
SÃO PAULO – Button ganhou a corrida na experiência e na ousadia. Todo mundo largou de intermediários, e ele foi o primeiro a sacar que iria secar e colocou slicks já na sétima volta, assumindo o risco de se dar mal. E se deu bem. Mas, mesmo assim, era prova para a Red Bull de novo.
Vettel tinha largado bem, voltara da sua troca na frente, estava tranquilo quando foi parar na brita. Aí caiu no colo de Jenson (e eu chutei que ele ia ganhar…). Que não se desesperou na parte final da corrida, quando seus tempos eram 2s piores que os de Hamilton, que vinha babando lá atrás, com pneus novos. Ele sabia que o parceiro teria osso duro pela frente antes de chegar perto de seu carro.
E teve. Mesmo assim, Lewis foi o showman da prova, fazendo ultrapassagens arriscadas, lutando até o fim, como sempre. Não vi nenhuma bobagem dele, em momento algum. Quando chegou em Alonso, entendeu atrás de quem estava e não atacou feito uma vaca louca. E aí quem barbeirou foi Webber, outro muito combativo na corrida, mas mais estabanado.
Mas até mesmo seu toque em Hamilton deve ser relativizado. Ele estava muito perto. Ambos tinham carro e pneus para passar Alonso.
Só que Fernandinho é El Fodón de las Astúrias. Antes, tinha chegado em Massa com chances de passar, mas não fez nenhuma besteira para levar o pódio. Preferiu a política da boa vizinhança, porque de burro não tem nada. Aí, quando Hamilton encostou de vez, no final, passou a fazer um traçado irritante, até retardar a freada ao máximo na penúltima volta, fazendo o inglês brecar de supetão também, e Webber embutir em sua bunda. Babau, quarto lugar garantido.
Alonso é o favorito ao título por essas e outras, mas é bom a Ferrari se coçar, porque carro rápido, hoje, quem tem é a Red Bull. A McLaren também, mas em certas circunstâncias, apenas. Com pneus novos, por exemplo, como Hamilton demonstrou.
Do resto, há que se falar de Schumacher, por exemplo. Engalfinhou-se com Alonso na largada, mas não teve um milionésimo do poder de reação do espanhol. Perdeu um tempão atrás de Jaiminho, mas lutou por um ponto até o final. E conseguiu. Mas é pouco. Aliás, a Mercedes não entusiasma demais. Rosberg chegou em quinto graças ao enrosco de Hamilton e Webber. Não fosse isso, terminaria numa gloriosa sétima posição, mais ou menos o que fazia com a Williams no ano passado. Massa conseguiu se redimir das más corridas que sempre faz na Austrália, largou de maneira excepcional, teve um ritmo oscilante, mas garantiu um pódio importante, segurando a posição com firmeza diante dos ataques tímidos e cautelosos de Alonso. Barrichello fez o que pôde e levou seu carro aos pontos de novo. E Liuzzi, em sétimo, merece aquelas medalhinhas de honra ao mérito.
Já minhas queridas nanicas cumpriram seu papel. Kovalento terminou em 13º compensando o triste domingo de Trulli, que nem largou, coitado. Chandhok viu a quadriculada, embora cinco voltas atrás. Os virginianos se deram mal com quebras e Senna-sobrinho não passou da terceira volta.
Observação pertinente da blogaiada e dos twitteiros: o locutor oficial falou “Virgin” mais de uma vez nas transmissões da TV no fim de semana. E não usou a sigla VRT. Ao menos que eu tenha percebido. Evitou também mencionar a Hispania nominalmente. Na prática, as equipes viraram EdLdG e EdBS — Equipe do Lucas di Grassi e Equipe do Bruno Senna.
Vá lá. Esse assunto já cansou, também. Que usem os nomes que quiserem.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.