SÃO PAULO (Guaianazes é longe?) – Ó, eu acho que o Alonso vai ser campeão, mas acho também que a McLaren vai voltar a dar trabalho e ele não pode dar nenhuma derrapada, senão os caras chegam. Deu para ver no pouco tempo de pista seca no fim de semana germânico que os mclarianos resolveram seus pepinos e vão voltar a andar bem.
Sorte do espanhol é que a chuva está ajudando. E que ele é bom na chuva. E sorte da Ferrari que tem o melhor piloto do mundo na atualidade. Um dos melhores desde o Big Bang, também, e um cara que vive a melhor fase de sua carreira, apesar da namorada meio anoréxica — bela, porém.
Hockenheim hoje teve daqueles dias esquisitos que não são exatamente comuns na região. Ontem foi assim, também. Amanhã, ao que parece, não será. Sol e temperaturas amenas, me informam as fontes meteorológicas. O que aconteceu hoje foi que o último treino livre teve pista seca na maior parte do tempo, e Alonso ficou um pentelhésimo na frente de Hamilton — McLaren se acertando, insisto.
A classificação foi mais esquisita ainda. Q1 com pista seca, Q2 com chuva para intermediários e Q3 com chuva para pneus extremamente extremos. Dá para pedir mais?
A atração da primeira parte foi Schumacher, que arriscou fazer sua última volta com pneus médios e ficou em 17°, apenas 0s077 na frente de Verme, o primeiro da degola que, como sempre, deixou as duplas nanicas lá atrás, sempre na mesma ordem: Caterham, Marussia e HRT. Raikkonen fez o melhor tempo da semana, 1min15s693.
Enquanto víamos os comerciais, começou a chover. Quem aproveitou os primeiros momentos do treino, enquanto a pista não ficava uma bosta completa, se garantiu. Hamilton foi o primeiro, 1min37s365. Mais de 20s de diferença para o seco. Dá para ter uma ideia de como ficou molhado. Os tempos com intermediários garantiram os dez primeiros. Dançaram Ricardão, Chapolin, Koba-Mito, Massacrado, Garibaldo, Sobrinho I e Rosberguinho.
Dos brasileiros, à Globo: “Pressão errada dos pneus”, Senninha; “Acabei errando na minha volta”, Felipe. Os dois, novamente, amargaram derrotas para seus companheiros de equipe. Muito ruim para Massa, que precisa de bons resultados nestas duas corridas para negociar uma renovação com alguma tranquilidade, já que o momento é bom para isso.
No Q3, temporal delicioso, daqueles que fazem os pilotos reclamarem pelo rádio aos engenheiros, como se isso fosse adiantar alguma coisa. É como ligar para o Procon. Os tempos começaram a ser registrados, com pneus extremamente extremos, na casa de 1min46s. Mais de 30s piores que no seco. Era muita água.
Mas foram baixando, baixando, até que Schumacher entrou na casa de 1min42s, Webber e Vettel foram a 1min41s e Don Fernando Alonsito El Fodón De Las Astúrias virou 1min40s904 e, depois, 1min40s621. Em Maranello, velas foram acesas por seus devotos. O cara está salvando a pele de meia Ferrari neste ano.
Três infelizes perderão cinco posições no grid por troca de câmbio: Pequeno Rosberg, Canguru Desolado e Romain Garibaldo. Mais um, Pérez, por ter atrapalhado gente no Q2. Assim, Alonso e Vettel dividem a primeira fila, com Schumacher e o Incrível Hulk na segunda. Bom de chuva, o forceíndico, já tinha feito uma pole em Interlagos pela Williams assim. Maldonado sai em quinto (não duvidem mais desse rapaz; ele só precisa parar de fazer cagada em corrida), com Bonitton em sexto, mostrando, insisto, que a McLaren não está morta. Hamilton e Webber (terceiro mais cinco = oitavo) formam a quarta fila, e fecham os dez primeiros Resta Um e Kimi, o Grilo Falante. Massa larga em 13° e Bruno em 14°, considerando já as punições.
Ótimo treino, adoro a chuva, e será ótima a corrida, porque ninguém sabe direito o que esperar dos pneus no seco, nem mesmo a Pirelli, que estreia na pista (no ano passado o GP da Alemanha foi em Nürburgring). Isso, claro, se acertarem nas previsões.
Por fim, um detalhe que não me passou despercebido e tenho certeza que ninguém notou, porque vocês não reparam em nada. Este GP, que sempre foi Grosser Mobil 1 Preis von Deutschland, agora é Santander. Na verdade, pesquisando, vi que foi Mobil 1 até 2006. Até aí, tudo bem, patrocinadores mudam frequentemente. Mas e aquele frasco gigante de óleo Mobil que fica na entrada dos boxes? Repararam que estava pintado de cinza, sem a marca da Mobil? Estava assim nos últimos anos?
É meio insignificante. Só eu reparo nessas coisas. É que sempre que olhava aquele frasco enorme de óleo, tinha fantasias quase eróticas. Imaginava um treco enorme daqueles cheio de óleo dois tempos Mobil para meus DKWs, estoque para o resto da vida, no quintal de casa, com uma torneirinha para pegar quando precisasse.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.