VAGA HOLANDESA (4)

SÃO PAULO (até a próxima) – Lando Norris fez valer a pole-position conquistada ontem e venceu o GP da Holanda, na despedida do país do calendário da F-1. Desde 2021, quando a categoria voltou aos Países Baixos (detesto, isso), só o pole venceu. O inglês da McLaren manteve a escrita.
Mas não foi fácil. A corrida holandesa (neerlandesa, nederlandesa, país-baixesa) foi úmida, acidentada, movimentada e divertida. Lando não liderou de ponta a ponta e venceu chupando cana e assoviando. Perdeu a ponta várias vezes e só conseguiu retomá-la no fim graças à boa estratégia da equipe e a uma linda ultrapassagem sobre Kimi Antonelli no apagar das luzes do espetáculo. Mereceu. Foi sua segunda vitória seguida no campeonato e a 13ª na carreira.
Norris, apesar do bom momento, ainda está muito longe de brigar pelo título desta temporada. O mau começo de ano da McLaren deixou o atual campeão para trás na tabela e ele está em quarto no campeonato com 159 pontos, 83 atrás do líder Antonelli, que foi a 242. George Russell, companheiro de Kimi na Mercedes, e Lewis Hamilton, da Ferrari, vêm a seguir com 183. A diferença deles para o italianinho, que completa 20 anos na terça-feira, é de 59 pontos. Antonelli terminou a prova de Zandvoort em segundo, com Russell fechando o pódio em terceiro.
A pista holandesa é curta, mas a jornada deste domingo foi longa. A ela, pois.

Choveu pela manhã em Zandvoort, atrapalhando os planos de quem pretendia se bronzear nas areias do cinzento Mar do Norte. Estava frio, inclusive, 17°C. Não era domingo para passar protetor solar e tomar uma água de coco. Mas a chuva parou antes da largada, marcada para as 15h locais.
Apesar de ter sobrado alguma aguinha aqui e uma umidadezinha ali, nenhum piloto quis saber de colocar pneus intermediários para começar a prova. Valentes, todos foram para o grid com pneus para pista seca.
A volta de apresentação foi percorrida atrás do safety-car. Norris, Antonelli, Russell, Oscar Piastri, Pierre Gasly, Franco Colapinto e Esteban Ocon largaram com pneus médios. Valtteri Bottas, com duros. Os demais optaram pelos macios, que aguentaram bem o tranco na véspera, como se viu na Sprint. Não havia spray. O asfalto era capcioso, porém: úmido, frio e muito escorregadio pela proximidade com a praia – os ventos que movem moinhos também levam areia o tempo todo para o circuito.
Se a largada foi tranquila – Antonelli passou Russell, Gabriel Bortoleto perdeu quatro posições, Hamilton quase bateu em Max Verstappen, que quase bateu em Liam Lawson, mas tudo ficou no “quase” e nada de realmente notável ocorreu –, no fim da primeira volta uma senhora pancada suspendeu a corrida. Na última curva, uma das duas inclinadas do traçado, Max perdeu o controle de seu carro e se estatelou no muro.
A batida foi bem forte. Quem vinha atrás do holandês viveu momentos de terror. Bortoleto, por exemplo, rodou no molhado, também, mas não bateu em nada. Nico Hülkenberg esteve muito perto de pegar o companheiro em cheio, mas conseguiu desviar. Outros carros lograram evitar um desastre maior. Milagrosamente, todos passaram ilesos. A bandeira vermelha foi acionada imediatamente e a turma retornou aos boxes. Verstappen saiu sozinho do carro, sem se machucar. Pelo rádio, pediu desculpas à equipe.
Os líderes já tinham entrado na segunda volta quando a corrida foi interrompida. No momento em que todos foram aos boxes, oficialmente começou a volta 3. Dessa forma, a direção de prova estabeleceu que uma nova largada seria realizada com os carros nas posições em que se encontravam na volta anterior. O GP ficou parado por cerca de meia hora para que tudo fosse organizado e a pista fosse limpa.

Norris foi reconduzido à pole-position, agora com Antonelli ao seu lado na primeira fila. Russell caiu para terceiro. Situação curiosa: na segunda largada, quem teria chance de atacar o companheiro seria o inglês, já que partiria do lado mais limpo da pista. Poucos minutos antes, tinha sido vítima das posições pares do grid, que ficam no lado mais sujo e menos aderente do circuito. Foi assim que Kimi deu o bote para cima do parceiro. Charles Leclerc, Piastri, Hamilton, Lawson, Gasly, Colapinto e Yuki Tsunoda formavam as cinco primeiras filas.
Bortoleto teria de recomeçar a prova em 17º. Em relação às posições originais, era o que tinha levado o maior prejuízo, já que estava em nono no grid. Leclerc, de sexto para quarto, foi quem mais saiu no lucro na turma da frente. No pelotão intermediário, Colapinto ganhou quatro posições. Lá no fundão, Fernando Alonso pulou de 18º para 14º e Oliver Bearman, de 20º para 16º.
O safety-car conduziu o pelotão para o novo grid. Alguns pilotos, durante a paralisação, trocaram de pneus, como Piastri, Alexander Albon, Valtteri Bottas e Sergio Pérez — que colocaram duros, com a intenção de ficar bastante tempo na pista até uma eventual segunda troca. No caminho para a formação do grid, Bearman quebrou. Uma nova volta de formação foi necessária para sua retirada da pista.
A nova largada, na quinta volta. foi surpreendente. Antonelli, contrariando a lógica, passou Norris como um foguete, mesmo saindo do lado mais sujo da pista. Russell teve um início hesitante e perdeu a posição para Piastri, caindo para quarto. Punidos por irregularidades sob as bandeiras amarelas, Arvid Lindblad e Colapinto tiveram de passar por dentro dos boxes e caíram para o fim da fila.

