SÃO PAULO(incrível) – Alguma coisa acontece no coração de Lewis Hamilton quando ele corre em Silverstone. Este será seu 21º GP na pista inglesa. Nos 20 anteriores, fez sete poles, ganhou nove vezes e subiu ao pódio em 15 oportunidades. Ninguém venceu tantas vezes na mesma pista. Uma dessas corridas, lembremo-nos, não se chamou GP da Inglaterra. Foi o GP do 70º Aniversário, prova de 2020 — ano da pandemia, em que alguns circuitos receberam mais de uma etapa. Mas aquele ele não levou, ficou com Max Verstappen.
Hoje, contra todos os prognósticos — inclusive os dele e da Ferrari — fez a pole para a Sprint de Silverstone com uma daquelas voltas mágicas que costumava fazer no auge da Mercedes. Seu tempo: 1min28s376. Kimi Antonelli, o segundo no grid, ficou apenas 0s011 atrás.
“Não faz sentido”, disse George Russell, quinto na classificação com o outro carro da Mercedes. “Era para eles terem ido bem na Áustria e menos aqui. Foi o contrário”, falou o incrédulo piloto da Mercedes. Talvez a relação especial de Hamilton com a pista explique alguma coisa. Mais energia da torcida, ânimo nas alturas, um melhor entrosamento com a equipe, algum acerto especial, atalhos que só ele conhece, sabe-se lá. O fato é que o heptacampeão cravou todo mundo. E ainda teve revelada sua permanência na Ferrari por mais um ano, colocando um ponto final nas especulações sobre seu futuro. E mais: disse que só para de correr quando conquistar o oitavo título.
O grid da Sprint: Lewis e Antonelli na primeira fila
Claro que é só Sprint, tem um peso relativo, mas o resultado de hoje reverte as expectativas para este fim de semana. Se a Mercedes era a favorita teórica para passar o rodo na concorrência, esse favoritismo evaporou com o desempenho do inglês desde o treino livre único, na manhã de hoje para nosotros no Brasil. Ficou em primeiro, assim como no SQ1 e no SQ2. Não foi batido por ninguém. Nem mesmo seu companheiro Charles Leclerc conseguiu andar muito perto. O monegasco larga em quarto, com um tempo 0s327 pior. Na real, só Antonelli ameaçou Hamilton. O resto ficou para trás.
O cumprimento de Antonelli: único que andou perto
A sexta-feira foi ensolarada em Silverstone, com temperatura na casa dos 25°C. Quente para a região. No ano passado, a prova teve chuva e sol, sem casamento de espanhol. A surpresa foi o pódio de Nico Hülkenberg depois de 300 anos de F-1. A McLaren fez dobradinha com Lando Norris e Oscar Piastri. Nada parecido vai acontecer domingo.
No SQ1, Hamilton virou sua melhor volta em 1min29s273. O segundo lugar de Leclerc mostrou que a Ferrari seria mesmo protagonista ao longo da classificação modelo pocket. O segmento eliminou, pela ordem, Oliver Bearman e Esteban Ocon, da Haas, Sergio Pérez e Valtteri Bottas, da Cadillac, e Fernando Alonso e Lance Stroll, da Aston Martin. Nenhuma novidade.
Hamilton baixou o tempo para 1min28s747 no SQ2, primeiro novamente. Foi quando Antonelli começou a preocupar, ficando a 0s099 dele. Caíram Pierre Gasly, Gabriel Bortoleto, Nico Hülkenberg, Franco Colapinto, Carlos Sainz e Alexander Albon. Avançaram as duplas de Ferrari, Mercedes, McLaren, Red Bull e Pode Parcelar em Três, atual quinta força do campeonato.
Piastri com a McLaren retrô: pintura igual à de 1966
Cada piloto deu apenas uma volta rápida no Q3, já com os pneus macios — nas duas primeiras partes só os médios podem ser usados. Todos deram espaço para os coleguinhas, ninguém atrapalhou ninguém e a enorme multidão em Silverstone só tinha olhos para Hamilton. “Amo esta pista, amo essa torcida”, derreteu-se o piloto depois de fazer a pole. Antonelli, Verstappen, Leclerc, Russell, Norris, Piastri, Isack Hadjar, Liam Lawson e Arvid Lindblad fecharam o grupo das dez primeiras posições.
O tempo da pole de Hamilton foi cerca de 3s5 mais lento que o da pole para a corrida do ano passado. Era esperado. Mas os pilotos ficaram surpresos com o desempenho dos novos motores, que não perderam tanta potência por falta de energia no veloz circuito britânico. “A gente achava que seria muito pior”, admitiu Lewis, que está usando neste fim de semana um capacete com a mesma pintura da época em que ainda corria na GP2, antes de estrear na F-1. Seu chefe era o mesmo, Frédéric Vasseur. Sobre a pole, foi sincero: “Foi uma surpresa. A gente não estava esperando”.
Vasseur e Hamilton em 2006 (foto do alto): capacete igual
A Sprint de amanhã terá 17 voltas e largada às 8h de Brasília. Silverstone recebeu a primeira corrida curta da história, em 2021, e depois não teve mais. Naquele ano, só os três primeiros pontuavam. Agora são oito. Ao meio-dia todos voltam à pista para definir o grid do GP da Inglaterra, nona etapa do Mundial. Foi a segunda pole de Hamilton para corridas Sprint. Ele já venceu uma, na China no ano passado.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.