SÃO PAULO (às compras) – A aposta segue em Vettel. Sou teimoso. Apesar da primeira fila da Mercedes hoje em Barcelona, que deveria fazer automaticamente de Rosberguinho o favorito absoluto à vitória, tão impressionantes são as estatísticas dessa corrida no circuito Catalão. A saber:
– Em 22 edições, desde 1991, nada menos do que 17 (77,3%) foram vencidas por quem largou na pole.
– Quatro partiram do segundo lugar no grid, o que eleva a 94,5% o índice de vencedores que largaram na primeira fila.
– O vencedor que largou mais atrás em Barcelona foi Schumacher em 1996, terceiro no grid (foi sua primeira vitória na Ferrari, debaixo de muita chuva).
– A sequência mais impressionante de poles/vencedores foi de 2001 a 2010, interrompida por Vettel, que em 2011 ganhou largando da segunda posição.
Ou seja, portanto, obviamente que essa corrida é a mais previsível do calendário, do mundo e do universo. Donde eu deveria concluir que a Mercedes leva, com Rosberg. Na pior das hipóteses, com Luís Rámilton.
Mas acho que não, por causa dos benditos pneus, como os quais os carros prateados têm certa incompatibilidade. A não ser, claro, que nessas três semanas a Mercedes tenha encontrado alguma solução para comer menos borracha, o que também não é impossível. Como tivemos 90 minutos de treino com chuva na sexta, é difícil tirar alguma conclusão pelos tempos de voltas nas sequências longas dos dois pilotos, já que todo o programa de preparação para a corrida teve de ser alterado.
Sendo assim, sigo com Vettel, mas sem grande convicção, reconheço. Ele e Webber não tiveram nenhum brilhareco no fim de semana. Ficaram pipocando ali na frente, é verdade, mas sem dar sinal algum de superioridade infinita como em outras ocasiões.
Já no Q1 Hamilton fez o melhor tempo, embora usando pneus médios, o que parecia uma covardia contra os duros de alguns adversários. Mas nem era tanto. A diferença nos tempos de volta dos dois compostos não é tão grande assim. Degolados foram os marússicos Chaton e Branquinho, os caterhânicos Van Der Ley e Pica e as duas lamentáveis Williams, de Sapattos e Maldanado. Essa é a equipe que ganhou em Barcelona no ano passado, com o venezuelano. Incrível. Como é fácil fazer um carro ruim, errar a mão e perder um ano. Dá dó.
No Q2, Hamilton foi o mais rápido de novo, com um tempo bastante impressionante: 1min21s001. Não houve grandes surpresas no que diz respeito às quatro grandes atuais, que levaram seus oito pilotos para o Q3. As duas vagas restantes foram disputadas a tapa e golpes de foice, e acabaram entrando uma Force India, de Resta Um, e uma McLaren, de Pérez. Dançaram, pela ordem, Ricardão, Verme, Fútil, Bonitton, o incrível Hulk e Guti-guti. Button, coitado, deu uma errada feia. Vai muito mal a McLaren. Outra que pode jogar o ano no lixo já.
E o Q3 foi o da consagração mercêdica, com Rosberguinho fazendo uma volta excepcional em 1min20s718, 0s254 mais rápido que Lewis, o que é um caminhão de décimos, centésimos e milésimos. Terceira pole dele, segunda seguida. A segunda fila ficou com Tião Alemão e o falante Raikkonen, que tem boas chances com a Lotus por conta do ritmo de corrida. É aposta segura para pódio. Na terceira fila, vermelhinhos: El Fodón em quinto, um milésimo de segundo à frente de Massacrado. E fechando os dez primeiros, Grojã, Canguru, Chiquitita e Resta Um.
Não acredito numa corrida muito emocionante. Ela deve se definir após o primeiro pit stop, quando teremos uma noção de quanto vão durar os pneus da Mercedes. Se eles pararem mais ou menos junto com os demais e não tiverem uma queda de performance muito acentuada nas voltas anteriores à primeira visita aos boxes, aí têm grande possibilidade de vitória. Caso contrário, Vettel e Raikkonen estarão prontos para dar o bote. A Ferrari vai depender do esforço pessoal de Alonso, como sempre.
Verei a prova em VT, vejam que legal. Porque na hora da largada estarei no Canindé. Muito mais importante. Dia de taça, bebê.
ATUALIZANDO…
Massa foi punido e perdeu três posições por ter atrapalhado Webber e larga em nono. Assim, temos nos dez primeiros: Rosberguinho, Rámilton, Tião Alemão, Grilo Falante, El Fodón, Grojã, Canguru, Chiquitita, Amassado e Resta Um. Gutiérrez também tomou três posições no grid por ter se imiscuído no caminho de Button.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.