Ali pela décima volta a prova começou a se estabilizar com Antonelli abrindo mais de 1s sobre Norris, que por sua vez também escapava sem dificuldade de Piastri, o terceiro, muito em função dos pneus duros do australiano. Russell, Leclerc, Hamilton, Lawson, Gasly, Hülkenberg e Tsunoda ocupavam as dez primeiras posições. Na volta 12, Bortoleto parou nos boxes precocemente, colocou pneus médios e voltou em último.
Russell parou na 18ª volta. Voltou em nono, com pneus duros. Piastri foi aos boxes na volta seguinte e colocou um novo jogo de pneus duros, perdendo a posição para George. Na volta 22, Antonelli, Norris e Leclerc pararam juntos. Hamilton assumiu a liderança. O pelotão ficou todo embaralhado, com Albon em sétimo e Alonso em oitavo – sem pit stops.
Na ponta, com pneus macios, Lewis informou à equipe, pelo rádio, que estava tudo bem com a borracha. Mas era uma meia-verdade. Antonelli, Norris e Russell, que vinham atrás dele, faziam tempos cerca de 2s por volta melhores que os do ferrarista. Na volta 26, então, ele parou e colocou pneus duros. Voltou em sexto. Kimi retomou a liderança.

A corrida estava muito divertida no pelotão intermediário com carros da Audi, da Alpine e da Tem Coisas Que o Dinheiro Não Compra Para as Outras Existe Visa trocando tinta – Hulk, Gasly, Lindblad e Tsunoda garantiam o entretenimento com ataques mútuos e manobras arriscadas uns sobre os outros, ainda que as posições não valessem muita coisa. Na frente, Norris resolveu acelerar e partir para cima de Antonelli. Ali, o que estava em jogo era a liderança da corrida – outro patamar, como já dizia na Roma Antiga o conhecido filósofo das apostas Brunus Enricus; “in alio gradu”, para quem prefere a citação no original.
Se Lando ambicionava a ponta, seu companheiro Piastri, em quarto, sofria para se segurar onde estava. Na volta 34, foi ultrapassado por Leclerc. Na 35ª, quem tomou o lugar dele foi Hamilton. Dois risquinhos vermelhos na carenagem papaia do australiano.
Na volta 41, box para Antonelli e Russell. A dupla da Mercedes calçou pneus novos e a McLaren começou a fazer as contas para a nova troca de Norris. Mas decidiu mantê-lo na pista por mais um tempinho. Atrás dele, treta pública na Ferrari: Hamilton, em terceiro, pediu para Leclerc, o segundo, sair da frente porque tinha um ritmo melhor. O time chamou Charlinho aos boxes. O monegasco reclamou, disse que não era obrigado a nada, que tinha autonomia, que desde criança era conhecido por desobedecer a professora de artes e o bedel no recreio e não parou. Foi fazê-lo duas voltas depois, na 44ª, espumando de raiva. Lewis ficou igualmente colérico. “Belo jeito de perder tempo, parabéns”, disparou pelo rádio para todo o Brasil e o mundo, em ondas médias e curtas.
A briga pela vitória ficaria, na parte final da corrida, entre Norris e Antonelli. A ideia da McLaren foi manter Lando na pista o máximo possível para deixá-lo com pneus melhores no fim, em condições de atacar o adolescente da Mercedes. Parou na volta 48 e retornou ao campo de batalha 4s8 atrás de Kimi, com pneus sete voltas mais novos. Daria, mas seria difícil.

