SÃO PAULO (treinar cansa) – A quarta pole em quatro corridas, e Tião Alemão vai escrevendo sua história. Com 23 bem vividos anos, chega a 19 poles na carreira e na próxima entra para a lista dos dez mais de todos os tempos. Não é pouco. E o rapaz faz tudo com uma naturalidade irritante para os adversários. Nem treinou ontem, depois de um pancão na chuva, mas hoje fez a pole do jeito que quis, sem esforço, colocando quase meio segundo em Webber, com quem divide a primeira fila turca.
O início da temporada europeia, pelo jeito, não mudou muito as coisas, exceto pela troca entre Mercedes e Ferrari na condição de terceira força. Os italianos estão andando para trás, às voltas com um carro problemático, com o mau humor de Alonso, com as limitações de Massa, com a tensão da chefia. Fernandinho ficou em quinto no grid e Felipe foi o décimo, depois de gastar inexplicavelmente um jogo de pneus macios no Q1 — ele contou que não sentiu muita firmeza no tempo que obteve com os duros e quis se garantir. É uma falta total de confiança no potencial do carro, entre outras coisas.
Aliás, a história de guardar pneus macios novos vai virar moda, depois do que aconteceu na China. Cerca de 1s5 mais rápidos por volta que os duros, o negócio é mesmo poupá-los para a corrida. Fazem uma diferença tremenda. Massa, no Q3, nem fechou volta. Contou que cometeu um erro na curva 9 naquela que seria sua tentativa única e preferiu abortar para economizar uma volta de pneu chiclete para a prova. A que ponto chegamos…
A Mercedes confirmou a melhora e Rosberguinho ficou com o terceiro lugar no grid, melhor posição do time desde a Malásia no ano passado. E Schumacher, em oitavo depois ficar a 0s001 de Vettel no último treino livre, pode até não ter gostado do resultado, mas se colocou entre os dez primeiros pela primeira vez no ano. Está na cara que a equipe alemã entra na briga por pódios, a partir do resultado de hoje. E afasta Ferrari e Renault — esta, depois de um ótimo início, começou a patinar com Petrov e Heidfeld, embora ambos tenham passado ao Q3.
A McLaren continua sólida e próxima da Red Bull, mas ainda sem condições muito claras de derrotar os rubrotaurinos em condições normais. Hamilton só ganhou na China por causa dos pneus. Alertada, a trupe de Adrian Newey saberá administrar essa história da borracha a partir de agora.
Sem surpresas entre os dez primeiros (as cinco grandes e quase-grandes ocuparam todos os lugares), restou uma briguinha interessante no pelotão intermediário, com Barrichello se superando e obtendo um ótimo 11º, à frente de forças emergentes como a Force India (esperava-se mais, pelo menos um no Q3) e a Sauber, que teve um dia ruim: Koba, o mito, nem fez tempo porque teve um problema na bomba de gasolina ainda no Q1 e larga em último; Pérez foi discreto, 15º. No grupo das nanicas, a Lotus continua sobrando, e Virgin e Hispania brigam para ver quem é pior. Está dando pena de Glock, um bom piloto, relegado ao purgatório virginiano.
Na transmissão da TV, Reginaldo Leme afirmou que a Williams acertou com a Renault para o ano que vem, uma novidade. Especulou-se no final do ano passado que isso poderia acontecer já em 2011. Agora, pelo jeito, fechou. Boa notícia para a Williams, que além de ter um carro ruim e uma conta bancária apertada, ainda convive com um motor pouco emocionante, o Cosworth. A melhora da Lotus neste ano deve-se basicamente ao motor. Confirmada a mudança, a Renault terá quatro times clientes em 2012: Lotus, Williams, Red Bull e a própria Renault, ou Genii, ou Lotus preta, sei lá como vai se chamar a equipe no futuro.
A corrida? Aparentemente, sossegada para a Red Bull e Vettel, que terá em Webber, talvez, um adversário para as primeiras voltas, até acabar o gás. Vai ser aquele passa-passa divertido por conta dos pneus e da asa móvel, mas o resultado final não deve apresentar grandes surpresas e uma dobradinha é mais do que provável — desde que os dois energéticos não façam o que fizeram no ano passado, um batendo no outro, o outro batendo no um. Desconfio que a briga, mesmo, vai ser pelo terceiro lugar no pódio. E para ele aposto em Hamilton.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.