Acabou o mistério para entender como seria uma corrida na pista peculiar estabelecida como nova casa do GP da Espanha, nas ruas de Madri. Neste domingo (13), durante aparentemente inacabáveis 53 voltas, os pilotos desfilaram por um traçado onde ultrapassar é feito hercúleo. Nem mesmo os problemas imaginados apareceram. O Madring chegou para ficar, mas se acostumar não quer dizer normalizar.
Fora a pista, Andrea Kimi Antonelli venceu novamente: a oitava conquista em 13 provas. Diferente do que se viu no GP da Itália, porém, uma corrida opaca, sem qualquer brilho e em nível de pilotagem abaixo até mesmo dos rivais. Valeu a boa classificação e o azar notável que caiu sobre Lando Norris e custou a vitória para a McLaren.
No pelotão intermediário, Franco Colapinto levou a melhor sobre Arvid Lindblad e até a Audi conseguiu descolar um pontinho com Nico Hülkenberg. Gabriel Bortoleto foi outro que acabou pego no contrapé pelo timing do problema que mudou a história da prova em comparação à estratégia que tinha.
O GRANDE PRÊMIO destaca cinco coisas que aprendemos com o GP da Espanha.
A Fórmula 1 retorna em duas semanas, entre os dias 25 e 27 de setembro, com o GP do Azerbaijão, na capital Baku.

Veredito: 10 anos é uma eternidade
A sensação de mistério por tudo que o novíssimo Madring podia oferecer, pelo fato de ser uma pista desconhecida e peculiar, rendeu dois dias bem divertidos na sexta-feira e no sábado. Infelizmente para todo mundo que tanto se esforçou para o circuito urbano de Madri se tornar casa do GP da Espanha — e para o público! —, tinha ainda o domingo pela frente.
Absolutamente tudo que podia transformar a corrida em algo divertido e diferente não aconteceu. “Teremos acidentes”, não tivemos; “o safety-car vai entrar tanto que deixa a corrida confusa”, não entrou; “o desgaste promete ser alto e criar alternativas estratégicas”, não foi; “os pilotos vão errar muito”, até erraram, mas não o suficiente para mudar qualquer coisa. No fim, o único elemento que de fato mudou os rumos da corrida foi uma falha de freios, nada a ver com a pista, de Lance Stroll, e a decisão de acionar o botar do VSC (safety-car virtual). Era necessário mesmo, uma vez que Stroll não bateu e não ficou parado na pista? E retirar o VSC, tinha de ser naquele momento, visto a distorção que criou?
Não fosse por isso, a corrida teria sido um mar de nada. Em outros anos, não há dúvida, gente vai bater e a corrida será caótica. É da natureza dessa pista esquisitíssima. Se não for por motivo assim, porém, a corrida será um profundo oceano de coisa alguma. E são dez anos de contrato… Uma década inteira!

Red Bull foi conservadora demais
O ataque de Lewis Hamilton na primeira curva fez Max Verstappen, na tentativa de se defender, sair da pista. O tetracampeão jurou que, caso não fosse assim, os dois teriam abandonado a corrida, o que pareceu um exagero. Mas o lance está bem no limiar do que é permitido. Talvez rendesse uma punição, mas talvez não. Fato é que a Red Bull temeu demais e pediu, mais ou menos duas voltas depois, que o piloto devolvesse a posição. O problema é que, nesse ínterim, Andrea Kimi Antonelli errou também e abriu caminho para Max passar. Quando teve de devolver, praticamente parou na pista para permitir que dois pilotos passassem por ele.
A posição perdida para Hamilton recuperou quando o rival abandonou com problemas, mas nunca mais viu a de Antonelli. Na largada, tudo isso valia um segundo lugar, porque Lando Norris liderava tranquilo. A questão é que as circunstâncias da corrida — e muito azar — tiraram Norris de lá. Verstappen podia ter vencido a corrida. Podia também ter perdido uma posição em relação ao segundo posto com o qual terminou a prova. A Red Bull não sabia o que viria depois, é evidente, mas a cautela numa temporada em que não briga por grande coisa no campeonato e ainda nem venceu uma prova foi além da conta.

A vitória que deveria ter sido
O grande nome do fim de semana foi Norris, que não venceu a prova por culpa em larga escala das circunstâncias de corrida e uma decisão no mínimo contestável da McLaren. Tudo isso é normal nas corridas e não é necessário criar um cenário de exceção para a derrota, mas é bom primeiro reconhecer o rendimento de classificação e corrida. Sem ceder na largada como tantas vezes antes, fechou rapidamente o caminho para manter a dianteira e caminhava para uma vitória tranquila, abrindo para o pelotão, até o lance que mudou tudo. Quando voltou depois da parada, continuou o piloto mais rápido da pista e até chegou para tentar o ataque a Verstappen perto do fim. O terceiro lugar terminou sendo o que dava.
Chama a atenção como a McLaren se mostra envolvida em situações assim. É verdade que a primeira parte do acontecido foi um azar retumbante: a direção de prova transformou a bandeira amarela em VSC assim que o líder da corrida passou pela entrada do pit-lane. E tirou uma volta depois, quando a equipe se animava para parar. Mesmo com o retorno normal da corrida, parou Norris, que perdeu posições. É verdade que, sem novas intervenções do safety-car, Norris teria perdido de qualquer jeito, mas, assim como no caso da Red Bull com Verstappen, eles não preveem o futuro. A única chance de vencer ficou por terra.

Antonelli teve o pior rendimento em vitórias
Para quem viu a largada, a sensação era que Andrea Kimi Antonelli não faria nenhuma curva. Pelas duas primeiras, passou direto e só não perdeu definitivamente a posição para Verstappen por conta de decisão da própria Red Bull. Foi o destino que tratou de tirar Norris da frente, algo que não dava a menor pinta de que conseguiria fazer. “Vencer é sempre bom, mas a sensação não é tão boa. Lando merecer a vitória”, admitiu Kimi logo após a corrida.
Mesmo depois do resultado cair no colo, escapou para um lado ou para outro uma porção de vezes e só conseguiu realmente cortar a desvantagem para Leclerc quando os pneus do rival ferrarista se aproximaram de 45 voltas — Leclerc, é verdade, nunca foi ameaça apesar de passar tanto tempo na frente. Uma vitória é sempre uma vitória, mas Antonelli errou mais do que o recomendado numa pista assim. Levou a melhor com muito mais sorte que juízo.

Vitória enorme da Alpine
Quando começou o fim de semana, a discussão no pelotão intermediário era o quanto a Racing Bulls podia ganhar da Alpine pensando na classificação do campeonato. A sensação era de condições de efetivamente acabar com a briga pelo quinto lugar do Mundial de Construtores. Mas a história foi outra, porque já a partir do sábado a equipe anglo-francesa se recuperou.
Sejamos justos: Franco Colapinto recuperou a Alpine. Uma grande classificação, ótima largada e inteligência para usar os ombros da pista a seu favor e conter os ataques de Oscar Piastri fizeram com que garantisse o sétimo lugar. Assim como o companheiro Pierre Gasly fizera em Monza, foi o melhor do resto e manteve a Racing Bulls pontuando menos. É esse o Colapinto que teve contrato renovado.