A pole-position de Lando Norris foi daquelas surpresas que só uma pista tão excêntrica quanto essa de Madri poderia proporcionar. Afinal, um traçado novo e traiçoeiro, combinado a um asfalto particularmente liso, sempre premia o caos e a ousadia, e a McLaren soube como se transformar ao longo da classificação. Foi uma construção gradativa e que culminou com uma voltaça nos instantes finais — um giro, aliás, que poderia ter sido ainda melhor. Mas o fato é: a posição de honra do grid colocou o inglês na briga pela vitória e reequilibrou o jogo contra a Mercedes, puxando também a Red Bull e a Ferrari para a disputa em um cenário ainda muito imprevisível na Espanha.
Mas antes de traçar qualquer previsão sobre a corrida, é importante entender como a McLaren e Norris surgiram à frente, sendo que em nenhum momento pareceu que os papaias tinham nas mãos um carro competitivo, muito embora o circuito espanhol apresente trechos que agradam demais ao MCL40. É que a equipe perdeu um tempo precioso na sexta-feira, quando Norris ficou fora do TL2 por conta de uma falha da caixa de câmbio. Neste sábado (12), o TL3 também ficou parado por mais de 30 minutos, então as referências estavam limitadas. O único denominador comum eram a queda de performance nas curvas de baixa velocidade, as dificuldades em atacar as zebras e um certo desequilíbrio em relação aos pneus. Só que de algum jeito os engenheiros de Andrea Stella entenderam como responder a esses problemas, sem comprometer o desempenho nos trechos mais rápidos e nas curvas de alta velocidade — os pontos mais fortes do carro laranja em 2026.
Após a classificação, Stella falou sobre as mudanças e como o time reagiu ao longo das fases da sessão que definiu as colocações de largada, porque é interessante perceber que, em nenhuma hora, Norris ou Oscar Piastri se apresentaram como candidatos à pole. O britânico, por exemplo, terminou o Q1 em quinto, a quase 0s3 do então líder George Russell. Já na parte intermediária, Lando foi apenas o sétimo, com uma desvantagem ainda maior para Max Verstappen, o mais rápido daquele trecho. E não pareceu forte nem mesmo na primeira tentativa do Q3. “Percebemos que o carro era naturalmente rápido em alguns trechos de alta velocidade e com bom fluxo no início do fim de semana, mas em baixa velocidade os pilotos não tinham confiança para frear e entrar nas curvas. Por isso, aprimoramos o acerto e a pilotagem para dar a eles mais confiança, a ponto de terminarmos a classificação com o melhor primeiro setor”, explicou o chefão da McLaren.
Realmente, Norris foi capaz de interpretar melhor as alterações todas a ponto de tirar mais de 0s7 na volta final, que só não foi perfeita porque ele perdeu cerca de 0s3 na última curva, quando deu uma escapada de leve. Mesmo assim, Lando passou 0s011 melhor que Antonelli na linha chegada, assegurando a terceira pole da temporada e a décima da carreira. “Não sei o quanto perdi na última curva, mas felizmente faltava pouco para a linha de chegada!”, celebrou o piloto do carro #1.
“Foi uma volta muito boa. Melhorei sete décimos e meio na minha última passagem em comparação com a minha primeira tentativa no Q3. Essa volta foi algo que eu nunca tinha experimentado ou sentido antes. Certamente uma das minhas melhores — comparável à de Mônaco no ano passado, talvez à de Austin alguns anos atrás. Foi ótima, especialmente porque estávamos muito atrás — meio segundo do ritmo”, reconheceu o atual campeão.
“Conseguir tudo isso, e muito mais, em uma única volta foi algo realmente especial. Mas agora preciso fazer minha lição de casa hoje à noite. Estou em desvantagem em relação ao consumo de combustível. Não fiz nenhuma. Não é a situação ideal, mas me dei a melhor chance possível e vamos nos preparar da melhor maneira possível”, completou.

Norris não está errado. De fato, foi uma volta sensacional, tentando explorar ao máximo aquilo que a McLaren tem de melhor e é igualmente certo dizer que a pole também abre uma oportunidade importante de lutar pela vitória, apesar da ausência de dados concretos sobre o ritmo de corrida e o desgaste de pneus. “Por sorte, não é a melhor pista para ultrapassar, então vamos nos concentrar em uma boa largada, uma boa primeira volta e ver o que podemos fazer.”
A questão envolvendo as ultrapassagens é real. A natureza do Madring expõe muito bem essa dificuldade, porque a pista é estreita, sinuosa e tem pouquíssimos pontos para tentar uma manobra mais arriscada, daí a importância de uma boa largada. Uma vez à frente, o líder vai segurar a narrativa e as estratégias. E terá também a chance de reagir melhor às eventuais intervenções por carro de segurança ou até mesmo a bandeiras vermelhas. Nunca é demais lembrar: os muros estão muito próximos e os trechos rápidos são especialmente tentadores. Por isso, o GP da Espanha sustenta essa sensação de imprevisibilidade.
O outro lado dessa história é mais técnico. Parece existir um equilíbrio de desempenho entre as quatro principais equipes, que ficaram separadas por menos de 0s2. A Mercedes continua forte, mesmo tendo perdido a pole. Antonelli se mostrou muito à vontade na pista madrilenha e o segundo lugar não parece tão ruim, até mesmo pela distância para a primeira freada. A agressividade do líder do campeonato não pode nunca ser descartada da equação, como se viu na semana passada em Monza.
Logo atrás do italiano está Verstappen em uma Red Bull competitiva e bem acertada. E aí surgem os dois carros da Ferrari, com Lewis Hamilton à frente de Charles Leclerc, em quarto e quinto. Então, é possível dizer que o triunfo segue em aberto. E talvez o pulo do gato esteja mesmo nas opções estratégias, além de uma leitura de corrida apurada.

Essencial colocar aqui que Verstappen e a dupla ferrarista guardaram um jogo novo de pneus macios, e isso pode fazer diferença em uma corrida eventualmente acidentada. De acordo com a Pirelli, em condições normais, a etapa em Madri deve ser decidida por uma única parada — principalmente por causa do tempo perdido nos boxes, algo em torno de 25s. Mas há também uma preocupação grande com relação ao desgaste dos pneus, levando em consideração as altas temperaturas e os níveis de aderência do asfalto espanhol. “O cenário para domingo permanece muito indefinido”, admitiu o chefe da fornecedora italiana, Dario Marrafuschi.
“A estratégia de uma parada parece ser a escolha mais natural no momento, dada a dificuldade de ultrapassagem e o tempo perdido nos boxes. No entanto, a opção de dois pit-stops ainda pode se mostrar competitiva se a degradação dos pneus permanecer nos níveis observados na sexta-feira. As escolhas mais prováveis giram em torno das combinações médio-duro e médio-duro-duro. Estima-se que as alternativas macio-duro e macio-duro-duro sejam cerca de dois segundos mais lentas em distâncias de corrida. O C2 (duro) é, sem dúvida, o composto mais consistente, e a maioria dos pilotos manteve ambos os jogos justamente por esse motivo.”
Portanto, parece ser muito como Russell resumiu: “Ou será uma procissão ou um caos completo.”
O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do GP da Espanha, 14ª etapa da temporada 2026, AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar o que aconteceu após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV. Além disso, o GP está in loco em Madri com o repórter Leonid Kliuev.
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