SÃO PAULO (apareceu a margarida) – Pedi que entrasse em contato pelo Skype, mas não rolou. Falo de Gola Profonda, meu contato na Ferrari que andava meio sumido. Foi exigência minha, o Skype. Ligação a cobrar o tempo todo, do exterior, dá um preju danado. Só que ele não sabe usar o Skype. Estou meio velho para algumas coisas, me disse. Já notei, respondi, o que o deixou meio zangado.
Enfim, esses detalhes não importam tanto. Sei até de qual orelhão ele ligou, na Diagonal, do lado de um campo de futebol. É o caminho de volta para o hotel.
E aí, o que tá rolando?, perguntei, sem maiores preliminares porque quem paga a conta sou eu. Quer comprar uma asa?, ele respondeu de bate-pronto. Asa? É, tô com ela no carro. Que asa é essa?, perguntei de novo, vou fazer o quê com uma asa? Pendura na parede. Tá novinha, e tenho duas. Mas a equipe não ia usar? Eles erraram a medida, informou Gola. A régua estava descalibrada. Eles? Uai, não seria “nós”? Desconfiei. Gola estaria fazendo um “frila” para mais alguém? Ele não dá pistas, embora o sotaque, às vezes… Sei lá.
Seguiu. A régua estava descalibrada. Era daquelas pequenas, de 15 centímetros. O cara mediu errado. Gostei da ideia de pendurar uma asa na parede. Quanto você quer nela?, perguntei. Uma só ou as duas? Se levar as duas, faço desconto. Uma só. Ele deu o preço e achei extorsivo. É histórica, respondeu. Nunca na história desta equipe alguém errou a medida de uma asa. Vai valer bastante daqui a alguns anos.
Como desconheço o mercado futuro de asas fora das medidas, declinei. Prometi procurar comprador. Já tem gente na fila, ele disse, impaciente. Então vende, uai. Quem vai querer um negócio desses? O Rubinho fez uma oferta, ele disse, jogando verde. Então vende pra ele. Na hora Gola abaixou o preço. Fiquei de pensar. E perguntei o quê, afinal, o Alonso comemorou em Barcelona. Menos de um segundo, falou. Tomou menos de um segundo do Webber. E isso é bom?, questionei. Claro que é. Ele ganhou uma aposta. De quem? Do Domenicali. O Domenicali apostou que ia levar mais de um segundo? Dois. E o Luca tinha apostado um e meio. O cara ganhou duas apostas. O presidente apostou que ia levar um segundo e meio? Cravado, confirmou Gola. Os dois vão pagar a janta pra ele. E o Felipe?, perguntei. Tá bronqueado. Porque vai largar em oitavo? Não, porque ficou na frente do Kobayashi. Ele tinha apostado no Kobayashi entre os seis primeiros. E também tinha colocado dois segundos da pole, e ficou um pouco menos. Tá puto com o Vettel. Por que com o Vettel? Porque o Vettel não tentou melhorar. O Vettel tinha apostado no Webber. Foi por isso que ele não tentou melhorar? Não é só isso. Ele quer usar a asa móvel, diz que todo mundo tá usando e só ele não pode, e o Felipe acha que isso é uma fraude, que ele não podia deixar o Webber fazer a pole só pra usar a asa móvel. Quebraram o pau. Mas teve briga, vias de fato? Não, o Sutil separou.
Agitado, o dia em Barcelona.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.