Hamilton na pole: nem ele acreditou

SÃO PAULO (gostamos) – A ATA bagunçou as coisas. Lewis Hamilton fez a pole-position para o GP da Hungria, quebrando um jejum de 33 corridas sem largar em primeiro no grid – a última tinha sido na Arábia Saudita em 2021. Foi a 104ª pole da carreira do inglês da Mercedes, nona em Budapeste. Uma maluquice total.

Hamilton fez a pole com 1min16s609, apenas 0s003 à frente de Max Verstappen, o segundo no grid. No momento em que este texto é concluído, o heptacampeão mundial está agradecendo a turma do almoxarifado da Mercedes. Já passou pela engenharia, TI, marketing e faxina. Faltam o pessoal da segurança e dos recursos humanos. E de outros departamentos.

Lewis interrompeu uma sequência de cinco poles seguidas do holandês da Red Bull. Foi uma gigantesca surpresa. E uma boa história a ser contada deste sábado quente e ensolarado de Hungaroring.

A ela, pois.

Alfa Romeo lá em cima: outra surpresa

Nem todo mundo gosta de pneus duros, mas pelas cláusulas pétreas da ATA era esse no Q1 e pronto. Quem quisesse reclamar que mandasse um e-mail para sac@fia.com. A partir de segunda-feira, às 9h, quando abre o setor. Tempos altos de cara, 1min19s292 de Pérez foi a primeira volta anotada, sem que batesse em nada, o que não deixa de ser algo remarkable, como se diz. Mas não durou muito. Bottas fez 1min18s818, mostrando que o caos se instalou com a nova regra dos pneus.

Verstappen deu o ar da graça a 8min do fim do Q1, ele que vinha registrando tempos discretíssimos nos treinos livres. Fez 1min18s658, pulando para a primeira colocação. Mas não se desenhava nenhum massacre como nas etapas anteriores. Em vez disso, zebras saltitavam alegremente nas primeiras posições, como Gasly, Tsunoda e o já mencionado Bottas. Depois apareceu Zhou em primeiro, com 1min18s143. Ninguém entendia nada. A única forma de compreender as possíveis surpresas era a obrigatoriedade de uso de pneus duros. Era a ATA.

“Ah, tá…”, dirá alguém sem entender nada, mas fingindo entender tudo.

Drama no Q1: no fim, tudo certo para Hamilton

O drama dos últimos instantes do Q1 era de Hamilton, que tinha sido o mais rápido no último treino livre e a segundos da quadriculada estava fora do grupo que avançaria ao Q2. Russell também. Na bacia das almas, Lewis passou. George, não. Foram eliminados, pela ordem, Albon, Tsunoda, Russell, Magnussen e Sargeant. Toto Wolff, nos boxes da Mercedes, ensaiou arrebentar um fone de ouvido. Mas se lembrou do teto de gastos. O valor do fone é o suficiente para comprar quatro parafusos e seis arruelas. “Melhor não”, alertou um auxiliar a seu lado. “Podemos precisar lá na frente.” “Mas George largou na pole aqui no ano passado, isso é inaceitável!”, bradou o chefe. “Não se aferre ao passado, Toto”, respondeu o auxiliar, única voz lúcida naquela balbúrdia. “E sempre há Lewis”, concluiu, profético.

Zhou em primeiro no Q1, que fique para os anais.

Ricciardo 1 x 0 Tsunoda, que fique para os anais.

Haas entre os dez primeiros: outra surpresa do dia

Verstappen abriu o Q2 com 1min17s296, até então o melhor tempo do fim de semana húngaro. Mas sua volta foi cancelada por exceder os limites de pista. “Do que vocês estão falando? Limite do quê?” “Pista, Max. É onde você deve andar”, explicou o engenheiro. “Onde foi?”, insistiu o piloto. “Na curva 5.” “Onde é isso?” “Depois da 4.” O ambiente, percebe-se, estava pesado na Red Bull. As piadas sem graça de Ricciardo fazem falta.

Restavam menos de 4min para o final do Q2 quando Verstappen abriu nova volta. Mentalmente, contava: “Curva 1, 2, 3, 4…” Na 5, passou longe das linhas brancas. “Aqui é pista?”, provocou. Fechou a volta em segundo. Estava atrás de Norris, aquele que disse, ontem, que o carro da McLaren é ruim em curvas lentas – sendo desmentido pelos fatos.

Sainz, Ocon, Ricciardo, Stroll e Gasly foram os eliminados no Q2, ficando com o espanhol da Ferrari a primazia de segundo vexame do dia, depois de Russell. A surpresa do sábado era a Alfa Romeo, com seus dois carros entre os dez primeiros. Incompreensível. Mas a ATA, claro, explica.

“Ah, tá…”, dirá alguém sem entender nada, mas fingindo entender tudo.

Sainz fora: mais um vexame da Ferrari

Com 1min16s904, Norris abriu os trabalhos do Q3 fazendo uma boa volta, mas Verstappen tratou de colocar ordem na casa e cravou 1min16s612 na sequência. Então veio Hamilton, que pulou para segundo. Os pneus, agora, eram os macios – nunca se esqueçam que estamos sob o regime da ATA (o significado da sigla está na postagem de ontem, não vou ficar repetindo aqui ad eternum).

Na segunda rodada de voltas rápidas, Max não melhorou seu tempo, como costuma fazer. Mas Hamilton, sim. No fim de semana em que dissera que “estamos no pior momento da Mercedes”, Lewis fez uma volta excepcional em 1min16s609, superando o rival por quase nada. Saiu do carro esbaforido. “Estou sem voz de tanto gritar!”, comemorou. “Não esperávamos estar na briga aqui, mas é o primeiro passo de uma longa jornada para voltarmos ao topo”, seguiu, abrindo na sequência a lista dos agradecimentos. Neste exato momento, está mandando abraços para a galera da cantina da fábrica, para o garoto do xerox e, como ele mesmo falou “para meus irmãos e irmãs que cuidam do gramado da entrada, sem esquecer aquela moça da recepção, aquela de cabelos vermelhos e piercing na sobrancelha”.

Hamilton e Verstappen na primeira fila não deixa de trazer alguma nostalgia de 2021, a última grande temporada da F-1. Norris, Piastri, Zhou, Leclerc, Bottas, Alonso, Pérez e Hülkenberg fecharam a turma dos dez primeiros. Há claras novidades aí, como a McLaren “fraca nas curvas lentas” em terceiro e quarto, a Alfa Romeo na xepa de sua história em quinto e sétimo, a Aston Martin de Alonso que perdeu o brilho, a Haas de Hulk no meio de uma turma que não é a dela.

Não sei se era essa a intenção da ATA, mas seja como for, deu certo.

Ah, tá.