Com as paradas de Antonelli e Norris, a liderança ficou com Hamilton novamente, mas por pouco tempo. Ele teria de fazer um segundo pit stop, ainda. E Norris, na volta 52, a 20 do final, grudou em Antonelli. O italiano tinha problemas de aderência, reclamava dos pneus traseiros e via o inglês se aproximar pelo retrovisor. Na frente dos dois, em primeiro, Lewis seguia enrolando antes de parar pela última vez. Mas estava bem mais lento que os dois atrás dele. Na 54ª volta, Antonelli vacilou. Ensaiou a ultrapassagem sobre Hamilton, deixou um espaço minúsculo do lado esquerdo e Lando mergulhou para ganhar a posição. Algumas curvas depois, deixou Hamilton para trás e retomou a liderança da corrida. Antonelli também passou a Ferrari #44.
No mesmo instante Ocon quebrou e o safety-car virtual foi acionado, na volta 55. Lewis aproveitou, fez sua troca e colocou macios para as últimas voltas. Leclerc fez o mesmo. Piastri também parou. Depois, Antonelli. Quem pôde colocou borracha macia enquanto o Haas de Ocon era retirado do cenário de guerra.
Norris ficou preocupado. “Paramos também?”, perguntou. “Estamos estudando aqui”, respondeu o engenheiro. Mas não deu tempo de pensar demais. Na volta 58 a prova foi retomada com Norris na liderança, seguido por Russell, Antonelli, Hamilton, Leclerc, Piastri, Lawson, Hülkenberg, Alonso e Gasly nas dez primeiras posições. Os dois primeiros com pneus duros bem usados – 11 e 18 voltas, respectivamente. Kimi, Lewis, Charles e Oscar tinham macios menos gastos – e mais rápidos. Seria um fim de prova bem interessante.
Lando tinha alguma folga para Russell, 8s6. Este, por sua vez, estava apenas 3s9 à frente do impetuoso companheiro, filho de dona Veronica, que já pegava o celular para ligar para Toto Wolff (ela telefona, não manda mensagem). Antonelli ia chegar. E tentaria ultrapassar. Alerta de treta de novo. Russell, pelo rádio, pediu alguma civilidade, espírito de equipe, empatia, solidariedade, compreensão, camaradagem, companheirismo. A equipe não respondeu. Naquele momento, tentava tranquilizar dona Veronica, que aos berros exigia o segundo lugar de volta para o filho, já que ele tinha parado para um nova troca de pneus e George, “aquele grandão do olho azul”, não.

Não havia muito o que fazer. Kimi era cerca de 1s mais rápido por volta que o parceiro. Atrás dele, Hamilton também se aproximava rápido. O time, então, pediu que Russell saísse da frente para que Antonelli não fosse ameaçado pelo inglês da Ferrari. George ensaiou uma reação pelo rádio, “veja bem”, começou, como de hábito, mas acabou deixando, na volta 66. A contragosto, claro. Dona Veronica nem agradeceu. Bateu o telefone e foi terminar de fazer a macarronada.
Hamilton, então, partiu para cima de Russell atrás do pódio. Mas enfrentou resistência. Na volta 70, um safety-car virtual de alguns segundos foi acionado para que fossem retirados alguns destroços da pista. Durou pouco a intervenção, e Lewis foi à luta novamente pelo último troféu do dia. George seguia vendendo muito caro aquele degrau, como se dissesse: se vocês não me mandassem entregar a posição, eu também conseguiria segurar o Kimi, e o Kimi conseguiria segurar o Lewis como estou fazendo, e vão todos à puta que o pariu.
Foi brabo, Russell. Terminou em terceiro com os dois carros da Ferrari bufando no seu cangote, Hamilton em quarto, Leclerc em quinto. Norris venceu com 11s5 de vantagem sobre Antonelli. Piastri foi o sexto, seguido por Lawson, Hülkenberg, Alonso e Gasly. Não deixemos passar em branco o oitavo lugar do alemão da Audi, muito menos o nono de Alonso. O quatrargólico conseguiu seu melhor resultado no ano e Fernandinho, puxa vida… Saiu do brejo onde se meteu a Aston Martin na primeira metade do campeonato e já pontuou com o carro novo de motor novo da Honda, bem melhor que a porcaria de motor de CG que começara a temporada.

Antes do pódio, Russell vestiu a capa da elegância, esfriou a cabeça e evitou reclamar da Mercedes. “Ele tinha pneus mais novos e ia acabar me passando”, falou, sobre Antonelli. “Estava na minha frente antes [da terceira troca] e mereceu chegar à frente.” Kimi, por sua vez, agradeceu: “Ele é um cara de equipe”. Dona Veronica cogitou chamar o grandão do olho azul para a festinha dos 20 anos no bufê, cuja decoração é um mistério – acredita-se que Kimi pediu a temática de Peppa Pig, que gostava de ver quando era criança, no ano passado.
A Holanda se despediu da F-1 com 325 mil ingressos vendidos para os três dias do evento, segundo os organizadores e promotores da categoria, que têm mentido descaradamente sobre público neste ano – todos os GPs bateram recordes, até mesmo os que foram cancelados, o que parece extraordinário além da conta. Não tem importância. Mintam à vontade, não faz diferença alguma. O que faz diferença é ver corrida boa. Quando os satânicos motores elétricos e suas baterias bizarras não cortam a potência no meio das retas, sai corrida boa. Aconteceu em Zandvoort porque é uma pista curtinha e cheia de curvas. Em Monza, daqui a duas semanas, não vai ter como disfarçar.







