, tanto por Vettel quanto por Hamilton. E ainda teremos sete provas pela frente. Fernandito tem um monte de franco-atiradores em seu encalço. Muita calma nessa hora deve ser o mote da Ferrari. Alonso disse que a pole “estava fácil”, não fosse o problema que teve. Está confiante para a corrida. Veremos.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.